Categories: Podcast da Mariologia

Crise Sacerdotal é crise mariana?

A crise sacerdotal nos nossos dias não se refere apenas ao celibato, mas à natureza e imagem do sacerdócio. É uma crise de identidade! Pensemos por momentos que hoje um sacerdócio meramente religioso e sacramental se confunde com ação política. 

O sacerdócio é uma função de prazo fixo e de horário determinado ou o padre é realmente o profissional em tempo integral apaixonado?

 O que é específico do sacerdote? Que meios concretos devem ser usados ​​para que a atividade sacramental seja expressão de uma fé que abranja toda a vida pessoal e social, e não um ritual externo?

Seria ingênuo atribuir a crise sacerdotal à crise mariana mas não existe dúvida que estas são contemporâneas e estão ligadas. Ambas vêm de causas mais profundas e gerais, como a das atuais estruturas mentais e sociais que obrigou a uma revisão de toda a teologia, colocando em crise tanto a apresentação da Virgem Maria como o conceito de sacerdócio. 

Talvez um elemento comum seja a alergia às mediações, típica da mentalidade contemporânea que mina os meios para focalizar o fim. Pode Deus ser mediado?

Na realidade, dado que tanto Nossa Senhora como o padre têm a sua mediação em Cristo, esta alergia à mediação pode tê-los colocado em crise. 

Mas a causa é muito mais profunda, a insuficiência das imagens do passado para direcionar as profundas mudanças na cultura, na teologia, na vida da Igreja.

A devoção mariana não pode ser considerada uma aventura que resolve todos os problemas debatidos sobre o sacerdócio. Mas também não deve ser considerada uma complicação inútil ou mesmo uma tela entre o sacerdote e Cristo. A experiência espiritual de muitos sacerdotes do passado e de hoje – pensemos em São Maximiliano Kolbe – assegura-nos que Maria não é um obstáculo, mas uma ajuda válida para a união com Deus e para o exercício do ministério sacerdotal.

A presença de Maria no culto da Igreja ajudará o sacerdote a tomar consciência de sua missão e a viver melhor a sua espiritualidade. Alguns sacerdotes testemunham a correlação entre o crescimento da devoção mariana e o progresso da vida espiritual. E, por outro lado, a crise mariana será resolvida se houver o empenho na experiência mariana dos sacerdotes, como aconteceu em tantos outros períodos da história da Igreja.

Que significado pode ter Maria no culto da Igreja para vida do sacerdote?

Esta é a pergunta que cada um de nós faz pessoalmente. Aqui, suponho um autêntico culto mariano, isto é, livre de falsificações, aberto às dimensões eclesiais, segundo as orientações do Concílio. Tal culto é um valor inalienável da vida da Igreja. Embora tenha sofrido contratempos periódicos, de fato pode ser comparado às ondas do mar, Maria no culto da Igreja sempre resistiu à prova e, portanto, permanece um fenômeno irresistível na história da Igreja. Como exorta o Concílio, a presença de Maria no culto da Igreja, deve ser promovida com generosidade e cheia de sentido para a vida cristã e sacerdotal. Vejamos:

«ensina o sagrado Concílio esta doutrina católica, e ao mesmo tempo recomenda a todas os filhos da Igreja que fomentem generosamente o culto da Santíssima Virgem, sobretudo o culto litúrgico, que tenham em grande estima as práticas e exercícios de piedade para com Ela, aprovados no decorrer dos séculos pelo magistério, e que mantenham fielmente tudo aquilo que no passado foi decretado acerca do culto das imagens de Cristo, da Virgem e dos santos. Aos teólogos e pregadores da palavra de Deus, exorta-os instantemente a evitarem com cuidado, tanto um falso exagero como uma demasiada estreiteza na consideração da dignidade singular da Mãe de Deus. Estudando, sob a orientação do magistério, a Sagrada Escritura, os santos Padres e Doutores, e as liturgias das Igrejas, expliquem como convém as funções e os privilégios da Santíssima Virgem, os quais dizem todos respeito a Cristo, origem de toda a verdade, santidade e piedade. Evitem com cuidado, nas palavras e atitudes, tudo o que possa induzir em erro acerca da autêntica doutrina da Igreja os irmãos separados ou quaisquer outros. E os fiéis lembrem-se de que a verdadeira devoção não consiste numa emoção estéril e passageira, mas nasce da fé, que nos faz reconhecer a grandeza da Mãe de Deus e nos incita a amar filialmente a nossa mãe e a imitar as suas virtudes».

Lumen Gentium 67

Resposta ao desígnio de Deus

Parece-nos que o primeiro significado de Maria no culto da Igreja é o de ser uma resposta ao desígnio de Deus. Maria no culto da Igreja é um fenômeno complexo que afeta o profundo sentimento e a sensibilidade do homem. Psicólogos e filósofos querem afirmar a ativação dos mecanismos da psique diante da figura materna e protetora de Maria, o ideal de uma humanidade criada em beleza e perfeição. E talvez seja também por isso que durante o Concílio, quando se tratou de Nossa Senhora, explodiu uma polêmica bastante acalorada, colocar ou não Maria no documento sobre a Igreja, proclamar ou não um novo dogma. Existiu também quem quis afirmar que seria necessário psicanalisar os Padres conciliares para descobrir a causa profunda da ativação do sentimento diante da Virgem. Quanto mais não seja um ponto vital foi tocado na psicologia dos cristãos e, portanto, também dos Bispos. Pode-se citar também as páginas de filósofos como Hegel e Fichte que enaltecem Maria como figura estética de grande valor em relação à vida do espírito.

