Fazei aquilo que ele vos disser (Jo 8,25)

Introdução

Sem dúvida, dentro do Evangelho de João, o episódio das bodas em Caná da Galileia (2,1-11) assume uma importância particular. Sua relevância é imediatamente destacada pelo fato de que ocorre três dias após o encontro com Natanael (1,43-51) e, portanto, sete dias após o encontro com João Batista (1,28). Em Caná, portanto, conclui-se a primeira semana “laboral” de Jesus: é possível supor que, em analogia com a semana da criação descrita no Livro de Gênesis, o sétimo dia seja o designado para manifestar de forma especial a glória de Deus, autor em Cristo da nova criação.

O primeiro sinal de Jesus

O versículo 11 enfatiza que estamos diante do primeiro dos “sinais” (semeia) realizados por Jesus. Esses sinais, mais do que atos miraculosos destinados a demonstrar poder, têm a função de despertar a fé nas pessoas em relação a Jesus, revelando diante de seus olhos que Ele é o Filho de Deus em quem se realizam os últimos tempos, os tempos da salvação.

Este é um dos raros trechos nos Evangelhos em que, fora dos relatos da infância de Jesus, Maria aparece. No IV Evangelho, precisamente, a Virgem está presente apenas em duas ocasiões: aqui em Caná e novamente junto à cruz (19,25-27). Como veremos em breve, esses dois episódios estão intimamente relacionados e se iluminam mutuamente, como se destaca especialmente pela referência à “hora” de Jesus.

Maria e Jesus: a esposa e o esposo

Curiosamente, os esposos nunca são mencionados diretamente, exceto pelo diálogo final entre o mestre de cerimônias e o esposo, que, no entanto, ao contrário dos servos, não desempenha nenhum papel ativo na narrativa. Os protagonistas da história são, na verdade, Jesus e Sua Mãe.

É Maria quem inicia a ação quando aponta para Seu Filho e diz: “eles não têm vinho“. Ela antecipa um problema que os outros parecem não ter percebido até então. A Virgem antecipa tudo e todos, e esse conhecimento antecipado da situação a impulsiona à ação. O problema daquela família não a deixa indiferente, por isso decide interceder: um verbo que literalmente significa “caminhar no meio“. Maria se coloca no meio entre os esposos e Jesus, expondo-se pessoalmente, porque “sabe” que Jesus pode fazer “qualquer coisa“.

A resposta aparentemente seca do Filho está cheia de significado. O termo “mulher” não implica desrespeito de forma alguma. Em vez disso, além de evocar um uso helenístico, enquadra Maria em seu papel “simbólico“. Assim como no Antigo Testamento a mulher é símbolo do povo de Israel com o qual Deus deseja se unir em casamento por meio da Aliança, agora a Virgem personifica toda a humanidade, o novo Israel, com o qual Cristo pretende se tornar o esposo eterno.

O matrimônio místico entre Jesus e a humanidade será celebrado na cruz, onde Maria será novamente chamada de “mulher” (19,26). A cruz servirá como altar nupcial e leito conjugal, porque ali o amor de Cristo pelos homens atingirá o seu auge. Em resumo, neste trecho, a relação materno-filial entre Maria e Jesus se combina com a relação conjugal entre a humanidade, representada pela Virgem, e Cristo, o mediador de uma nova e eterna aliança.

Um prelúdio da “hora” de Jesus

Agora podemos compreender as palavras enigmáticas de Jesus: “A minha hora ainda não chegou“. O tema da “hora” é recorrente no Evangelho de João, onde geralmente indica a suprema revelação da glória de Deus que se cumprirá na cruz.

A hora do Filho ocorrerá na sexta-feira santa, o ponto culminante do amoroso dom de si mesmo à humanidade pecadora. Portanto, a “hora” ainda não chegou: os sinais que Jesus realiza durante o seu ministério não podem antecipá-la, mas apenas anunciá-la, preparando as pessoas para reconhecer o “sinal dos sinais“, que será a cruz. Portanto, se a hora se cumpre no Gólgota, pode-se afirmar que em Caná ela é misteriosamente prefigurada através do símbolo da água transformada em vinho.

A água da morte, o vinho da alegria

A água frequentemente simbolizava a morte entre os povos antigos: o mar aberto, os dilúvios e as inundações representavam terríveis ameaças para o ser humano, revelando o poder destrutivo das águas. O fato de que, antes da intervenção de Jesus, só havia água e não vinho, pode sugerir que antes de Sua vinda, a humanidade só conhecia a morte e a desolação.

