Cronologia Magisterial de Medjugorje (2001-2022)

Tempo de leitura: 17 minutos

CONGREGAÇÃO DA DOUTRINA DA FÉ  

SOBRE MEDJUGORJE  

CONGREGATIO PRO DOCTRINA FIDEI  

Cidade do Vaticano, Palazzo del S. Uffizio  

Pr. N. 154 / 81.06419  

26 de maio de 1998  

A Sua Excelência Dom Gilbert Aubry  

Bispo de Saint-Denis de la Réunion  

Excelência,  

Com a carta de 1º de janeiro de 1998 submeteram-se a este Dicastério várias questões relativas à posição da Santa Sé e do bispo de Mostar, com referência às chamadas “aparições” de Medjugorje, as peregrinações privadas ou ao cuidado pastoral dos fiéis que vão para aquele lugar. A este propósito, considerando ser impossível responder a cada uma das perguntas formuladas por Vossa Excelência, gostaria, antes de mais, de especificar que não é norma da Santa Sé assumir, em primeiro lugar, uma posição adequada diretamente sobre supostos fenômenos sobrenaturais.  

Este dicastério, portanto, que diz respeito à credibilidade das “aparições” em questão, simplesmente adere ao que foi estabelecido pelos bispos da ex-Iugoslávia na declaração de Zara de 10.04.1991:

“Com base nas investigações realizadas até agora, não é possível afirmar que sejam aparições ou revelações sobrenaturais”.

Após a divisão da Iugoslávia em várias nações independentes, caberia agora aos membros da Conferência Episcopal da Bósnia-Herzegovina reexaminar a questão, se necessário, e emitir novas declarações, se o caso assim o exigir.  

O que Dom Peric afirmou em uma carta ao Secretário Geral da Famille Chrètienne, a saber, que

Minha convicção e posição não é apenas que ainda não consta de sobrenaturalidade, mas igualmente que a sobrenaturalidade não consta nas aparições ou revelações de Medjugorje”

deve ser considerada esta expressão uma convicção pessoal do Bispo de Mostar, que, como Ordinário local, tem todo o direito de exprimir o que é e continua a ser uma  sua opinião pessoal.  

Finalmente, no que diz respeito às peregrinações a Medjugorje que ocorrem de forma privada,  esta Congregação acredita que elas são permitidas sob a condição de que não sejam consideradas como uma autenticação de eventos em andamento e que ainda necessitem de exame pela Igreja.  

Dom Tarcisio Bertone  

(Secretário da Congregação presidida pelo Cardeal Ratzinger)  

Segue-se, portanto, que:  

1. As declarações do bispo de Mostar refletem apenas a sua opinião pessoal. Consequentemente, elas não são um julgamento definitivo e oficial da Igreja.  

2. Tudo é adiado para a declaração de Zara, o que deixa a porta aberta para futuras investigações. Entretanto, permite peregrinações privadas com acompanhamento pastoral dos fiéis. 

3. Sem dúvida, uma nova Comissão será nomeada.  

4. Enquanto isso, todos os peregrinos católicos podem ir a Medjugorje.  

O comentário do Cardeal Schönborn 

A carta do Arcebispo Bertone ao bispo de Le Reunion por parte da Congregação para a Doutrina da Fé esclarece suficientemente o que sempre foi a posição oficial da hierarquia nos últimos anos em relação a Medjugorje: isto é, que, como sabemos, deixa a questão não resolvida. O caráter sobrenatural não é estabelecido; tais foram as palavras usadas pela conferência dos bispos da Iugoslávia na cidade de Zara em 1991. Esta expressão, como é sabido, deixa o problema sem solução. Não se diz que o caráter sobrenatural é, em essência, reconhecido; por outro lado, não se nega, nem se considera pouco credível, que o fenômeno possa ser de natureza sobrenatural. 

Obviamente, o magistério da Igreja não declara definitivamente se os fenômenos, aparições ou outros tipos de manifestações ainda estão em andamento. No entanto, é tarefa dos pastores encorajar o que está nascendo, sustentar os frutos que estão amadurecendo, protegê-los, se necessário, dos perigos que sempre e em toda parte podem ser encontrados. 

