Salus: Saúde e Salvação na Mariologia

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Em tempos de pandemia nem sempre as palavras são as mais corretas perante o necessário silêncio e respeito por aqueles que sofrem ou que são ‘curadores feridos’.

No que diz respeito à visão mariológica a primeira coisa é não inserir a Mãe no vale das lágrimas mas na terra prometida. Para os cristãos é espontâneo dirigir-se à Mãe de Jesus no momento da dor pois também ela sofreu na sua existência terrena e intercede pela saúde dos seus filhos ou até mesmo pela santificação na doença. Vermos doentes que se confiam à maternal proteção de Maria numa cama de hospital tornou-se nestes meses uma rotina que recupera no IIIº milênio a presença de Maria como pessoa viva com simplicidade e confiança na dificuldade. 

Colocamos a questão: como podemos encontrar teologia nestes atos de ‘piedade popular’, recordando a frase Francisco Suarez (m. 1617): “a piedade sem verdade é débil, enquanto a verdade sem piedade é estéril e vazia” tentaremos apresentar a relação entre Maria e saúde que partilha a mesma raiz da palavra Salvação: salus.

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A Salvação

Quando falamos de salvação numa sociedade plural que é a que nós vivemos, o ponto de partida não pode ser a cultura contemporânea mas a Revelação. A salvação do cosmo acreditada nas religiões da Mesopotâmia desenvolveu-se para a libertação do tempo cíclico, elemento das religiões asiáticas, até chegar à atual participação da vida divina anunciada pelas religiões monoteístas. Destacamo-nos sempre destas visões teológicas pois partimos da Encarnação, Morte e Ressurreição de Jesus Filho de Deus, e ali estava Maria!

Quando aprofundamos a salvação cristã é recorrente pensar na filiação divina como uma graça interior que se distingue da ordem natural e até mesmo entra em conflito com a natureza. Esta visão muito latina da Revelação cristã foi aos poucos sendo colocada em causa já no século XX pela distinção que olha para criação numa visão agraciada que considera a natureza como um dom gratuito de Deus e caminho da transcendência para a plenitude. Podemos então falar de uma unidade entre a ação criadora de Deus e a obra da salvação que abre o homem (criatura) a Deus (Criador) de uma forma que progride no processo histórico de justiça nos corações e nas estruturas para concretizar o Reino de Deus.

Na realidade, quando dizemos salvação não estamos falando apenas da salvação da alma, ou da salvação individual de um mundo mau desejando a morte para poder operar uma fuga mundi. Nem mesmo podemos afirmar que a consolação da consciência perturbada é a salvação. Talvez a concretização da esperança de justiça, da humanização do homem, da paz de toda a criação se aproximem mais desta reconciliação entre Deus e homem realizada em Jesus! Onde encontramos então Maria nesta visão da salvação, que significado? A solução é sempre aquela de recorrer à Sagrada Escritura para encontrar a partir da Revelação trinitária os pontos de apoio para a compreensão da essência da salvação.

Regressando à fonte bíblica

 O termo salvação é usado pelo menos umas 150 vezes no Novo Testamento para indicar felicidade, paz, comunhão com Deus, saúde, libertação e graça. Dois elementos muito particulares nos servirão de guia no nosso percurso: a doença e a escravidão. Portanto quando falamos de salvação estamos falando do oposto à situação humana de criatura e pecador. A salvação do Novo Testamento diferencia-se do Antigo Testamento no sentido de ir para além da simples libertação dos inimigos para servir a Deus em santidade e justiça (Lc 1,69.71). A salvação neotestamentária apresenta a remissão dos pecados (Lc 1,77), o nascimento da água e do Espírito (Jo 3,5) que nos torna filhos de Deus (Gal 3,26) e novas criaturas (2 Cor 5,17).

Sabendo que a salvação é escatológica na sua plenitude, fruto do dia do Senhor (1 Cor 5,5) para todos aqueles que tiverem perseverado até ao fim (Mc 13,13), pois somos salvos na esperança, não podemos obscurecer o empenho vital pela justiça, o amor universal e solidário para com os necessitados. Por conseguinte a salvação se realiza em cada fiel ao longo da história como evento atual: hoje entrou a salvação nesta casa (Lc 19,9) ‘eis agora o tempo da salvação’ (2 Cor 6,2). Uma conceção de salvação que exclua o impacto histórico e vita da salvação cairá na ideologia que remete para um futuro incerto o já da salvação

A Salvação como um evento de diálogo

A Revelação que nos oferece a salvação provém de uma história, não de uma estrutura conceitual como a apresenta a dogmática. Este evento é um diálogo entre Deus e o homem com fatos, palavras e meditações. Elementos como Aliança ou Eleição tentam dizer mas não esgotam as considerações sobre a estrutura do acontecimento, porque na Bíblia não existe apenas Deus nem apenas o homem mas o encontro de ambos e o resultado da salvação humana. 

