A tradição joânica, composta pelo Evangelho de João, pelas Cartas de João e pelo Livro do Apocalipse, apresenta uma compreensão singular da esperança cristã. Embora, à primeira vista, a palavra “esperança” (em grego, ἐλπίς) não apareça com frequência em seus escritos, a ideia de uma confiança firme na salvação e na consumação final do plano de Deus permeia toda a teologia joânica. Neste artigo, exploraremos brevemente como cada um desses escritos se articula em torno da esperança cristã, oferecendo um panorama que une a certeza da vida eterna já iniciada pela fé e sua plenitude aguardada na eternidade.
O Evangelho de João é marcado pela perspectiva de uma salvação que começa agora, por meio do encontro com Jesus, mas que só será plenamente consumada depois da morte. Embora o termo ἐλπίς (“esperança”) não apareça explicitamente, seu conteúdo está presente em toda a narrativa. A tensão entre a salvação já garantida pela fé e a sua consumação futura delineia o coração da mensagem de João.
Um dos temas centrais do Quarto Evangelho é a vida eterna (em grego, ζωὴ αἰώνιος). Já no prólogo, João apresenta Cristo como o Verbo encarnado que traz a “vida” (Jo 1,4). Mais adiante, ao concluir o Evangelho, o autor afirma:
“Estas coisas foram escritas para que acrediteis que Jesus é o Messias, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais a vida em seu nome.” (Jo 20,31)
Essa “vida” não se limita ao futuro, pois já começa no ato de fé. Em Jo 17,3, Jesus declara que a vida eterna consiste em “conhecer a ti, o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo que enviaste”. Ao mesmo tempo, há um aspecto de esperança que antecipa a plenitude dessa vida para além da existência terrena (Jo 3,16; 3,36).
Diversos textos joânicos aludem a uma esperança futura, especialmente ao tratar da ressurreição. Em Jo 5,24, Jesus garante que aquele que ouve sua palavra e crê, “tem a vida eterna” e não entra em juízo. Porém, essa mesma passagem aponta para a consumação futura, quando “os que tiverem feito o bem ressuscitarão para a vida” (Jo 5,29).
Do mesmo modo, em Jo 6,32-40, Jesus se apresenta como o “pão da vida” e promete ressuscitar no último dia aquele que nele crê. Assim, a salvação, embora assegurada agora, se cumprirá plenamente na ressurreição final.
Nos capítulos 14 a 17, muitas vezes chamados de “discurso de despedida”, Jesus anuncia sua partida e promete voltar para buscar os seus:
“Na casa de meu Pai há muitas moradas. Se assim não fosse, eu vos teria dito, pois vou preparar-vos um lugar. E quando eu for e vos tiver preparado um lugar, voltarei e vos levarei comigo, para que onde eu estiver, estejais vós também.” (Jo 14,2-3)
Além disso, Jesus pede pela unidade de todos os fiéis e por sua glorificação na oração sacerdotal (Jo 17,5-24). Essa perspectiva não é a de um drama apocalíptico iminente, mas de uma confiança contínua na comunhão definitiva com Deus, no Filho e no Espírito (Jo 14,15-24).
A Primeira Carta de João (1Jo) tem como objetivo conduzir os leitores à certeza da fé em Jesus Cristo encarnado e à posse da vida eterna. Logo nos primeiros versos, o autor testemunha o que viu e ouviu para que os fiéis estejam em comunhão com o Pai e com o Filho (1Jo 1,1-3). Sua conclusão ecoa a mesma finalidade do Evangelho de João:
“Isto vos escrevo a vós que credes no nome do Filho de Deus, para que saibais que tendes a vida eterna.” (1Jo 5,13; cf. Jo 20,31)
A fé na encarnação de Cristo é essencial, pois alguns na comunidade duvidavam que Jesus tivesse vindo “em carne” (1Jo 4,2; 2,22-23; 5,1-5). Ao mesmo tempo, o amor fraternal é prova de que a pessoa permanece em Deus (1Jo 3,23; 4,11-21). Nesse contexto, a esperança surge como confiança filial em Deus.
