São José: UM HOMEM SILENCIOSO

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A primeira atenção de quem se prepara para observar a figura de José é imediatamente atraída por uma circunstância um tanto negativa: ele, no Evangelho, passa como uma sombra, despercebido, sem agitação e sem ruído. Não o ouvimos dizer uma palavra durante todo o período de sua presença.

São Mateus mostra-nos, no início do seu Evangelho, como um homem preocupado em busca de uma solução honrosa e justa para resolver o grave problema que se lhe apresenta. Mas ele o faz em silêncio, sem compartilhar uma intimidade que não é unicamente sua e que, portanto, não poderia comunicar sem arriscar prejudicar a outra pessoa envolvida. É um homem que, face a face com Deus e com a sua consciência, examina serenamente uma situação. Sem reclamar, sem buscar um suporte para cumprir parte de sua responsabilidade, ele enfrenta com lucidez as circunstâncias e se encarrega da decisão final.

Sem reclamar e sem demora, ele deixa Nazaré com sua esposa para ir a Belém para cumprir o censo, assim que tivesse notícias do édito de César Augusto. Nem o menor sinal de sentimentos de ansiedade e humilhação quando, na cidade de Davi, não encontra lugar para a Virgem no quarto de hóspedes que está prestes a dar à luz. E ali, sem comentários, em silêncio, ele testemunha a chegada dos pastores, ouve-os relatar sua visão de anjos à noite, vê sua homenagem ao Menino e à Mãe.

Ele vai ao Egito e volta sem pedir nenhuma explicação, e sem explicação ainda dirige seus passos para a Galileia, para Nazaré. Aqui seguir-se-ão alguns anos sombrios, envoltos num silêncio, se possível, ainda mais denso; e quando finalmente pôde falar, encontrando Jesus no templo depois de três dias de angústia indescritível, ele se afasta e deixa que ela, a Mãe, faça a Jesus a pergunta que deve ser feita. Depois disso, ele desaparece do Evangelho e cai no esquecimento. Nem uma palavra sobre sua morte; apenas uma lembrança, mais tarde (e sem nomeá-lo), quando, em Nazaré, os aldeões, maravilhados com a sabedoria de Jesus, exclamam: “Não é filho do carpinteiro?” (Mt 13,55).

José não tinha nada a nos dizer; e nada que, quando contado aos outros, tivesse alguma importância para nós. Mas há silêncio e silêncio; e é evidente que o silêncio de José não é mero resultado de uma vida vivida em um ambiente entre pessoas e em uma época tão banal e anônima que não contém nada de memorável. Por outro lado, o ambiente, as pessoas e o tempo de José são, sem dúvida, não apenas notáveis, mas de alguma forma únicos, tão únicos que são incomparáveis e irrepetíveis. A história do mundo nunca mais tocará em tal momento, nem nunca mais será dado a ninguém viver em tão íntima conexão com o divino como então. Porque, com efeito, não voltará a acontecer que a terra, o planeta feito por Deus para que os homens ali vivam, abrigue o Filho Unigênito de Deus feito homem, nem nunca mais hospedará uma criatura igual à Bem-Aventurada Virgem Maria; nenhum outro período da história será dado para testemunhar uma transformação prodigiosa do mundo — de incisivo e profundo sem paralelo — como a originada por uma dúzia de estranhos rudes e sem instrução, populações de horizontes estreitos e desprovidos das habilidades mais elementares entre aqueles sendo considerados necessário para ser bem-sucedido. Basta ter folheado os Evangelhos para saber que não resta uma única palavra dele; mas não sabemos a razão disso, e por mais inferências, metáforas ou explicações que queiramos aplicar a essa curiosa circunstância, elas continuarão sendo hipóteses incertas, ainda que, às vezes, piedosas e úteis.

Por outro lado, não é incerto — pelo contrário, é bastante certo — o fato que acabamos de apontar: que José, no Evangelho, não diz absolutamente nada, e daqui podemos tirar consequências mais úteis, para nossas vidas normais, do que mil conjecturas possíveis sobre as razões desse silêncio.

José é aquele homem envolto em silêncio e que inspira silêncio. Não porque seja um silêncio vazio, uma mera ausência de palavras e pensamentos, uma espécie de espaço vazio, um simples silêncio. Pelo contrário, é um silêncio denso, “profundo em que todas as palavras estão contidas”, um silêncio “vivificante, revigorante, pacificador, saciante: silêncio substancial”.

