Pio XII – le pèlerinage de Lourdes (1957): centenário das aparições e teologia das peregrinações

A encíclica Le Pèlerinage de Lourdes (2 julho 1957), publicada em francês, língua das aparições, foi a última encíclica magna do pontificado de Pio XII (1939-1958). Dedicada ao primeiro centenário das aparições de Lourdes (1858-1958), é o documento pontifício mais completo sobre a teologia mariana das aparições e o seu valor pastoral.

PapaVenerável Pio XII (Eugénio Pacelli, 1939-1958)
DocumentoEncíclica Le Pèlerinage de Lourdes, 2 julho 1957
TemaCentenário das aparições de Lourdes; teologia mariana das peregrinações

O pontificado mariano de Pio XII

Antes de analisarmos a encíclica, é essencial recordar que Pio XII foi o papa que mais ampliou dogmaticamente a mariologia no século XX. As suas grandes acções marianas foram:

  • 1942: Consagração do mundo ao Imaculado Coração de Maria (resposta a Fátima)
  • 1950: Definição dogmática da Assunção em Munificentissimus Deus
  • 1952: Consagração da Rússia ao Imaculado Coração
  • 1954: Ano Mariano (centenário da Imaculada Conceição)
  • 1954: Definição da Realeza de Maria em Ad Caeli Reginam
  • 1957: Le Pèlerinage de Lourdes (centenário de Lourdes)

Le Pèlerinage de Lourdes representa o coroamento desta jornada mariana, uma espécie de testamento mariano de Pio XII.

Estrutura da encíclica

A encíclica organiza-se em quatro partes principais:

I. As aparições de Lourdes

Pio XII narra as dezoito aparições a Bernadette Soubirous (11 fevereiro, 16 julho 1858) e a identificação da Virgem como «a Imaculada Conceição» (25 março 1858). Esta é a confirmação «do Céu» da definição dogmática de 1854.

II. Lourdes como sinal dos tempos

«Lourdes est unum ex signis temporum nostrum: Mater Dei, ad terrae loca humilia descendens, sicut nuntius Domini in pauper trium iuvenculae, doceat homines moderni temporis quod fundamentum vitae humanae aedificetur in fide simplicem et confidentia mater»

Lourdes é um dos sinais dos nossos tempos: a Mãe de Deus, descendo a lugares humildes da terra, como mensageira do Senhor a uma pobre jovem, ensina aos homens do tempo moderno que o fundamento da vida humana se edifica na fé simples e na confiança maternal.

III. As curas milagrosas

Pio XII confirma o valor das curas milagrosas de Lourdes como «sinais» da actividade divina, mas adverte contra dois extremos: o cepticismo racionalista que recusa qualquer milagre, e o credulismo popular que pretende cada cura como milagrosa. A Igreja submete cada caso ao escrutínio rigoroso da medicina e da teologia.

IV. Lourdes e a pastoral dos doentes

A parte mais original da encíclica: Lourdes não é apenas santuário das curas, é santuário do significado do sofrimento cristão. Aqueles que não são curados fisicamente são curados espiritualmente através do sentido cristão da dor.

«Lourdes docet nos quod dolor humanus, in unione cum dolore Christi, opus salvificum est et obtinet pretiosa fructus pro communitate fidelium. Maria iuxta Crucem est Mater hominum dolentium, non eos curat semper a sufferentia, sed donat eis sensum et finalitatem suae sufferentiae»

Lourdes ensina-nos que a dor humana, em união com a dor de Cristo, é obra salvífica e obtém preciosos frutos para a comunidade dos fiéis. Maria junto à Cruz é a Mãe dos homens sofredores, não os cura sempre do sofrimento, mas dá-lhes o sentido e a finalidade do seu sofrimento.

Lourdes e a mariologia pós-Conciliar

A teologia de Pio XII em Le Pèlerinage de Lourdes será retomada e aprofundada por:

  • São João Paulo II em Salvifici Doloris (1984): Maria iuxta Crucem como modelo do sofrimento cristão
  • São João Paulo II em 1992: instituição do Dia Mundial do Doente em 11 fevereiro (festa de Nossa Senhora de Lourdes)
  • Bento XVI em 2008: visita a Lourdes para o 150.º aniversário, com discurso sobre a teologia mariana das peregrinações

Significado para a devoção popular

A encíclica de Pio XII foi crucial para legitimar teologicamente a devoção popular a Lourdes, e por extensão a todas as devoções marianas dos santuários. Numa fase em que algumas correntes intelectuais propunham uma «depuração racionalista» da piedade popular, Pio XII reafirmou o valor teológico legítimo das peregrinações, das curas e das devoções populares marianas, desde que orientadas para a fé na encarnação redentora.

Leitura complementar

Mariologia | Munificentissimus Deus | Ad Caeli Reginam | Aparições Marianas | Salvifici Doloris

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