No entanto, permanece em aberto que a relação autêntica com Maria não é determinada primordialmente a partir do mecanismo da psique e das aspirações humanas, mas pela Revelação. Não podemos esquecer que Maria

«procede da verdadeira fé, pela qual somos levados a reconhecer a preeminência da Mãe de Deus e somos levados ao amor filial por nossa Mãe e à imitação de suas virtudes ” (Lumen Gentium 67).

A presença de Maria no culto da Igreja é orientada pelo quê?

Pela verdadeira fé, porque esta nos apresenta Maria com sua missão única e irrepetível. Não foi apenas a criatura que inseriu Cristo no gênero humano, e isso já é um serviço à Igreja, um carisma verdadeiramente excepcional porque tornou possível a redenção humana, foi Maria que se abriu a Deus com uma fé tão exemplar que pôs em movimento a fé da Igreja, como instrumento livre e responsável para a salvação. 

Deus operou na Virgem esta eleição, propondo-a assim ao reconhecimento do Povo de Deus, foi Cristo que a uniu à sua missão regeneradora e a apresentou como um dom a acolher na fé pascal. Cristo deu muitos dons à humanidade: 

  • deu a sua vida;
  • deu o Espírito;
  • deu a Escritura;
  • deu Maria.

O acolhimento indicado no Evangelho de João é a atitude de fé: devemos abrir-nos a Maria, acolhê-la como dom e introduzi-la, como diz Paulo VI na cela da religião pessoal, para um diálogo sempre renovador. 

De consequência, fechar-se à  relação pessoal com Maria significa fechar-se ao plano da salvação, ignorando a obra de Deus e o dom de Cristo. Ainda que devamos reconhecer que não somos responsáveis por não acolher até sabermos ou descobrirmos o valor de Maria. Mas uma coisa é ignorar uma verdade, outra bem diferente, depois de conhecê-la, rejeitá-la. Uma vez que conhecemos o lugar de Maria na história da salvação, não podemos recusá-lo, porque recusá-lo seria retirar-se de um dos elementos colocados por Deus para a realização de seu plano de salvação. 

Pior ainda seria também a nulificação da palavra bíblica que prevê a convergência das gerações da nova aliança em louvor de Maria pelas grandes coisas nela realizadas pelo Senhor (Lc 1,48). O louvor a Maria não pode ser interrompido ao longo dos séculos.

Além disso, a Igreja é comunhão, comunidade, sociedade de salvação: nela emergem as pessoas, sobretudo as que estão nas suas origens e das quais partiu o movimento da fé. A Mãe de Deus encontra-se bem na ponte entre o Antigo e o Novo Testamento: 

  • nela Israel torna-se Igreja;
  • ela é a pessoa que pôs em movimento esta nova fé;
  • ela é a primeira cristã;
  • a Igreja antes da Igreja.

Se estivéssemos afastados do contato com Maria, seria como esquecer que a Igreja é comunhão com todos os membros que a compõem, mas sobretudo com aqueles que tiveram uma missão particular, uma missão de origem, uma missão que nos coloca em movimento.

E, finalmente, excluir a presença de Maria na Igreja seria uma atitude de ruptura com a tradição eclesial, que atribuía um lugar especial à Mãe do Senhor no culto ao descobrir a sua missão na obra da salvação.

Edição Locus

Share
Published by
Edição Locus

Recent Posts

COM MARIA, POR UMA COMUNIDADE CRISTÃ RECONCILIADA

Descubra como Maria revela a reconciliação perfeita: nova criação em Cristo, coração novo e ação…

7 dias ago

Maria em Cristo nos reconcilia entre nós, para fazer da humanidade família de irmãos

Maria em Cristo nos reconcilia entre nós para fazer da humanidade uma família de irmãos.…

1 semana ago

MARIA EM CRISTO NOS RECONCILIA CONOSCO MESMOS E COM OS OUTROS

Maria em Cristo nos reconcilia com Deus, conosco mesmos e com os outros. Um estudo…

1 semana ago

Como nós devemos, com Maria, abrir-nos a Cristo para ir ao encontro de Deus

Como abrir-se a Cristo com Maria para ir ao encontro de Deus? Um texto profundo…

2 semanas ago

Maria em Cristo no reconcilia com Deus

Como Maria, em Cristo, nos reconcilia com Deus? Um texto profundo sobre a história da…

2 semanas ago

O caminho do discípulo passa pelo Calvário

Entenda por que a festa de Nossa Senhora das Dores só se compreende plenamente no…

2 semanas ago