Maria e as coisas últimas – Parte II

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Solenidade da Assunção de Nossa Senhora

Depois de termos definido os conceitos principais do nosso vocabulário sobre a relação entre Maria e os que pereceram, podemos agora fazer o nosso caminho em direção às coisas últimas (eschatà). Todavia, salvaguardamos que a última Palavra é aquela do Verbo que desde sempre e para sempre ressoa no grande silêncio do mistério. A interrogação sobre o futuro último do homem e do mundo é a grande questão que a milênios movem a humanidade a procurar respostas, pois a certeza da morte não é ideológica. Foi neste contexto que nasceram as filosofias, as perguntas que alimentam a essência do homem sempre em caminho, que ao fim da sua existência procura o infinito e o inalcançável. A pergunta que contém todas as outras perguntas é aquela sobre Deus. A história que quer transcender a realidade compreendendo de onde veio (Criação-Imaculada) e para onde vai (Céu-Assunta).

Na nossa criação entendemos que como seres espirituais existimos em relação com o mundo, com Deus e com os outros homens, sem esta abertura ao diferente de mim não somos capazes de viver. Em sentido contrário, sem esta vida como Aquele que tem haver comigo não conseguimos encontrar um lugar na natureza criada. Por isso falamos de Adão como imagem de Deus mas não como fotocópia de Deus. A relação vital homem-Deus não significa anulação do homem nem muito menos anulação de Deus mas comunhão entre Criador e Criatura. Só neste sentido se pode entender os conceitos do Evangelho de liberdade e comunidade. Somos ao mesmo tempo história-morte-futuro, isto leva-nos a olhar para cada momento da história como um movimento não repetitivo sem um sentido, mas como aproximação das coisas últimas e definitivas. A transição do passado ao presente para construir um futuro está sempre marcada por decisões que nos transformam em partners de Deus no processo contínuo de criação marcada pela esperança que abre ao futuro.

A nossa esperança traz consigo a cicatriz da absoluta auto-presença do eu que tudo raciocinava num progresso indefinido, que  rejeitava a possibilidade de uma relação que fosse para além do mundo e dos outros homens. Desta propaganda da rejeição de Deus, somos passados à liquidificação da esperança que perdeu horizontes e desaguou num nada asfixiante.. Seres sem passado, procedência e direção que flutuam numa existência que conhece apenas o ocaso da acidental morte numa noite sempre mais noite (nihilismo).

Chegados ao dia de hoje, nós deparamo-nos com um paradoxo. Se a fé foi iluminada pela razão, atualmente parecem seguir caminhos diferentes, onde a religiosidade se tornou afetiva, arcaica e superficial. Pensemos à expansão da magia e das visões cristãs do mundo que parecem ignorar séculos de fé num habitual: Deus diz-me que…Eu penso que… etc…

A contraposição entre a fé e a razão ao nível de magistério foi claramente ultrapassada nos nossos dias com declarações como: «A fé e a razão constituem como que as duas asas pelas quais o espírito humano se eleva para a contemplação da verdade. Foi Deus quem colocou no coração do homem o desejo de conhecer a verdade e, em última análise, de O conhecer a Ele, para que, conhecendo-O e amando-O, possa chegar também à verdade plena sobre si próprio» (Fides et ratio 1).

 Tendo esclarecido o contexto onde Maria se insere como presença viva, agora iremos aprofundar qual é a esperança cristã: Cristo. O Verbo de Deus encarnado, Messias escatológico traz uma mensagem de esperança definitiva e universal. Por isso podemos afirmar que do princípio ao fim, o cristianismo é escatologia (= lógica das coisas últimas). Então a fé: «a fé é a certeza daquilo que ainda se espera, a demonstração de realidades que não se vêem» (Heb 11,1) existe para a plenitude daquilo que é definitivo, incondicionado e último (perfeito).

Sendo Jesus a esperança cristã, destino último do homem e do mundo, a nossa história é salvação pela comunhão de amor oferecida progressivamente pelo Deus que se comunica ao homem e que o relaciona com a eternidade. A salvação não é um ato salvífico do passado mas uma intervenção divina que se realiza na esperança de Israel que se concentra no Messias escatológico. O Filho de Maria ao abrir o Reino de Deus às criaturas, dá início a unidade da transcendência e da história selada com a Ressurreição que condensa, purifica e supera as antigas esperanças. O kairós da Encarnação/Anunciação coincide com o escathon e a imaculada maternidade divina com a Assunção. No mistério pascal encontramos o ponto mais alto desta manifestação da escatologia: Jesus morre, destrói a morte de forma definitiva, é sepultado, desceu à mansão dos mortos, ressuscitou dos mortos e oferece-nos a vida: «Bendito seja Deus, o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo. Em sua grande misericórdia, pela ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos, ele nos fez nascer de novo para uma esperança viva,  para uma herança que não se desfaz, não se estraga nem murcha, e que é reservada para vós nos céus», (1 Ped 1,3-4). O Espírito Santo prometido, fruto do mistério pascal, já recebido por Maria, agora dirige-se para os habitantes do novo povo escatológico atraídos pela Cruz: «É agora o julgamento deste mundo. Agora o chefe deste mundo vai ser expulso, e quando eu for levantado da terra, atrairei todos a mim”» (Jo 8,31-32). Só o amor gera para a imortalidade.