O Filho de Maria Ele veio para que os seres humanos, interiormente mortos devido ao pecado, “tenham vida e a tenham em abundância” (Jo 10,10). O vinho, ao contrário, evoca a alegria em várias passagens bíblicas, pois “alegra o coração do homem” (Sal 104,15). É um dos símbolos recorrentes para evocar os bens messiânicos, dos quais Jesus se serviu na última ceia para estabelecer com os homens uma “nova aliança no meu sangue” (1 Cor 11,25). Assim, a alegria ansiada por Israel finalmente chega com Jesus: Nele, as antigas promessas se cumprem e as esperanças humanas se realizam.

Qualquer coisa….

A outra frase pronunciada por Maria não é dirigida a Jesus, mas sim aos servos: “Qualquer que sejam as Suas instruções, sigam-nas“. A Mãe compreendeu o não dito de Jesus: na resposta concisa do Filho, ela lê o que ninguém mais entenderia. Maria “sabe” que o Filho veio para que o homem recupere a plenitude da alegria.

As palavras iniciais – “Qualquer coisa que Ele vos disser” – testemunham a total confiança da Mãe no Filho, que deve se tornar também a total confiança dos servos: não é importante que eles compreendam o que devem fazer, é importante apenas que façam o que Jesus está prestes a pedir. E o pedido d’Ele soa nada menos do que absurdo. Trata-se de encher seis jarros de pedra com uma capacidade impressionante: cada um deles pode conter até 80-120 litros!

O fato de que esses jarros sejam usados para a purificação ritual dos judeus nos remete novamente à comparação entre a antiga e a nova Aliança: Jesus veio para superar a antiga Lei, que ainda é imperfeita (seis é o número da imperfeição) e incapaz de trazer a salvação (contém água e não vinho). Com certeza, o trabalho dos servos deve ter sido árduo, mas felizmente, embora talvez atormentados por dúvidas, eles não se esquivaram, enchendo escrupulosamente os jarros até a borda. Uma obediência abençoada!

A água, levada ao mestre de cerimônias, se transformou em vinho, um vinho abundante em quantidade e melhor em qualidade do que o anterior. Isso significa que, quando confiamos em Jesus sempre obtemos muito mais do que ousamos esperar.

Da palavra à vida

Em algum momento, mais cedo ou mais tarde, todos nós nos encontramos sem o vinho da alegria, apenas com a água amarga de relações decepcionantes, afetos feridos e sonhos não realizados. Se a família em Caná não tivesse convidado Jesus e Sua Mãe para sua casa, seu problema não teria solução e sua festa seria irremediavelmente arruinada.

Em vez disso, eles estão lá, e sua presença é o que realmente faz a “diferença“. Estamos aprendendo a receber Jesus e Maria em nossa “casa“, ou seja, em nossa vida pessoal e familiar, para experimentar que, se eles se tornarem hóspedes permanentes entre nós, mesmo situações aparentemente desesperadas podem se abrir para “alegrias maiores“?
Muitas vezes, nossa devoção mariana fica apenas na superfície. Recorremos a Maria para pedir graças de todos os tipos, mas depois nos mantemos afastados daquele que é a única fonte de graça, o Senhor Jesus, que age de maneira especial na Palavra e nos Sacramentos.

A Virgem de Nazaré não quer ser o fim de nossa oração, mas apenas um meio que nos conduz ao Filho. É Cristo quem intervém, enquanto Ela é mais como aquela que intercede, dirigindo-se a Jesus em nosso nome. Estamos aprendendo a fazer de Maria a “ponte” abençoada que nos leva ao Filho, direcionando nosso coração para Ele, o único Salvador do mundo?
Com as palavras dirigidas aos servos, Maria nos incentiva a confiar incondicionalmente no Filho. É verdade que às vezes Jesus pede coisas que não compreendemos, coisas que parecem inúteis ou até mesmo prejudiciais. No entanto, Ele sabe bem o que está fazendo e o que pede. Apenas aqueles que conseguem confiar, vivendo em obediência desarmada à Palavra, experimentam que Cristo está sempre certo, que com Ele não se pode perder, apenas ganhar.

Estamos aprendendo, em todas as circunstâncias da vida, a obedecer aos mandamentos do Senhor, mesmo quando parecem misteriosos e exigentes, conscientes de que Sua Palavra não falha nem decepciona?

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