Também foi necessário, em Lourdes, garantir que o autêntico dom de Lourdes não seja sufocado por desenvolvimentos inadequados. Nem mesmo Medjugorje é invulnerável. É por isso que é, e será muito importante, que os bispos, mesmo publicamente, tomem o pronunciamento pastoral de Medjugorje sob sua proteção para que os frutos evidentes que ali ocorrem possam ser protegidos de um tipo impróprio de desenvolvimento. 

Creio que as palavras de Maria em Caná: “Fazei o que Ele vos disser”, resumem a essência do que ela nos diz ao longo dos séculos. Maria nos ajuda a escutar Jesus; Ela deseja com todo o seu Coração e com todas as suas forças que façamos o que Ele nos manda fazer. Isto é o que eu espero para todos os grupos de oração que foram formados graças a Medjugorje; é o que desejo para nossa diocese e para toda a Igreja. 

Pessoalmente, eu nunca estive em Medjugorje ainda; mas em certo sentido, posso dizer que estive lá através das pessoas que conheço, ou aquelas que encontrei, que estiveram em Medjugorje. E, na vida deles, vejo bons frutos. Eu seria um mentiroso se negasse a existência desses frutos. 

Esses frutos são tangíveis, evidentes. E em nossa diocese, como em muitos outros lugares, posso ver graças de conversão, graças de vida ou de fé sobrenatural, de vocações, de curas, de redescoberta dos Sacramentos, de confissões. Tais fatos não podem enganar. Por isso, digo que esses frutos me permitem, como bispo, exprimir um juízo moral. E se, como disse Jesus, temos que julgar uma árvore pelos seus frutos, sinto-me obrigado a dizer que esta árvore é boa». 

† Card. Christoph Schonborn, 

Arcebispo de Viena 

RESUMO FINAL:  

1. A declaração de Zara é e continua sendo a única declaração oficial da Igreja sobre os acontecimentos em Medjugorje.  

2. Todas as declarações posteriores da Santa Sé referem-se à mencionada Declaração.  

3. A posição do Bispo de Mostar, Dom Ratko Peric deve ser considerada uma opinião pessoal.  

4. Ainda está em aberto o juízo definitivo sobre a sobrenaturalidade das aparições e revelações. Os eventos ainda estão em andamento e exigem um aprofundamento por parte da Igreja.  

6. A comissão de pesquisa planejada sobre os eventos em Medjugorje ainda não foi oficialmente constituída. 

7. No final da conferência dos bispos bósnios no início de julho de 2006, o presidente Cardeal Vinko Puljic surpreendentemente declarou – já que o caso de Medjugorje não estava na agenda – que haverá uma nova comissão internacional (dividida em dois subcomitês com tarefas específicas) , nomeado não pela conferência episcopal local, mas diretamente pela Congregação para a Doutrina da Fé.  

8. Peregrinações a Medjugorje são permitidas, desde que não sejam consideradas como um reconhecimento de eventos que ainda estão em andamento e que requerem um estudo mais aprofundado pela Igreja. A Igreja não proíbe os padres de acompanhá-los. 

MEDJUGORJE: UM DEBATE ENQUANTO ESTÁ ABERTO 

A OPINIÃO DE DOM FRANIĆ 

Dom Frane Franić, bispo de Split, homem de grande fé e autoridade, reconheceu desde o início a mão de Deus em Medjugorje. Em 7 de agosto de 1993, após se aposentar, deu uma entrevista impressionante à revista austríaca Gebetsaktion Marie Reine de la Paix (n. 30) que chama seus irmãos para fazer mea culpa com ele: Nós, croatas da Croácia e da Bósnia-Herzegovina, não aceitamos suficientemente a advertência de Nossa Senhora de Medjugorje. Até ouvimos dizer:

“Medjugorje é a maior mentira da história da Igreja.”  

