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Os Salmos mariológicos do advento

Um lugar importante no Advento é ocupado pelos salmos característicos: 23; 24; 71; 79; 84; 88; 121 e, em geral, os salmos messiânicos, juntamente com outros textos poéticos do Antigo Testamento (como o cântico de Ana e alguns cânticos retirados do livro de Isaías) e os textos evangélicos do Magnificat e do Benedictus.

O Salmo 23 festeja a jubilosa liturgia de entrada no santuário, que se refere, pelo menos em parte, ao transporte da arca para Jerusalém (cf. 2 Sam 6), aclama a vitória e a vinda gloriosa do Messias, típica da parusia; ao mesmo tempo, apresenta as disposições exigidas de quem deseja a Deus, busca-o e quer segui-lo. 

Para se aproximar do Senhor e ter parte com ele, o justo deve possuir pureza de coração e integridade de vida. Ele receberá a bênção divina como recompensa porque, ele já faz parte da geração daqueles que procuram a Deus. A liturgia vê neste salmo uma profecia da encarnação e aplica-a neste tempo à Virgem Maria, por meio da qual Deus, a quem pertence o universo, faz a sua entrada no mundo. Seguindo o exemplo da Virgem, cada cristão deve preparar-se para acolher – como um templo – o rei da glória que vem à terra na forma humilde de homem.

Salmo 23

Salmo de Davi. Do Senhor é a terra e tudo o que ela contém, a órbita terrestre e todos os que nela habitam,
pois ele mesmo a assentou sobre as águas do mar e sobre as águas dos rios a consolidou.
Quem será digno de subir ao monte do Senhor? Ou de permanecer no seu lugar santo?
O que tem as mãos limpas e o coração puro, cujo espírito não busca as vaidades nem perjura para enganar seu próximo. 
Este terá a bênção do Senhor, e a recompensa de Deus, seu Salvador. 
Tal é a geração dos que o procuram, dos que buscam a face do Deus de Jacó. 
Levantai, ó portas, os vossos dintéis! Levantai-vos, ó pórticos antigos, para que entre o rei da glória! 
“Quem é este rei da glória?” É o Senhor forte e poderoso, o Senhor poderoso na batalha.
Levantai, ó portas, os vossos dintéis! Levantai-vos, ó pórticos antigos, para que entre o rei da glória! 
“Quem é este rei da glória?” É o Senhor dos exércitos! É ele o rei da glória.

O Salmo 24 é a Trombeta do Advento colocado no início do 1º Domingo do Advento como cântico de entrada. O versículo Ad te levavi animam meam (a Ti se eleva a minha alma) abre o missal tornando-se o motivo principal da disposição interior do celebrante no Advento. Este grito de socorro no perigo, a súplica de um solitário que implora o perdão dos pecados, que são tidos como causa da sua desgraça, e pede luz e socorro, é emblemático da situação humana, tal como aparece descrita e generalizada neste período. Indo ao encontro de Cristo que agora vem in mysterio, ou seja, na celebração litúrgica e que virá como juiz no fim dos tempos, a Igreja anseia e deseja o seu Deus: o caminho e o guia são a retidão, a bondade e a justiça.

Salmo 24

De Davi. Para vós, Senhor, elevo a minha alma.
Meu Deus, em vós confio: não seja eu decepcionado! Não escarneçam de mim meus inimigos!
Não, nenhum daqueles que esperam em vós será confundido, mas os pérfidos serão cobertos de vergonha. 
Senhor, mostrai-me os vossos caminhos, e ensinai-me as vossas veredas. 
Dirigi-me na vossa verdade e ensinai-me, porque sois o Deus de minha salvação e em vós eu espero sempre. 
Lembrai-vos, Senhor, de vossas misericórdias e de vossas bondades, que são eternas. 
Não vos lembreis dos pecados de minha juventude e dos meus delitos; em nome de vossa misericórdia, lembrai-vos de mim, por causa de vossa bondade, Senhor. 
O Senhor é bom e reto, por isso reconduz os extraviados ao caminho reto.
Dirige os humildes na justiça, e lhes ensina a sua via. 
Todos os caminhos do Senhor são graça e fidelidade, para aqueles que guardam sua aliança e seus preceitos. 
Por amor de vosso nome, Senhor, perdoai meu pecado, por maior que seja. 
Que advém ao homem que teme o Senhor? Deus lhe ensina o caminho que deve escolher.
Viverá na felicidade, e sua posteridade possuirá a terra. 
O Senhor se torna íntimo dos que o temem, e lhes manifesta a sua aliança. 
Meus olhos estão sempre fixos no Senhor, porque ele livrará do laço os meus pés.

O Salmo 71, nitidamente messiânico, com a riqueza e o poder evocativo das suas imagens, proclama o reino universal da justiça e da prosperidade, da paz e da abundância, da libertação e da reabilitação do Rei-Messias esperado por Israel. Jesus é a figura ideal do descendente de David, o verdadeiro ‘ungido’ de Deus, delineado com prerrogativas grandiosas: 

  • ele fará coisas maravilhosas
  • e manifestará a glória de Deus

O canto deste salmo durante o Advento expressa também a expectativa de Cristo rei da paz, auxiliador e defensor dos pequenos e dos pobres, dos fracos e oprimidos, contra toda violência e abuso.