O diálogo é aquele da salvação e bênção da parte de Deus que no Novo Testamento liberta do pecado, da lei, da morte (Rom 7,6; 8,2) e implica a comunhão com o Pai por meio de Cristo no Espírito (Ef 2,18). A voz do Pai ‘que nos abençoou com toda a benção espiritual nos céus, em Cristo’ (Ef 1,3) nos chama a caminhar na santidade e no amor com a adoção de filhos. A resposta do homem realiza então o diálogo quando reflete sobre as grandes intervenções de Deus na história (Magnificat), quando testemunha na sua vida o Deus dos vivos e quando realiza um culto em espírito e verdade. Esta é a nossa compreensão de salvação que agora apresentaremos de forma mariológica. 

Maria parte e partner da salvação

A Mãe de Jesus ocupa um posto singular na história da salvação. Podemos dizer que todos os elementos da experiência do povo de Israel potenciados até à plenitude com a novidade evangélica encontram na experiência de Maria a suprema vivência criatural. Neste sentido, seguindo as Sagradas Escrituras podemos esboçar algumas características de Maria que esculpem o seu agir na obra da salvação:

Experiência de salvação de Maria.

Quando observamos a interpretação oferecida em Lucas do anúncio do anjo e da visita a Isabel através do Magnificat nos deparamos com a mais antiga teologia mariana. A explicação pneumática daquilo que aconteceu leva Maria a testemunhar a experiência do Deus meu salvador (Lc 1,47). A experiência de Maria é o olhar benévolo de Deus sobre os pobres de YHWH que são também os débeis e desamparados. Maria existe debaixo do olhar de Deus que se dirige a ela com amor fazendo-a participar de forma ativa na salvação de um Povo. Esta obediência leva à bênção que é pronunciada por Isabel quando diz: bendita és tu entre as mulheres […] bendita aquela que acreditou (Lc 1,42,45).

Experiência de bênção de Maria

A bênção é um dom que se relaciona com a vida e com o seu mistério. Deus é fonte de bênção porque é fonte de vida (Sal 36,10) por isso quando se diz bendita és tu entre as mulheres isto significa que Deus a abençoou mais do que todas as mulheres pois o fruto germinado no seu ventre não é uma vida qualquer mas é o autor da vida, o Filho de Deus altíssimo (Lc 1,32.35). A origem desta Vida provém da força potente do Espírito Santo ao qual nada é impossível (Lc 1,35.37.49). Na verdade, Maria é abençoada no ventre que a tornou divinamente fecunda, para além de ser abençoada no coração renovado do Espírito, antecipando em si o cumprimento das promessas de Cristo aos seus fiéis. Quando relemos, à luz de quanto afirmamos em precedência, o kekharitomene vemos como significa agraciada de forma permanente do amor de Deus através da transformação que a abençoa tornando-a também ela Filha de seu Filho (Ef 1,5).

A resposta de Maria: palavra, ação e meditação

Qual é a resposta da Virgem Santa à ação salvadora e abençoada de Deus? Maria participa responsavelmente ao diálogo com Deus reagindo com turbamento e pedindo explicações oferecendo o consenso de fé perfeita. A plena disponibilidade na adesão à palavra divina transmitida pelo anjo nos deixa ainda hoje admirados pelo gênio feminino que comporta: Eis-me, sou a serva do Senhor. Se cumpra em mim a tua palavra (Lc 1,38).

A esta resposta correspondeu claramente o culto e a vida de Maria juntamente com uma contemplação particular enquanto Lucas descreve Maria como uma mulher reflexiva que medita no silêncio do seu coração (Lc 2,19.51). A tradição mariológica ainda hoje conserva o título de Maria como mulher do coração sapiente e da memória porque transforma a história em consciência. Os eventos de Jesus são recordados por Maria que repete em si o itinerário sapiencial que configura e caracteriza a fisionomia espiritual de Israel. 

Podemos então concluir que Maria é esta imagem de salvação que representa de forma concreta e viva a salvação como diálogo entre Deus e homem. Em Maria a ação de Deus se torna transparência do mistério pois é salva e abençoada, pois seja do seu início como Imaculado e do seu fim terreno como Assunta glorificada Maria ilumina a vocação de cada homem a serem filhos no Filho de Deus Pai por meio do Espírito Santo.

No próximo artigo falaremos da relação Maria e Saúde.

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