Isso significa algo? O que você quer dizer com essas palavras?

Certamente se fala do “profundo silêncio em que todas as palavras estão contidas” no mesmo sentido em que se diz que todas as cores estão contidas no branco. Não vazio, ausência, mas plenitude: “O seu silêncio é a abdicação da palavra na presença do Insondável, do Imenso”. José se deparou com o mistério de um Deus feito homem, de uma Virgem que concebe sem a obra de um homem, e de uma escolha — aquela que Deus fez sobre ele — destinada a vigiar o mistério e proteger seus protagonistas. O que ele poderia dizer diante de tal prodígio, olhando para si mesmo — um homem simples, artesão de uma aldeia remota em um canto do Império — e vendo-se não apenas um espectador do evento mais maravilhoso que já aconteceu desde a criação do mundo, mas mesmo projetada no coração dele por um desígnio específico de Deus? Não se fala quando se está imerso na contemplação do divino, quando a grandeza do que se contempla é tal que qualquer palavra é indigna de uma realidade que ultrapassa em muito a pessoa e o que ela pode dizer. E em todo caso, mesmo que houvesse algo a dizer, não lhe cabia, José, dizê-lo. Sua missão era outra. 

Isto também deve ser dito: o seu não era o silêncio do sonhador. Ele era um homem calado também do ponto de vista da imaginação: um homem, de fato, não pode fazer um slogan e se calar, devido às mil imagens que pululam em sua alma, mergulhando-a na irrealidade. Mas São José dá antes a impressão do homem que coloca sua imaginação a serviço das necessidades concretas, sem se perder em sonhos vãos, desprovidos de propósito e significado. Talvez fosse por não ser um sonhador que pudesse se tornar um homem eficaz, capaz de realizar o que lhe dizia respeito, e mais atento ao trabalho presente do que imaginar um futuro distante, irreal e incerto. 

A primeira coisa que observamos em José é, portanto, o silêncio; um silêncio que não é vazio, mas rico de conteúdo. E a primeira lição que podemos aprender com ele fala-nos de um silêncio benéfico, um silêncio que não deriva da distração, de um pensamento ausente porque está imerso no “Outro”; mas que nasce da contemplação e é, em simultâneo, condição que torna possível a interioridade. A reflexão, e menos ainda a contemplação, não pode ser combinada com a logorreia. Um mínimo silêncio é necessário para que a atenção da mente se concentre na consideração do que temos à nossa frente, para resolver as questões que, com certa frequência, a vida cotidiana traz aos nossos olhos. Esta atividade interior — sendo a demonstração do fato de que um homem tem uma vida sobrenatural — exige um mínimo de silêncio, sendo “como o porteiro da vida interior”, condição sem a qual a vida interior se impossibilita. A dissipação, o barulho, o torpor resultante da solicitação simultânea de vozes díspares nos chamando gritando de mil lugares diferentes, não favorecem uma atitude reflexiva. Nada perturba tanto a visão clara da alma quanto a turbulência causada por preocupações triviais, pelo enxame de tolices que magnetiza nossa atenção e torna o homem tão leve e inconstante.

Quem está calado pode ouvir; e um homem que ouve consegue aprender muitas coisas. Graças ao seu silêncio, José pôde ouvir o anjo enquanto dormia, este pôde revelar-lhe o grande segredo que envolvia tão profundamente não apenas sua vida, mas a de toda humanidade. Por outro lado, é muito difícil ouvir quando você não consegue conter a cascata de clichês e palavras banais que saem da sua boca. Como alguém que pretende fazer um barulho ensurdecedor pode ouvir algo?

E há um silêncio que é fortaleza. Aqueles que reclamam de cada novo revés e azar; aqueles que proclamam seus problemas dos telhados, e que se justificam a cada momento; que continuamente se sentem obrigados a explicar o que fazem, por que fazem, o que não fazem, por que não fizeram; finalmente, aqueles que precisam da aprovação dos outros para se sentirem à vontade, são homens que ainda não aprenderam a assumir sua própria responsabilidade. Pelo contrário, carregar um fardo sem reclamar e sem fome, o mundo inteiro participa, enfrentar problemas pessoais sem descarregá-los nos ombros, responder por suas ações e decisões sem se esconder atrás de protestos, desculpas e justificativas, isso revela que um homem realmente foi tal. E há grande força naqueles que sabem calar, naqueles que voltam energia e atenção para o dever colocado em suas mãos, para a “única coisa necessária”, ao invés de se dissipar em mil assuntos que não pertencem eles, em ocupações estéreis como os atenienses contemporâneos de São Paulo, dos quais os Atos dos Apóstolos dizem que “não tinham passatempo mais agradável do que falar e ouvir sobre alguma novidade” (Atos 17,21). Bem, a propósito, e totalmente dedicadas a São José, são as palavras de Isaías: “ ‘In silentio et in spe erit fortitudo vestra’, a vossa força estará no silêncio e na esperança” (Is 30,15): porque este homem calado, que esperava em Deus, de fato mostrou sua força em situações difíceis e exigentes, mantendo-se digno da confiança que nele havia sido depositada.