Salmo 71 – 2º Domingo do Advento – Ano A

De Salomão. Ó Deus, confiai ao rei os vossos juízos. Entregai a justiça nas mãos do filho real,
para que ele governe com justiça vosso povo, e reine sobre vossos humildes servos com equidade.
Produzirão as montanhas frutos de paz ao vosso povo; e as colinas, frutos de justiça.
Ele protegerá os humildes do povo, salvará os filhos dos pobres e abaterá o opressor.
Ele viverá tão longamente como dura o sol, tanto quanto ilumina a lua, através das gerações. 
Descerá como a chuva sobre a relva, como os aguaceiros que embebem a terra.
Florescerá em seus dias a justiça, e a abundância da paz até que cesse a lua de brilhar.
Ele dominará de um ao outro mar, desde o grande rio até os confins da terra.
Diante dele se prosternarão seus inimigos, e seus adversários lamberão o pó. 
Os reis de Társis e das ilhas lhe trarão presentes, os reis da Arábia e de Sabá lhe oferecerão seus dons. 
Todos os reis hão de adorá-lo, hão de servi-lo todas as nações. 
Porque ele livrará o infeliz que o invoca, e o miserável que não tem amparo.
Ele se apiedará do pobre e do indigente, e salvará a vida dos necessitados. 
Ele o livrará da injustiça e da opressão, e preciosa será a sua vida ante seus olhos.
Assim ele viverá e o ouro da Arábia lhe será ofertado; por ele hão de rezar sempre e o bendirão perpetuamente. 
Haverá na terra fartura de trigo, suas espigas ondularão no cume das colinas como as ramagens do Líbano; e o povo das cidades florescerá como as ervas dos campos. 
Seu nome será eternamente bendito, e durará tanto quanto a luz do sol. Nele serão abençoadas todas as tribos da terra, bem-aventurado o proclamarão todas as nações. 
Bendito seja o Senhor, Deus de Israel, que, só ele, faz maravilhas. 
Bendito seja eternamente seu nome glorioso,
e que toda a terra se encha de sua glória. Amém! Amém! 
Aqui terminam as preces de Davi, filho de Jessé.

O Salmo 79 emerge no momento da calamidade e do exílio, em condições precárias, em que o horizonte é incerto. Este Salmo é uma invocação sentida e uma oração ardente que brota de uma fé generosa, para que Deus venha e reúna as pessoas dispersas que ele ama. As imagens da vinha, como a do rebanho reunido à volta do Pastor evoca o amor eterno de Javé por Israel.

A insistência do refrão “nos refresca e faz brilhar o teu rosto”, faz do Salmo 79 uma oração apaixonada que destaca um dos temas principais deste tempo, o da luz. Este salmo, com o qual o povo de Israel implorava a intervenção de Deus libertador, ressoa ainda hoje no tempo da Igreja. De fato, a Comunidade Eclesial se reconhece como rebanho e vinha do Senhor, objeto de seu amoroso cuidado de Pai. Passando por situações difíceis e dolorosas em todos os momentos da sua história, implora a visita daquele em quem deposita toda a sua confiança e esperança.

Salmo 79 – 4º Domingo do Advento – Ano C

Ao mestre de canto. Conforme: “A lei é como os lírios”. Salmo de Asaf.
Escutai, ó pastor de Israel, vós que levais José como um rebanho.
Vós que assentais acima dos querubins mostrai vosso esplendor em presença de Efraim, Benjamim e Manassés. Despertai vosso poder, e vinde salvar-nos. 
Restaurai-nos, ó Senhor; mostrai-nos serena a vossa face e seremos salvos. 
Ó Deus dos exércitos, até quando vos irritareis contra o vosso povo em oração?
Vós o nutristes com o pão das lágrimas, e o fizestes sorver um copioso pranto. 
Vós nos tornastes uma presa disputada dos vizinhos: os inimigos zombam de nós.
Restaurai-nos, ó Deus dos exércitos; mostrai-nos serena a vossa face e seremos salvos.
Uma vinha do Egito vós arrancastes; expulsastes povos para replantá-la.
O solo vós lhes preparastes; ela lançou raízes nele e se espalhou na terra.
As montanhas se cobriram com sua sombra, seus ramos ensombraram os cedros de Deus. 
Até o mar ela estendeu sua ramagem, e até o rio os seus rebentos.
Por que derrubastes os seus muros, de sorte que os passantes a colham, 
e a devaste o javali do mato, e sirva de pasto aos animais do campo? 
Voltai, ó Deus dos exércitos; olhai do alto céu, vede e vinde visitar a vinha. 
Protegei este cepo por vós plantado, este rebento que vossa mão cuidou. 
Aqueles que a queimaram e cortaram pereçam em vossa presença ameaçadora.
Estendei a mão sobre o homem que escolhestes, sobre o homem que haveis fortificado.
E não mais de vós nos apartaremos; conservai-nos a vida e então vos louvaremos.
Restaurai-nos, Senhor, ó Deus dos exércitos; mostrai-nos serena a vossa face e seremos salvos.