A fé cristã anuncia um futuro definitivo e absoluto, não por obra do homem, mas por graça de Deus, assim sendo, o cristão vive num advento (o que há-de vir) do Messias mais até do que num futuro (o que será). Contudo, asseguramos a absoluta transcendência de Deus, ao qual nos devemos entregar como Maria. 

Na escatologia cristã, sobretudo ocidental, nós encontramos a perspectiva universal que parece submeter-se àquela perspectiva individual de um juízo. Contudo ambas coexistem pois: «com efeito, sabemos que toda a criação, até o presente, está gemendo como que em dores de parto» (Rm 8,22) e «O que esperamos, de acordo com a sua promessa, são novos céus e uma nova terra, nos quais habitará a justiça» (2 Pt 3,13). Esta abertura a uma nova intervenção de Deus que virá completar a nova criação na qual: «Deus seja tudo em todos»  (1 Cor 15,28). A criação é contínua e como tal em movimento, com um destino muito bem determinado, o Criador. O encontro da criação com o Criador é a vitória do amor porque: «atualmente permanecem estas três: a fé, a esperança, o amor. Mas a maior delas é o amor» (1 Cor 13,13).

Tentando resolver a confusão de linguagem e vício de algumas leituras parciais da Sagrada Escritura gostaria de esclarecer que Jesus é: «primícias dos que morreram» (1 Cor 15,20) mas também: «a ressurreição e a vida» (Jo 11,25) por isso mesmo: «ressuscitarão, em primeiro lugar, os que morreram em Cristo» (1 Tes 4,16). As conclusões de tais afirmações significam para nós que a ressurreição acontece na criação, e que faz parte dos membros definitivos do Reino. Logo, a assunção da corporeidade na vida futura é transfigurada. Então corpo-homem-criação ressuscita pela relação de Deus que oferece a vida eterna. É colocada aqui a base teológica que nos permitirá depois desenvolver toda a teologia da Assunção.

O Espírito Santo ressuscita Jesus, habita em nós, e nos permite ter fé. Tal como com Maria que na Anunciação a cobre com a sua sombra, então atua a incarnação e realiza a obra da habitação de Jesus em Maria, abrindo-a para a vida eterna que significa o diálogo permanente com o Deus Trindade que se revelou in primis à Virgem de Nazaré. Talvez possamos afirmar que a plenitude da vida eterna existe onde o Verbo tomou a forma dos homens e onde os homens existem um para com os outros e se amam: Domus Mariae! Comunhão com Deus e com os irmãos é vida eterna, ainda que não perfeita pois: «Aquele que crê no Filho tem a vida eterna. Aquele, porém, que se recusa a crer no Filho não verá a vida, mas a ira de Deus permanece sobre ele» (Jo 3,36); e «desde já somos filhos de Deus, mas nem sequer se manifestou o que seremos! Sabemos que, quando Jesus se manifestar, seremos semelhantes a ele, porque o veremos tal como ele é» (1 Jo 3,2).

É neste ‘espaço’ entre tempo e eternidade que Maria se movimenta. A jovem mulher de Nazaré é o ponto de encontro entre a estruturada esperança do Antigo Testamento e o ventre onde se completaram todas as promessas e todas as profecias dos vários séculos. Por esta razão, os Padres da Igreja a reconhecem como nova Eva pois não mais coloca o fruto da morte à disposição do homem, mas o da vida, o Vivente. De terra-Virgem a Mãe dos viventes, de Filha de Sião a Esposa do Banquete eterno. Talvez devamos alongar as nossas conclusões imediatas com uma prévia explicação de como o cheia de graça (kekaritomene) de Maria (Lc 1,28) é o ponto de união entre a eclesiologia e a antropologia. A Igreja e o Homem como espaço da antecipação da glória, a irrupção dos últimos tempos mas ainda não da plenitude da verdade fazem de Maria símbolo de uma esperança que se concretiza com a sua Assunção. Por isso, o Credo une a ressurreição da carne e a vida eterna em ligação com a concepção por obra do Espírito Santo e nascido de Maria, a Virgem. Isso dá-nos o significado escatológico da mariologia e como Maria, Mãe de Jesus nos ajuda a aprofundar a escatologia cristã.       

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  1. É neste espaço entre tempo e eternidade que Maria se movimenta. A jovem Mulher de Nazaré é o ponto de encontro entre a estruturada esperança do Antigo Testamento e o ventre onde se completaram todas as promesdas e todas as profecias dos vários seculos. Chamou minha atenção essa verdade.

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