Paulo VI – marialis cultus (1974): texto latino original da introdução

A Exortação Apostólica Marialis Cultus (2 de fevereiro de 1974) do Beato Paulo VI é o documento mais importante do magistério pós-conciliar sobre o culto da Virgem Maria. Existe já um post sobre o documento aqui, este post complementa o anterior fornecendo o texto latino integral da Introdução (nn. 13-16) extraído do Enchiridion Vaticanum vol. 5 (1974-1976), pp. 42-46, com tradução portuguesa cuidada.

ColecçãoEnchiridion Vaticanum vol. 5, parágrafos 13-100
DocumentoAdhortatio Apostolica Marialis cultus de beatae Mariae virginis cultu recte instituendo et augendo
Data2 de fevereiro de 1974 (festa da Apresentação do Senhor)
FonteAAS 66 (1974) 113-168

Texto latino – n. 13: introdução

Marialis cultus ut incrementis ditaretur, ex quo ad Petri cathedram sumus evecti, continenter dedimus operam; non solum scilicet nobis in animo fuit sensum Ecclesiae circa hanc rem et internum quendam impulsum, quo permovemur, exprimere, sed ad hoc adducti sumus etiam propterea quod haec pietatis forma, quemadmodum notum est, pars eximia efficitur sacri cultus illius, in quo fastigium sapientiae et culmen religionis quasi in unum confluunt, et qui idcirco officium est praecipuum Populi Dei.

Tradução portuguesa – n. 13

Para que o culto mariano se enriquecesse de novos desenvolvimentos, desde que fomos elevados à cátedra de Pedro temos trabalhado continuamente; não foi apenas nosso intento exprimir o sentir da Igreja sobre esta matéria e um certo impulso interior pelo qual nos sentimos movidos, mas fomos levados a isso também porque esta forma de piedade, como é sabido, constitui parte excelente do culto sagrado em que confluem por assim dizer numa unidade o vértice da sabedoria e o cume da religião, e que por isso é o ofício principal do Povo de Deus.

Texto latino – n. 14: a reforma litúrgica

Tendo em mente este dever, sempre incentivamos e apoiamos aquela grande obra de renovação litúrgica iniciada pelo Concílio Ecumênico Vaticano II, que, sem dúvida alguma, ocorreu segundo um plano particular da Providência Divina. De fato, o primeiro documento daquele mesmo Sínodo Universal, que aprovamos juntamente com os veneráveis Padres e a cada um dos quais – no Espírito Santo – subscrevemos, foi a Constituição que começa com as palavras Sacrosanctum concilium.

Tradução portuguesa – n. 14

Tendo este ofício diante dos olhos, sempre fomentámos e promovemos aquela grande obra da renovação litúrgica empreendida pelo Concílio Ecuménico Vaticano II, e não por acaso, sem um especial desígnio da divina Providência, aconteceu que o primeiro documento daquela mesma Sínodo universal, que Nós juntamente com os veneráveis Padres aprovámos e ao qual, no Espírito Santo, subscrevemos, foi a Constituição que começa pelas palavras Sacrosanctum concilium.

n. 16: o programa mariológico de marialis cultus

Latino: Itaque in nonnullis quaestionibus libet immorari, quae ad necessitudinem inter sacram Liturgiam et cultum Dei Genetricis spectant (I); considerationes et normas directorias proponere ad cultum proprie marialem in liturgiae spiritu rite ordinandum (II); aliquot consilia tradere de pia exercitatione – praecipue de Angelo Domini et de Rosario – quae a populo Dei colitur (III).

Português: Por isso é conveniente deter-nos em algumas questões que dizem respeito à relação entre a sagrada Liturgia e o culto da Mãe de Deus (I); propor considerações e normas directrizes para ordenar correctamente o culto propriamente mariano no espírito da liturgia (II); transmitir alguns conselhos sobre os exercícios pios, especialmente o Angelus Domini e o Rosário, que são cultivados pelo povo de Deus (III).

Estrutura da marialis cultus

A exortação apostólica organiza-se em três grandes partes:

  1. Parte I (nn. 1-23): O culto à Virgem Maria na liturgia renovada, Maria no calendário litúrgico, no leccionário, no ano litúrgico
  2. Parte II (nn. 24-39): Renovação do culto mariano, quatro orientações: trinitária, cristológica, pneumatológica, eclesiológica; quatro características: bíblica, litúrgica, ecuménica, antropológica
  3. Parte III (nn. 40-55): Os exercícios de piedade mariana, análise teológica do Angelus Domini e do Rosário

Maria como Mater ecclesiae – n. 17

Etenim Ecclesia horum temporum, de mysterio Christi atque de sua ipsius natura recogitans, eandem Mulierem invenit, et in prioris veluti fonte et in alterius consummatione, Virginem scilicet Mariam, quippe quae esset Mater Christi et Mater Ecclesiae.

Português: Pois a Igreja deste tempo, ao reflectir sobre o mistério de Cristo e sobre a sua própria natureza, encontra a mesma Mulher, tanto na fonte do primeiro quanto na consumação do segundo, a Virgem Maria, que é Mãe de Cristo e Mãe da Igreja.

Esta passagem retoma directamente a proclamação de Mater Ecclesiae de Paulo VI em 21 de novembro de 1964, ligação directa entre os dois grandes momentos marianos do pontificado.

Significado para a liturgia mariana contemporânea

A Marialis Cultus é a base teológica de:

  • O calendário litúrgico mariano renovado pós-Vaticano II
  • A festa de «Maria Mãe da Igreja» (segunda-feira após Pentecostes, instituída por Francisco em 2018)
  • A revisão das missas votivas marianas
  • As Collectio Missarum de Beata Maria Virgine (1986), 46 missas votivas
  • O Directório sobre a Piedade Popular e a Liturgia (2002)
  • O Rosário Virginis Mariae (João Paulo II, 2002)

Leitura complementar

Marialis Cultus (post original) | Proclamação Mater Ecclesiae 1964 | Sacrosanctum Concilium | Lumen Gentium cap. VIII | Rosário Virginis Mariae

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