É sempre aconselhável manter silêncio sobre o que não deve ser dito. Muitas vezes se move do orgulho, ou de uma vaidade tola, o impulso que nos faz dizer algo que seria melhor não dizer; por isso, às vezes, machucamos os outros com palavras, ou atiramos pedras para o ar, que caindo atingirão alguém. Acreditamos que somos engenhosos e, para provar isso, não nos importamos que os outros sejam ridicularizados ou humilhados; ou nos esforçamos para nos sobressair menos por nosso crescimento do que pelos meios apressados de rebaixar ou enterrar nosso próximo: às vezes uma palavra maliciosa ou uma breve frase irônica é suficiente para o efeito. Não custa nada aplicar a José estas outras palavras de Isaías: “Não gritará nem levantará o tom, não fará ouvir a sua voz na praça” (Is 42,2). Ele não era, de fato, um amante de discussões, e não passou a vida reclamando, dando explicações, respondendo. Nem protestante, nem queixoso, não tirou a vida para contar suas dores a quem o ouvisse. Menos ainda tratou dos assuntos dos outros e não encontrou tempo para encontrar defeitos na conduta de seus vizinhos, em seu modo de ser, em suas atividades.

O silêncio de José, tão cheio e tão denso, deveria nos fazer pensar. Nós, homens de hoje, falamos demais. Um homem como ele, que poderia nos comunicar coisas maravilhosas por estar no centro do mistério por tanto tempo, fica em silêncio; com seu silêncio protege a intimidade do que deve permanecer oculto, velado tanto pela curiosidade superficial dos olhares que vagam inquietos de uma coisa para outra, quanto pelas línguas desenfreadas cuja única ocupação parece ser espalhar notícias, ruídos e vidas de outros que não importam para ninguém.

E hoje, infelizmente, a única missão, ou a principal, dos chamados meios de comunicação social parece ser a de falar incansavelmente, oralmente e por escrito, sobre qualquer coisa e sobre todo categoria de assunto. A intensidade do ruído, incluindo aquele ruído mudo que não é silêncio, é tal que nos faz pensar que queremos a todo custo impedir até mesmo a possibilidade de um homem exercer sua capacidade de reflexão sobre temas de alguma profundidade. Talvez seja por isso que haja tão pouca interioridade entre nossos contemporâneos, a razão de serem tão exteriorizados, de mergulharem continuamente na multiplicidade de acontecimentos de toda espécie que os impelem dos pontos mais díspares, a poder mostrar, ao equilíbrio final de tanta atividade, fruto único da agitação e do empobrecimento interior. E é provável que seja correta outra observação, muitos, que nada têm a dizer, falam, e sob o barulho da fala e a turbulência das vidas escondem o nada das ideias e dos sentimentos. São José, por outro lado, que poderia ter dito tantas coisas, não fala. Guarda as maravilhas que contempla; e isso é certamente o que mantém um homem em paz, “Senhor de sua alma e possuidor de seu silêncio”.

O silêncio e a reflexão impedem que a mera aparência, a superfície das coisas e dos acontecimentos, sejam véus opacos que ocultam a realidade essencial da criação e do plano de Deus; silêncio e reflexão são como olhos que perfuram a neblina que confunde os objetos e mancha as verdades; e, para além do nevoeiro, permitem-nos chegar ao que realmente é e ao que realmente importa: onde se cale toda voz confusa e discordante para que se ouça a palavra viva, clara e penetrante que Deus, precisamente através dos factos e das criaturas, dirige aos homens, a todos os homens. É por isso que São José conheceu tão bem o plano de Deus e pôde, a cada momento, fazer o que seu Criador esperava que ele fizesse.

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