O bispo Žanić de Mostar se opôs implacavelmente a isso. Em essência, os bispos o seguiram, tolerando Medjugorje como um lugar de oração. Em sua última declaração de 25 de maio de 1991, um mês antes da guerra, eles declararam sua intenção de ajudar os peregrinos de todo o mundo … a Comissão devia continuar a sua investigação.  

Não sei o que a Comissão ainda esperava, depois de tantos milagres examinados por cientistas e tantas conversões em todo o mundo. Tudo isso não foi suficiente para nós bispos. Se eles tivessem encorajado o povo: Levante-se, vamos para Medjugorje!, Talvez o povo tivesse ido para lá ainda mais, eles teriam ouvido as palavras da Virgem. O movimento de conversão seria amplificado. Mas até hoje não reconheceram a voz da Mãe de Deus que nos oferece a paz e diz que ela mesma, com nossas orações, lutará pela paz.  

Quando o primeiro acordo entre muçulmanos e croatas em Medjugorje foi assinado, pensei que era um milagre da Rainha da Paz, mas o acordo permaneceu sem seguimento. No entanto, Medjugorje não terminou, a mensagem continua. Só nós, croatas, não a seguimos suficientemente; os bispos obstruem, e ninguém nunca disse: Vamos, é a voz da Mãe de Deus. E, no entanto, o Papa, durante uma audiência, disse aos bispos que se dirigissem à Rainha da Paz. Eles assentiram, mas foram para um lugar perto de Zagreb, dedicado à Rainha da Paz. Eles preferiram outro de nossos santuários ao apelo de Medjugorje.  

Jesus não pode ficar feliz quando a sua Mãe vem entre nós e nenhum bispo a reconhece, enquanto durante doze anos se fazem milagres e dizem: não há nada! 

Neste momento o entrevistador pergunta: Dom Perić, o atual bispo de Mostar, declarou: Para mim o voto de 20 bispos tem mais valor do que todos os testemunhos e o entusiasmo de 20 milhões de fiéis

A resposta de Dom Franić é: Para mim é o contrário, pessoas de todo o mundo e até o Papa são por Medjugorje. Acredito que não é bom se opor ao povo dessa maneira. O “discernimento dos fiéis”, existe, mesmo segundo a teologia.  

Dom Frane Franić

1. Entrevista com o Cardeal José Saraiva Martins  

15/06/2007 – 

Entrevistado sobre Medjugorje para o programa de televisão “Enigma” apresentado por Corrado Augias no RaiTre e transmitido em 15 de junho de 2007, o Cardeal José Saraiva Martins respondeu: Tudo o que ajude e promova a religiosidade popular é bem-vindo. O próprio Paulo VI disse mais de uma vez que a religiosidade popular deve ser sustentada e certamente deve ser purificada de muitos elementos que talvez com o tempo tenham entrado em revelações privadas. As revelações privadas podem ser verdadeiramente um meio de evangelização: não devemos temer a religiosidade popular. Devemos antes ter medo da superstição, que é o completo oposto da religiosidade popular.  

3. O então Cardeal Ratzinger sobre Medjugorje  

Se se diz que João Paulo II é tacitamente a favor das aparições em Medjugorje, qual é a atitude de Bento XVI? Há uma posição clara do pontífice contida em um capítulo do conhecido “Relatório sobre a fé”, volume que contém a entrevista que o escritor católico Vittorio Messori teve em 1984 com a então card. Joseph Ratzinger. Aqui estão alguns pequenos trechos. O conhecido volume escrito por J. Ratzinger com V. Messori também contém algumas páginas dedicadas ao Cardeal José Saraiva Martins sobre Medjugorje entrevistado por Rai Tre Messori:

V. Messori pergunta: Ainda sobre o assunto, sabe-se que há anos, uma vila na Iugoslávia, Medjugorje, está no centro das atenções mundiais pela renovação das aparições que – verdadeiras ou supostas – já atraíram milhões de peregrinos, mas também causaram dolorosas polêmicas entre os franciscanos que governam a paróquia e o bispo da diocese local. É previsível uma intervenção esclarecedora da Congregação para a Doutrina da Fé, autoridade suprema na matéria, naturalmente com aquela aprovação do Papa indispensável para todos os seus documentos?  

