Maria, no hoje da Igreja e do mundo

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A Sociedade de hoje para além de ser global, isto é, os acontecimentos do mundo estão interligados de forma instantânea, é sobretudo plural do ponto de vista cultural. O mito da superioridade da sociedade ocidental como cultura superior que deveria organizar o mundo hoje, é colocado de lado em prol de uma visão que abraça a multiplicidade de visões, inclusive religiosa. 

Esta aceleração dos tempos leva a mariologia a um novo mundo governado pelo encontro dos diversos. Se por um lado a identificação de Maria com a cultura ocidental acompanhou as diversas culturas de forma unilateral nos processos de expansão ultramarina por outro lado a crise econômico industrial com inflação, desemprego, questões morais da economia global fazem de Maria um espaço de encontro entre culturas pela sua dimensão aberta, compreensiva que reforça a angústia do transcendente que dê um sentido à vida e que faça justiça à libertação de uma opressão que se reforça em sistemas sociais que no confronto tendem a homologar-se. 

O homem de hoje, na sua grande maioria, pode se definir como homem metropolitano. As grandes sínteses do passado se liquidificaram numa relativização de referências que pareciam seguras e que hoje não o são mais, podemos dizer que um elemento permaneceu inalterado e é comum a todos os povos a piedade feminina perante a vida efêmera. 

Se o desinteresse pelo cristianismo se nota nos diversos espaços sociais em uma espécie de credo comum ético onde todos os seres humanos poderiam habitar em harmonia, não deixa de ser verdade que a ‘discípula perfeita do Senhor, imagem e modelo da Igreja não deixa de inspirar os diversos campos da cultura humana, como a música, a pintura, a arquitetura, a escultura, a literatura e a arte popular’ (São João Paulo II). É neste contexto que surgem ‘novas imagens de Maria’.

Na realidade, o mundo prescinde da Bíblia como Palavra de Deus mas não deixa de produzir volumes sobre a Virgem Maria; pensemos em romances, antropologias feministas, tudo numa perspectiva laica, a-confessional, podemos até afirmar light. Esta imagem laica de Maria se difunde como presença de uma Mãe universal que diálogo que é boa, verdadeira e bela. Maria é então vivida como uma diversa de nós, completamente santa que olha para um mundo completamente manchado pelo pecado. 

Contudo está longe da história dos homens, toca o mundo através de aparições, verdadeiras ou presumidas, é testemunhada como tendo uma extrema sensibilidade às intervenções miraculosas de Deus na história, mas insensível à renovação até mesmo barreira a qualquer possível mudança nos usos e costumes.

Por outro lado no mundo teológico, encontramos uma dificuldade com a compreensão de Maria dentro dos circuitos da teologia católica. Talvez o testemunho de Karl Rahner nos ajude a compreender como a criatura perfeitamente redimida perante as expressões culturais múltiplas deve ser teologicamente compreendida:

«Devo confessá-lo, sou surpreendido pela piedade mariana das ‘massas’, na qual o devoto se coloca aos pés de Nossa Senhora, a ama, lhe dirige tantas súplicas e com tanta confiança, quase como se fosse a coisa mais importante da religião! Contudo depois pergunto-me criticamente se a causa do meu choque não seja talvez apenas a minha incapacidade de atuar, e é justo que assim seja, a total espontaneidade daquele realismo de intercomunicação humana pedido a um cristianismo que seja verdadeiramente vivo».


Talvez nesta humilde confissão de uma das mais importantes mentes teológicas do século XX possamos ver como ultrapassamos a visão ‘iluminista’ da história, como o triunfo da razão que conduziria à felicidade universal não conseguiu mais do que uma luta de ‘todas contra todos’. Penso que devemos voltar às raízes universais onde as 3 personagens ilustram a nossa vida de todos os tempos sem espiritualizar ideologicamente nada: a Mãe, o Menino e o Dragão (Apocalipse capítulo 12). O plano de salvação de Deus acontece em cada vida, em cada história porque o Pai abençoando o Filho nos tornou filhos e herdeiros e na ‘bendita entre as mulheres’ a maldição se transforma em benção e a perseguição em glória.

Daniel Afonso

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Respostas

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  1. O texto acima e o seu conteúdo, repleto de ideias e abordagens complicadas e demasiadamente elaboradas, torna difícil e angustiante aquilo que é simples, imensamente simples: Maria, Mãe de Deus e Mãe dos homens, é carinhosamente e misteriosamente universal dentro de qualquer conjuntura.

  2. Bom dia
    Que maravilha essas explicações sobre Maria, a Virgem Mãe, de todos os viventes. Possamos através dessas aulas nos mantermos firmes como a rocha que Jesus indicou a Pedro. O estudo sobre Maria traz a sua dimensão profética e resgata nossa fragilidade nesta vida terrena. Gratidão!!!!

  3. Realmente @Moreira quando encaramos a Mariologia como ciência teológica, ela nos força a ir profundo e não mais ficar em “águas rasas”.

  4. Que texto fantástico e reflexivo! A Mariologia de fato lança luzes sobre a nossa forma de ler os acontecimentos históricos! Parabéns

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