O Salmo 84 tem por tema a manifestação da misericórdia divina para com Israel. As imagens e os sentimentos que expressa com lirismo vivaz são típicos da espiritualidade do Advento. A composição dos «filhos de Core», isto é, de uma dinastia ou família de cantores repatriada por Ciro em 538 a.C., exprime a crise da alma judaica que se prepara para a reconstrução da nação, simbolizada pela reconstrução do templo, após a exílio.

Salmo 84 – 2º Domingo do Advento – Ano B

Ao mestre de canto. Salmo dos filhos de Coré.
Fostes propício, Senhor, à vossa terra; restabelecestes a sorte de Jacó.
A iniquidade de vosso povo perdoastes, foram por vós cobertos seus pecados.
Aplacastes toda a vossa cólera, refreastes o furor de vossa ira. 
Restaurai-nos, ó Deus, nosso salvador, ponde termo à indignação que tínheis contra nós.
Acaso será eterna contra nós a vossa cólera? Estendereis vossa ira sobre todas as gerações? 
Não nos restituireis a vida, para que vosso povo se rejubile em vós? 
Mostrai-nos, Senhor, a vossa misericórdia, e dai-nos a vossa salvação. 
Escutarei o que diz o Senhor Deus, porque ele diz palavras de paz ao seu povo, para seus fiéis, e àqueles cujos corações se voltam para ele. 
Sim, sua salvação está bem perto dos que o temem, de sorte que sua glória retornará à nossa terra.
A bondade e a fidelidade outra vez se irão unir, a justiça e a paz de novo se darão as mãos. 
A verdade brotará da terra, e a justiça olhará do alto do céu. 
Enfim, o Senhor nos dará seus benefícios, e nossa terra produzirá seu fruto. 
A justiça caminhará diante dele, e a felicidade lhe seguirá os passos.

A riqueza dos pensamentos, ação de graças, invocação de questionamento, oráculo de favor e confiança, fazem deste Salmo 84 uma oração esperançosa por uma idade jubilosa de justiça e paz. Com ela, a Igreja – o novo Israel – agradece ao Senhor Jesus pela obra de salvação que Ele iniciou com a sua primeira vinda na carne, e roga-lhe que leve esta obra até ao fim. As várias vindas de Cristo ao longo da história inundam a humanidade com as bênçãos de Deus. Em última análise, paz e justiça, amor e verdade – fruto da salvação – unirão o céu e a terra em perfeita harmonia.

O Salmo 88 (4º Domingo – ano B) é uma celebração memorial da fidelidade de Deus à aliança: mesmo que os filhos de Davi transgridam a lei, a palavra de Deus nunca falhará. Este hino, composto numa época em que a monarquia já não existia mas o messianismo régio se tinha estabelecido claramente, está ligado ao juramento feito por Javé a Davi por meio de Natã (cf. 2 Sm 7): a política não consolidará a dinastia, mas Deus fará eterna a linhagem davídica. 

Em Cristo, filho de Davi segundo a carne, o Senhor concluirá uma aliança eterna com toda a humanidade, baseada na lei e na justiça. A perspectiva patrístico-litúrgica aplica este salmo a Cristo: só n’Ele as promessas de um domínio universal adquirem plenitude de verdade; nele as realidades anunciadas são transfiguradas em uma ordem superior e com um significado novo e pleno.

O Salmo 121 (1º Domingo – Ano A), é um canto de peregrinação que dirige-se com notas alegres a Jerusalém, cidade da paz, pátria da alma e lugar de encontro com Deus. O salmo, rico de inspiração e de emoção, transbordante de sentimento, torna-se o canto da Igreja peregrina que vai ao encontro de Deus. Por esta bênção que sobe, desce a paz a quantos vivem na espera com pleno desejo. A era messiânica é aqui vista como uma convocação universal e um retorno a Sião, transfigurada em cidade escatológica. 

Oração

Hino de Advento

Excelso Criador dos grandes astros,
Jesus, eterna luz dos vossos crentes,
Divino Redentor da humanidade,
Ouvi as nossas súplicas ardentes.

Viestes, ó Jesus, para salvar-nos
Da morte em que o demónio nos trazia:
Do mundo enfraquecido foi remédio
O vosso amor que alenta e que alumia.

Para salvar-nos todos do pecado,
viestes até nós como um Cordeiro:
Dum seio imaculado vós nascestes
Para Vos imolardes num madeiro.

O vosso nome santo e onipotente
Por toda a criação seja adorado:
Vós sois, Senhor Jesus, excelso Rei,
Todo o poder que existe Vos foi dado.

Combatendo na terra o bom combate,
Queremos vosso reino dilatar:
Vireis, divino Rei, no fim dos tempos,
A vossa eterna glória proclamar.

Edição Locus

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