RATZINGER responde – Neste campo, mais do que nunca, a paciência é um elemento fundamental da política de nossa Congregação. Nenhuma aparição é indispensável à fé, a Revelação terminou com Jesus Cristo, Ele mesmo é a Revelação. Mas certamente não podemos impedir que Deus fale em nosso tempo, por meio de pessoas simples e também por sinais extraordinários que denunciam a insuficiência das culturas que nos dominam, marcadas pelo racionalismo e pelo positivismo. As aparições que a Igreja aprovou oficialmente – em primeiro lugar Lourdes e mais tarde Fátima – têm um lugar preciso no desenvolvimento da vida da Igreja no século passado. Entre outras coisas, elas mostram que a Revelação – embora seja única, concluída e, portanto, não superável – não é uma coisa morta, é viva e vital. Além disso – além de Medjugorje, sobre a qual não posso emitir nenhum juízo, o caso ainda está sob análise da Congregação – um dos sinais de nosso tempo é que os relatos de aparições marianas estão se multiplicando no mundo. Os relatórios também são enviados à nossa seção competente da África, por exemplo, e de outros continentes. Um dos nossos critérios é separar o aspecto da verdadeira ou suposta sobrenaturalidade da aparição daquele de seus frutos espirituais. As peregrinações do cristianismo antigo dirigiam-se a lugares sobre os quais nosso espírito crítico como modernos às vezes ficava perplexo quanto à verdade científica da tradição que lhes está ligada. Isso não significa que aquelas peregrinações não foram frutíferas, benéficas, importantes para a vida do povo cristão. O problema não é tanto o da hipercrítica moderna (que então acaba, entre outras coisas, em uma forma de nova credulidade), mas o de avaliar a vitalidade e a ortodoxia da vida religiosa que se desenvolve em torno desses lugares.

MESSORI – Reconhecidas ou não, as “mensagens das aparições marianas” são problemáticas também porque parecem ir em uma direção a uma certa “espiritualidade pre-conciliar”.  

RATZINGER – Repito que não gosto de termos pré ou pós-conciliares; aceitá-los seria aceitar a ideia de uma fratura na história da Igreja. Nas “aparições” muitas vezes há um envolvimento do corpo (sinais da cruz, água benta, apelo ao jejum), mas tudo isso está em plena sintonia com o Vaticano II que insistiu na unidade do homem, portanto para a encarnação do Espírito na carne.  

MESSORI – Esse jejum a que você se refere parece estar até mesmo em posição central para muitas dessas “mensagens”.  

RATZINGER – Jejuar significa aceitar um aspecto essencial da vida cristã. É preciso também redescobrir o aspecto corporal da fé: a abstenção de alimentos é um desses aspectos. Sexualidade e nutrição são os elementos centrais da fisicalidade do homem: agora, o declínio na compreensão da virgindade foi acompanhado pelo declínio na compreensão do jejum. E esses dois declínios estão ligados a uma única raiz: o atual escurecimento da tensão escatológica, isto é, rumo à vida eterna, da fé cristã. Ser virgens e saber dar o alimento periodicamente é testemunhar que a vida eterna nos espera, aliás já está entre nós, que a aparência deste mundo passa (1 Cor 7,31). Sem a virgindade e sem jejum, a Igreja não é mais Igreja, ela se configura à história. E para isso devemos olhar como exemplo para os irmãos das Igrejas ortodoxas do Oriente, grandes mestres – ainda hoje – de autêntica ascese cristã. 

4. Cardeal Schonborn: “Onde está Maria, a Igreja se renova”  

Artigo retirado de “Eco de Maria” nº  144.