A carta assegura aos fiéis que podem ter “confiança no Dia do Juízo” (1Jo 4,17), pois, se guardam os mandamentos e creem em Cristo, podem repousar na certeza de que são verdadeiros filhos de Deus (1Jo 2,28; 3,19-24). Assim, a esperança joânica se manifesta como confiança, e não mero desejo, diante do juízo.
Em 1Jo 3,2, lemos:
“Caríssimos, desde agora somos filhos de Deus, mas ainda não se manifestou o que haveremos de ser. Sabemos que, quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele, pois o veremos tal como ele é.”
Esse versículo expressa a tensão entre o já da filiação divina e o ainda não de sua manifestação plena. No versículo seguinte, aparece explicitamente a palavra ἐλπίς (“esperança”), quando o autor afirma:
“E todo aquele que nele tem essa esperança, purifica-se a si mesmo, assim como ele é puro.” (1Jo 3,3)
Portanto, a esperança cristã, segundo 1Jo, não apenas aponta para o futuro, mas mobiliza o fiel a viver em santidade aqui e agora.
O Apocalipse de João apresenta-se como uma visão profética da história sob o senhorio de Cristo, aquele que inaugurou a redenção e a consumará no fim dos tempos. Logo no início, Deus é designado como “aquele que é, que era e que vem” (Ap 1,8), e Jesus como “Princípio e Fim”, “Alfa e Ômega” (Ap 22,13), assegurando que o futuro está garantido por Aquele que venceu a morte (Ap 1,17-18).
Cristo, o Cordeiro, já age de modo vitorioso na história. Isso aparece nas “sete cartas” dirigidas às Igrejas (Ap 2,1–3,22) e nas visões centrais que mostram a adoração celestial (Ap 4–5) e os mártires que clamam por justiça (Ap 6; 7). Essas passagens atestam que, embora as comunidades enfrentem perseguição e desafios, a vitória de Cristo já está em curso.
O Apocalipse conclama os fiéis à paciência (ὑπομονή) e à vigilância (γρηγορεῖν). Em Ap 13,10 e 14,12, a perseverança é destacada como marca essencial dos santos: é preciso suportar as tribulações, pois se sabe que o triunfo final pertence a Deus. Da mesma forma, o verbo “vigiar” (Ap 3,2-3; 16,15) reforça a necessidade de manter-se alerta, vivendo cada dia na fidelidade.
O clímax da obra encontra-se na visão da Nova Jerusalém, em Ap 21,1–22,5. Aqui, Deus habita definitivamente com a humanidade, e não haverá mais “morte, nem luto, nem clamor, nem dor” (Ap 21,4). É a concretização de toda a esperança bíblica: comunhão plena com Deus e a superação de todo o mal.
Ainda que o vocabulário específico de ἐλπίς seja raro, o Apocalipse está cheio de imagens que evocam a confiança dos fiéis na ação redentora de Cristo, que virá “em breve” (Ap 22,7-12), mas que já se faz presente na história.
A tradição joânica, em seu conjunto, delineia uma visão profunda da esperança cristã. O Evangelho de João mostra a tensão entre a vida eterna já iniciada na fé e sua plenitude futura. A Primeira Carta de João convida os fiéis a viverem confiadamente como filhos de Deus, aguardando o dia em que serão semelhantes a Cristo. Já o Apocalipse, com suas imagens simbólicas e chamadas à perseverança, aponta para a consumação definitiva da vitória de Cristo sobre o mal e a instauração da Nova Jerusalém.
Embora os escritos joânicos não empreguem frequentemente o termo “esperança”, eles a expressam em toda a sua força: uma certeza filial, ancorada na presença de Deus que se revela em Jesus, sustentada pelo Espírito, e que conduz a comunidade cristã a viver na fidelidade até o encontro pleno com o Pai. Dessa forma, a Tradição Joânica permanece como uma fonte perene de esperança para os fiéis de todos os tempos.
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