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Mariologia das Bodas de Caná

Tempo de leitura: 4 minutos

Praticamente conhecemos à memória esta passagem de João 2,1-11 desde sempre estudado e citado pela grande Tradição da Igreja de Cristo. Contudo, o estudo aprofundado desta passagem não deixa de nos surpreender como fonte inesgotável de tesouros para a compreensão de Maria e de Cristo.

Antes desta narração, no 1º capítulo de João (1-18) nós encontramos o prólogo que é um hino, depois um prólogo narrativo (19-51) com o testemunho sobre Jesus por João Batista e o chamado dos discípulos. Neste contexto a passagem das Bodas aparece inserida dentro desta revelação do mistério de Jesus nas realidades grandiosas da salvação. Isto aparece ainda mais claro se compararmos as Bodas de Caná à Cruz (Jo 19,25-27). Colocado no início e no cume do mistério de Jesus e dos Sinais que o revelam, os dois versículos formam uma inclusão entre eles, ou seja, abrem e concluem a inteira obra de salvação de Jesus onde sua Mãe tem um lugar proeminente. 

As bodas de Caná é onde se realiza o princípio dos sinais de Jesus (2,11). Este sinal – no Evangelho não existem milagres, mas sinais – é uma ação realizada por Jesus para revelar a sua identidade enquanto Filho de Deus, presença no meio de nós, Emanuel, como Verbo feito carne. 

A Mãe de Jesus (v. 2.3.5.12) presente nas Bodas, coloca-se num patamar completamente humano e comenta com Jesus que não têm mais vinho (v.3) Jesus responde de uma forma inicialmente desconcertante (v.4) chamando Maria não de Mãe mas de Mulher. Esta distância de Jesus em relação às ligações familiares, para afirmar a sua identidade e missão ressoa na resposta que Jesus deu aos pais no templo de Jerusalém (Lc 2,49). Mais ainda nas respostas de Jesus sobre a Mãe e os irmãos que o procuravam (Mc 3,31-35; Mt 12,46-50). Na realidade, a carne e o sangue (família) tem que ceder lugar às exigências da vontade de Deus Pai na missão do cristão. 

Longe da suspeita de discriminação feminina da parte de Jesus, o termo mulher não tem uma conotação negativa. Será retomado e explicitado nos versículos da Cruz (19,26), no momento em que se manifestará a nova identidade e papel particular da Mãe de Jesus no mistério da salvação.  

Em Caná, contudo, o termo parece revestir o sentido positivo e novo, como se pode arguir das palavras que a Mãe, imediatamente depois, dirige aos servos (v. 5). Em toda a circunstância Jesus reivindica um espaço próprio na sua relação com a Mãe pois ainda não tinha chegado a sua hora (v. 4). Esta hora de Jesus é o tempo da sua paixão-morte e glorificação, na qual o Pai e o Filho serão glorificados (Jo 13,31; 17,1). A hora orienta toda a existência de Jesus e se trata de uma tensão que abraça todo o Evangelho de João, desde a expressão inicial ainda não chegou a minha hora (2,4) até Pai, chegou a minha hora (17,1) uma existência dramática de Jesus que não pode antecipar a hora.

Depois desta resposta reveladora e misteriosa de Jesus, a resposta de Maria transforma-se da missão de fazer a vontade do Pai de Jesus a Maria a fazer a vontade do Filho: fazei tudo aquilo que Ele vos disser (v.5). Esta simples resposta encontra já a sua raiz no evento do monte Sinai em Ex 24,7 quando se afirma: Tomou depois o livro da aliança e o leu em voz alta ao povo, que respondeu: “Faremos tudo o que o Senhor falou e obedeceremos”. Com estas palavras que refletem a experiência de um evento passado encontramos novamente um sinal que revelará a glória do Filho de Deus e inaugura a fé dos discípulos. 