Em uma entrevista em Lourdes, o arcebispo de Viena disse: Nos santuários marianos sentimos o que torna a Igreja viva: temos a sensação de que Deus está próximo e não de forma abstrata, mas realmente concreta e real, graças a Maria que, como nenhuma outra, representa a proximidade do céu à terra

Questionado sobre as várias comunidades que surgiram dos eventos em Medjugorje, incluindo Kraljice Mira e Lamm na Áustria, foi-lhe perguntado se tudo isso poderia levar a novas perspectivas para o futuro da Igreja:

Claro – respondeu – acredito que Maria age desde o início em silêncio, mas de forma muito eficaz. Tudo isso não basta, nem para a vida pessoal nem para a da comunidade. E em Maria a Igreja é sempre pessoal, pois não é uma grande instituição, nem um grande sistema teológico, mas é perceptível, compreensível apenas em sua maternidade , em sua virgindade, em sua beleza e infinita bondade. Especialmente nos lugares marianos percebemos que a Igreja não é antes de tudo uma instituição, como é definida tão negativamente, mas é a esposa de Cristo, por quem Cristo deu a vida: ela é maravilhosa e é a mãe de todos os homens. E tudo isso se encontra em Maria. É por isso que Maria está presente onde a Igreja se renova e onde Maria está, a Igreja se renova. Não é por acaso que as comunidades, que surgem da Igreja, são ligadas na maioria dos casos a Maria e aos seus lugares de graça.  

A entrevista com Dom Hnilica 

Segue a entrevista que a jornalista Marie Czernin fez em outubro de 2004 com Dom Paolo Hnilica, jesuíta e bispo de Rusado, além de especialista nos fenômenos místicos da Igreja e amigo íntimo de São João Paulo II.  Esta entrevista foi conduzida pela Revista mensal católica PUR (Politik und Religion) e foi publicada em dezembro de 2004.  

EDITORIAL. Tínhamos algumas dúvidas sobre a realização desta entrevista, porque toda a questão de Medjugorje é um pouco controversa. Mas decidimos fazê-lo, porque queremos que os nossos leitores estejam a par de tudo o que se fala no mundo e, neste caso, na Alemanha. Estamos convencidos de que as palavras de Dom Hnilica, relatadas na íntegra, serão de interesse para nossos leitores. É por isso que enviamos a jornalista Marie Czernin para perguntar ao Bispo Pavao Hnilica – um velho amigo do Papa, que vive em Roma desde 1950, quando deixou a Eslováquia – se o Papa já havia feito algum comentário sobre Medjugorje e, em caso afirmativo, de que maneira.  

Pergunta: Dom Hnilica, você passou muito tempo perto do Papa João Paulo II e pôde compartilhar momentos muito pessoais com ele. Você teve a oportunidade de falar com o papa sobre os eventos em Medjugorje? 

Quando em 1984 visitei o Santo Padre em Castel Gandolfo e almocei com ele, contei-lhe sobre a consagração da Rússia ao Imaculado Coração de Maria, que pude realizar em 24 de março desse mesmo ano em uma forma completamente inesperada, na Catedral da Assunção no Kremlin de Moscovo, tal como Nossa Senhora pediu a Fátima. Ele ficou muito impressionado e disse: Nossa Senhora o guiou até lá com a sua mão, e eu respondi: Não, Santo Padre, ela me carregou em seus braços!. Então ele me perguntou o que eu achava de Medjugorje e se eu já tinha estado lá. Eu respondi: Não. O Vaticano não me proibiu, mas desaconselhou. Ao que o Papa olhou para mim com um olhar resoluto e disse: Vá incógnito para Medjugorje, assim como você foi para Moscou. Quem pode proibir você?. Dessa forma, o Papa não me autorizou oficialmente a ir até lá, mas encontrou uma solução. Então o Papa foi ao seu escritório e pegou um livro sobre Medjugorje de René Laurentin. Ele começou a me ler algumas páginas e me mostrou que as mensagens de Medjugorje estão relacionadas com as de Fátima: Você vê, Medjugorje é a continuação da mensagem de Fátima. Fui três ou quatro vezes incógnito a Medjugorje, mas então o então bispo de Mostar-Duvno, Pavao Zanic, me escreveu uma carta na qual me disse para não ir mais a Medjugorje, caso contrário ele teria escrito ao papa. Evidentemente, alguém o havia informado das minhas estadias, mas eu certamente não deveria ter medo do Santo Padre.  

Pergunta: Mais tarde você teve outra chance de falar sobre Medjugorje com o papa? 

