O percurso eclesial do dogma da Imaculada Conceição

O percurso eclesial do dogma da Imaculada Conceição

Estamos em 2020, há 166 anos do dogma da Imaculada Conceição proclamado pelo Beato Pio IX em 8 de dezembro de 1854 que com esta definição dogmática pôs fim a dúvidas teológicas:

«Declaramos, pronunciamos e definimos que a doutrina, a qual retém que a Beatíssima Virgem Maria no primeiro instante da sua concepção, por singular graça e privilégio de Deus onipotente e em vista dos méritos de Jesus Cristo, Salvador do gênero humano, tenha sido preservada imune de toda a mancha do pecado original, foi por Deus revelada e por isso deve acreditar-se firmemente e constantemente por todos os fiéis» (Bula Ineffabilis Deus).

Quando o Papa Pio IX proclamou esta fórmula, ele conta que experimentou no momento da definição do dogma o seguinte:

«Quando comecei a proclamar o decreto dogmático, sentia a minha voz impotente para se fazer ouvir da imensa multidão presente na Basílica Vaticana; mas quando cheguei à fórmula da definição, Deus deu ao seu Vigário tal força e tanto vigor sobrenatural que ressoou em toda a Basílica, e eu fiquei de tal forma impressionado pela ajuda divina que tive de suspender por um momento a palavra para dar lugar ao desabar das minhas lágrimas. Para além do mais, enquanto Deus proclamava o dogma pela boca do seu Vigário, o mesmo Deus deu ao meu Espírito um conhecimento de tal forma claro e vasto sobre a incomparável pureza da santíssima Virgem, que inabitado pela profundidade desse conhecimento, cuja nenhuma linguagem poderia descrever, a minha alma permaneceu inundada de delícias que não consigo descrever, delícias que não são terrenas e que não poderão ser provadas até chegarmos ao céu…» (in B. Giuliani, Gli atti di Pio IX per la definizione dogmatica dell’Immacolata Concezione, in Pio IX 23 (1994) 99)

Há distância de tantos anos relemos neste artigo o evento e a sua história colocando-nos nos ombros daqueles gigantes da fé que souberam ao longo de séculos encontrar as grandes inspirações sobre a verdade da criação, do pecado, da graça, da maternidade e da mulher.

O sensus fidei 

Do ponto de vista histórico podemos afirmar que o dogma da Imaculada Conceição é sobretudo um fato eclesial que ao longo dos séculos foi amadurecendo dentro da Igreja. Se quisermos individuar as forças que desenvolveram tal dado de fé temos de falar do sensus fidei do Povo cristão, dos teólogos que desataram as questões ligadas à imperativa liberdade da vontade do Pai, ao magistério eclesial como aquele que conserva todas estas coisas no seu coração e nelas medita ao longo dos séculos. Todas as forças do Espírito nos levaram à forma definitiva de 1854 não como vontade do Sumo Pontífice mas como ponto de chegada de séculos de inspiração.

Porquê tantos séculos? 

Conhecer a história é dar espaço à memória que recorda o exercício dos vários carismas na Igreja suscitados pelo Espírito Santo. O primeiro dos eventos é o sensus fidei, que o Novo Testamento descreve como sensus Christi, ou seja o pensamento de Cristo que se desenvolve no homem espiritual que com esse pode julgar todas as coisas (1 Cor 2,16); o segundo é a unção ou crisma que permite-nos distinguir a verdade da mentira e ensinar tudo a partir de dentro (1 Jo 2,20-27); e como a conversão da mente que nos leva a um mais profundo conhecimento do plano de Deus (Ef 1,17-18; Col 1,9; Rm 12,2; Fil 1,9-10).

Toda a comunidade cristã é sujeita prioritária deste sensus fidei que a torna capaz de perceber de forma espontânea a presença de Deus através da revelação, das virtudes, e como tal a conservar e desenvolver a revelação. Trata-se de um carisma de conhecimento da revelação que não é teologia e não é magistério e que nasce do horizonte de conhecimento novo, pois a contínua presença de Deus se deixa conhecer em todo o tempo e lugar. Se olharmos para as disposições do Concílio Vaticano II, Dei Verbum 8, três eixos levam ao conhecimento da revelação a experiência espiritual ou sensus fidelium; a reflexão teológica derivante da meditação da escritura à imagem da Virgem contemplativa; o magistério episcopal. São estes três eixos que conduziram ao longo da história à doutrina, à ação litúrgica e à mediação cultural da Imaculada.

A continuação do tema se dará nos próximos dias!

Feliz Solenidade!

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Responses

  1. É tão profundo a experiência que o Papa Pio IX sentiu e testemunhou ao mundo, como se fosse a sua própria oração de agradecimento à Maria, de forma única e, ao mesmo tempo universal! Ao ler suas palavras, houve reflexo de sua oração em mim, como um chamado pessoal de Maria, e também a cada um de seus filhos, a clamar: “Jesus! Jesus! Eis-me aqui! Seja feita Pai, sempre à Sua Vontade!” Amém 🙏🏼

  2. Super interessante o artigo da Imaculada Conceiçao. Como pertenço a Congregaçao das Irmas da Imaculada Conceiçao funda por Santa Emilie de Villeneuve em 8 de dezembro de 1836, Ela escolhe o titulo da Imaculada antes mesmo de ser proclamada o dogma. Ela acreditava na graça de Deus em Maria tabernaculo imaculado para acolher Jesus Salvador ! Buscamos com Maria ter um olhar Imaculado. Seria interessante ver as implicaçoes da vida de Maria Imaculada em nossa vida consagrada…

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