Se nós olharmos para as Bodas não como uma simples descrição história, eventualmente desprovida de significado, nunca poderemos ver a profundidade desta passagem cheia de um simbolismo que ainda hoje não nos deixa de impressionar. As Bodas são sinal da Comunhão final de Deus com o seu povo (pão e vinho multiplicado), as bodas fazem ver Cristo como o esposo da Igreja, e em 3,29 João Batista se autodefine o amigo do esposo!

Em todo este simbolismo sacramental a Mãe de Jesus aparece sobretudo como a Mulher ao lado de Jesus, servindo a missão do Filho e a fé dos discípulos. Enquanto Mãe torna-se discípula de Jesus passando de não têm mais vinho a fazei tudo aquilo que Ele vos disser, o que demonstra uma total adesão de fé, juntamente com uma obra de mediação semelhante àquela de Moisés no Sinai, pois a fidelidade à Nova Aliança é salvação para a nova comunidade dos fiéis. 

Enquanto Mulher, a Mãe de Jesus, tem como missão continuar a missão da antiga Filha de Sião, servindo todo o povo de Deus como mais tarde encontraremos explicitado no Calvário. Pela sua fé Myriam é a primeira dos discípulos do Senhor, os quais acolhendo as palavras de Jesus constituem a comunidade da nova aliança. Neste sentido, juntamente com os discípulos que passaram a acreditar após terem visto o sinal de Jesus é a verdadeira esposa d’Aquele, que muito para além de toda a simbólica, é esposo da Igreja e da humanidade: Jesus, o Verbo de Deus feito carne.  

E vocês, quais as contribuições a cerca do evento “bodas de Caná”? Quais as dúvidas com relação a esse grande momento na história de salvação?

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Respostas

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  1. Me encanta a confiança e segurança de Maria como partícipe da missão de Jesus: “Fazei tudo o que Ele disser.” E a percepção sensível de Jesus, em atender seu pedido. Iniciando assim sua missão.

  2. Assim como o primeiro choro, primeiro alimento, primeiro sorriso, Maria estava ao lado de Jesus em seu primeiro sinal. Vejo a obediência do Filho ao pedido da mãe e Maria mostrando a tds q Jesus é o Senhor, q façamos sempre td o q Ele ensinou. Não há dúvidas qto a isso.

  3. Bela reflexão desse importante momento na história da salvação, em que a última mensagem deixada por Maria na Sagrada Escritura: “fazei tudo aquilo que Ele vos disser”, precisa permanecer atual, hoje, à Igreja e com a mesma intensidade em nossos corações, uma vez que a
    Mariologia nas Bodas de Caná nos revela essa nova aliança de amor, em que nos é apresentado os princípios dos sinais de Jesus, também, atuais para o nosso tempo.

  4. Bela reflexão desse importante momento na história da salvação, em que a última mensagem deixada por Maria na Sagrada Escritura: “fazei tudo aquilo que Ele vos disser”, precisa permanecer atual, hoje, à Igreja e com a mesma intensidade em nossos corações, uma vez que a
    Mariologia das Bodas de Caná nos revela essa nova aliança de amor, em que nos é apresentado os princípios dos sinais de Jesus, também, atuais para o nosso tempo.

  5. Gratidão Prof Daniel Afonso, muita paz e alegria de Maria ao seu coração. 🙂
    As Bodas de Caná, pra mim é um momento muito especial, onde vejo com muito carinho, o quanto Maria nossa Mãe é zelosa, contemplo a sua intercessão amorosa e a sua preocupação em sempre nos oferecer o melhor da parte de Deus. Amo demais, nosso Querida Maria 🌹
    Abraços à todos os Irmãos que fazem parte dessa Família, que o manto protetor da Virgem nos guarde e livre de todo o mal. 🙌🏽🙌🏽
    Santo dia com Maria 🌹

  6. As Bodas de Cana confirmam para nós o valor e importância da intercessão de Maria em nossas vidas, a partir do momento que silenciamos o nosso coração ouvimos o Senhor e fazemos tudo o que Ele nos disser. Maria, Mãe, Mulher e Discípula intercede ao seu Filho Jesus pelo vinho que falta em nossas vidas. Amém!

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