Resposta: «Sim, a segunda vez que falamos sobre Medjugorje – lembro-me bem – foi em 1º de agosto de 1988. Uma comissão médica em Milão, que na época havia examinado os videntes, veio ter com o Papa em Castel Gandolfo. Um dos médicos destacou que o bispo da diocese de Mostar estava criando dificuldades. Então o Papa disse:

Já que ele é o bispo da região, você deve ouvi-lo“,

e, tornando-se imediatamente sério, acrescentou:

Mas ele terá que prestar contas perante a lei de Deus da maneira certa“.

O Papa ficou pensativo por um momento e então disse: Hoje o mundo está perdendo o sentido do sobrenatural, isto é, o sentido de Deus. Mas muitos encontram este significado em Medjugorje através da oração, do jejum e dos sacramentos. Foi o testemunho mais bonito e explícito de Medjugorje. Fiquei impressionado com isso porque a comissão que havia examinado os videntes então declarou: Non constat de supernaturalitate. Pelo contrário, o Papa há muito havia entendido que algo sobrenatural estava acontecendo em Medjugorje. Dos mais variados relatos de outras pessoas sobre os acontecimentos em Medjugorje, o Papa pôde se convencer de que Deus se encontra neste lugar.  

Pergunta: Não é possível que muito do que acontece em Medjugorje tenha sido inventado do zero e que, mais cedo ou mais tarde, o mundo tenha caído em uma grande farsa? 

Resposta: “Há alguns anos, aconteceu em Marienfried um grande encontro de jovens para o qual também fui convidado. Então um jornalista me perguntou:

“Sr. Bispo, você não acha que tudo o que acontece em Medjugorje vem do diabo?”.

Respondi:

“Sou jesuíta. Santo Inácio ensinou-nos que devemos distinguir os espíritos e que cada acontecimento pode ter três causas ou razões: humana, divina ou diabólica”.

No final, ele teve que concordar que tudo o que acontece em Medjugorje não pode ser explicado do ponto de vista humano, ou seja, que jovens completamente normais atraem para este lugar milhares de pessoas que vêm aqui todos os anos para se reconciliar com Deus. Medjugorje é chamado de confessionário do mundo: nem em Lourdes nem em Fátima existe o fenômeno de tantas pessoas que se confessam. O que acontece em um confessionário? O padre liberta os pecadores do diabo. Respondi então ao repórter:

“Certamente o diabo conseguiu fazer muitas coisas, mas uma coisa ele certamente não pode fazer. O diabo pode enviar pessoas ao confessionário para libertá-las de si mesmo?”.

Então o repórter riu e entendeu o que eu quis dizer. A única razão, portanto, continua sendo Deus! Mais tarde, também relatei esta conversa ao Santo Padre.  

Pergunta: Como as mensagens de Medjugorje podem ser resumidas em algumas frases? O que distingue estas Mensagens das de Lourdes ou de Fátima?  

«Em todos estes três lugares de peregrinação, Nossa Senhora convida à penitência, ao arrependimento e à oração. Nisto as mensagens dos três lugares de aparição são semelhantes. A diferença é que as Mensagens de Medjugorje duram (até então) 24 anos. Esta intensa continuidade de aparições sobrenaturais não diminuiu nos últimos anos, tanto que cada vez mais intelectuais se convertem a este lugar».  

Pergunta: Para algumas pessoas as Mensagens de Medjugorje não são confiáveis ​​porque então a guerra estourou. Então não é um lugar de paz, mas de briga?  

Resposta: Quando em 1991 (exatamente 10 anos depois da primeira Mensagem: Paz, paz e só paz!) a guerra estourou na Bósnia e Herzegovina, eu estava novamente almoçando com o Papa e ele me perguntou: Como você explica as aparições de Medjugorje, se agora há guerra na Bósnia?

A guerra foi uma coisa muito ruim. Então eu disse ao papa:

“Mas agora está acontecendo a mesma coisa que aconteceu em Fátima. Se tivéssemos consagrado a Rússia ao Imaculado Coração de Maria, a Segunda Guerra Mundial poderia ter sido evitada, assim como a disseminação do comunismo e do ateísmo. Logo depois que você, Santo Padre, fez esta consagração em 1984, houve grandes mudanças na Rússia, através das quais começou a queda do comunismo. Mesmo em Medjugorje, no início, Nossa Senhora avisou que as guerras iriam acontecer se não nos convertêssemos, mas ninguém levou a sério essas Mensagens. Isso significa que se os bispos da ex-Iugoslávia tivessem levado a sério as Mensagens, é claro que ainda não podem conceder o reconhecimento definitivo da Igreja, dado que as aparições ainda estão em andamento, talvez não tivesse chegado a esse ponto”.

Então o Papa me disse: Então o bispo Hnilica está convencido de que minha consagração ao Imaculado Coração de Maria era válida?, E eu respondi: Certamente era válida, a questão é apenas quantos bispos fizeram esta consagração em comunhão (em união) com o papa.  

Pergunta: Voltemos ao Papa João Paulo II e à sua missão especial…

Resposta «Sim. Alguns anos atrás, quando o Papa já estava com problemas de saúde e começava a andar com uma bengala, contei-lhe novamente sobre a Rússia durante um almoço. Então ele se inclinou no meu braço para acompanhá-lo até o elevador. Ele já estava muito trêmulo e repetiu cinco vezes as palavras de Nossa Senhora de Fátima com voz solene: No final, o meu Imaculado Coração triunfará. O Papa realmente sentiu que tinha essa grande tarefa para a Rússia. Mesmo assim, ele enfatizou que Medjugorje nada mais é do que a continuação de Fátima e que devemos redescobrir o significado de Fátima. Nossa Senhora quer nos educar na oração, na penitência e na fé maior. É compreensível que uma mãe se preocupe com seus filhos que estão em perigo, assim como Nossa Senhora em Medjugorje. Expliquei também ao Papa que hoje o maior movimento mariano começa em Medjugorje. Em todos os lugares existem grupos de oração que se reúnem no espírito de Medjugorje. E ele confirmou. Porque há menos famílias santas. O casamento também é uma grande vocação.  

Pergunta: Alguns ficam surpresos que nenhum dos videntes de Medjugorje entrou no convento ou se tornou padre quando cresceram. Este fato pode ser interpretado como um sinal do nosso tempo?  

Resposta: «Sim, vejo-o de uma forma muito positiva, porque vemos que estes homens que Nossa Senhora escolheu são simples instrumentos de Deus, não são os autores que idealizaram tudo, mas são colaboradores de um projecto divino maior. Sozinhos eles não teriam força. Hoje é particularmente necessário que a vida dos leigos seja renovada. Por exemplo, também há famílias que vivem esta consagração a Nossa Senhora, não só freiras e padres. Deus nos dá liberdade. Hoje devemos dar testemunho ao mundo: talvez no passado tais testemunhos claros fossem encontrados principalmente nos conventos, mas hoje precisamos desses sinais também no mundo. Agora é sobretudo a família que deve se renovar, pois a família hoje se encontra em uma profunda crise. Podemos não conhecer todos os planos de Deus, mas com certeza hoje devemos santificar a família.

Pergunta: o que seus companheiros bispos pensam hoje de Medjugorje ?  

Resposta: «Marija Pavlovic-Lunetti, uma das videntes que ainda recebe mensagens de Nossa Senhora, uma vez perante mim chorou, porque ela ouviu que alguns bispos questionam a autenticidade das Mensagens. O então bispo de Mostar, Pavao Zanic, chegou a chamá-la de mentirosa. Minha resposta ao bispo de Mostar foi: “Você está errado. Basta pensar em como as crianças se comportam normalmente em uma família grande. Se lhes é contado um segredo especial, no dia seguinte já brigam e contam o segredo para os outros. Se eu fosse a Nossa Senhora, provavelmente teria escolhido apenas uma pessoa, e não seis, porque teria parecido muito arriscado. Mas esses meninos foram torturados por muitos anos pela polícia, mas nunca revelaram nada. Sem dúvida, talvez estas Mensagens não sejam tão profundas e misteriosas como as de Fátima, mas aqui é uma transposição das Mensagens de Fátima, como entendidas também pelo Papa. Não bastam as grandes Mensagens, que então não podem ser divulgadas. Através de Medjugorje, orações e penitências contínuas são espalhadas. É surpreendente que em Medjugorje as pessoas jejuem a pão e água até duas vezes por semana, se consagrem ao coração de Nossa Senhora e a venerem. Na década de 1980, seis bispos brasileiros me procuraram uma vez porque ouviram que eu estava interessado em Medjugorje. Eles me perguntaram se eu poderia providenciar para que eles concelebrassem uma Santa Missa com o Papa, então eles queriam ir para Medjugorje. O Papa concordou em recebê-los, mas o seu secretário, Mons. Stanlislaw Dziwisz disse mais tarde: Por favor, não diga que o Papa o recebeu em uma missa particular porque você está indo para Medjugorje, mas ele o convidou porque você veio do Brasil distante. Isso significa que, é claro, o Papa nunca reconheceu Medjugorje explícita e oficialmente, pois não quer antecipar o bispo da diocese de Mostar.  

Pergunta: A posição oficial da Igreja em relação a Medjugorje mudou nos últimos anos?  

Resposta: Somente nos últimos dez anos, milhões de pessoas foram em peregrinação a Medjugorje. se a Igreja realmente acreditasse que algo contrário à fé ou à moral está sendo divulgado neste lugar, então ela teria sido obrigada a tomar medidas contra Medjugorje. Ela deveria ter feito tudo para proteger os homens desse fenômeno. O fato de ele estar em silêncio é um bom sinal e, de fato, um reconhecimento de Medjugorje. Basta navegar no registro paroquial para ver quantos padres celebram a Santa Missa em Medjugorje todos os anos. Eles não viriam se descobrissem algo que questionasse a confiabilidade das mensagens. Dos frutos se reconhecerá se daqui cresceu uma árvore boa ou ruim.  

Pergunta: Qual foi sua experiência espiritual pessoal em Medjugorje?  

Resposta: Tive a sorte de poder conhecer pessoalmente os videntes e, assim, poder ter uma ideia clara deles. Consegui ganhar a confiança deles e tive a sensação de ser pessoalmente apresentado aos mistérios de Medjugorje, como já havia acontecido antes também em Fátima e Lourdes, quando pude conhecer a Irmã Lúcia e o Bispo de Fátima. Fiquei feliz e também me senti privilegiado por poder participar tão de perto dos eventos de Medjugorje. Mesmo agora, quando às vezes falo com Vicka Ivankovic-Mijatovic ou Marija Pavlovic-Lunetti, sinto-me próximo delas. Por isso também sinto uma certa responsabilidade para com eles, sinto-me parte de uma grande família.  

Pergunta: Numa das primeiras mensagens, pelo que se diz, Nossa Senhora afirmou que estas seriam as últimas aparições. Muitas pessoas pensam com isso no fim do mundo e no Apocalipse. Como pode ser interpretado corretamente?  

Resposta: Sim, ouvi dizer, mas muitas vezes as profecias falam do ‘último dia’. São Paulo já falou disso. Vivemos no último dia, mas os verdadeiros profetas nunca indicaram uma data precisa em que essas profecias se cumpririam. O próprio Jesus disse que nem mesmo o Filho do Homem sabe o momento em que haverá o “segundo advento” e o “julgamento final”: só o Pai sabe. Portanto, podemos dizer o mesmo que foi dito antes de Fátima: Medjugorje é a maior intervenção de Deus na história da humanidade”. 

Cronologia:

  • Em 2014 a comissão sobre Medjugorje, instituída em 2010 por Bento XVI e presidida pelo Cardeal Camillo Ruini, termina os seus trabalhos e entrega um relatório final ao Papa Francisco.
  • a 12 de Maio de 2019 o Santo Padre o Papa Francisco nomeia o arcebispo dom Henryk Hoser, como visitador apostólico de Medjugorje  para a pastoral do santuário de Medjugorje.

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