Categories: Podcast da Mariologia

A dimensão «mariana» da oração litúrgica

Na encruzilhada da comunhão entre Deus e o homem encontramos Maria. Por isso, celebrar nos santos sinais o Deus que desceu do céu por nós homens e para nossa salvação coloca a seguinte questão: Cristo continua a se fazer presente sacramentalmente para nossa santificação, em virtude da concepção pela Virgem?

Acolhendo Deus no seu ventre, Maria o deu à luz durante toda a história, cooperando na sua transfiguração na história da salvação, celebrada na liturgia. Portanto,  a dimensão mariana do culto é parte integrante da celebração do mistério de Cristo.

Celebrar Maria significa celebrar os mistérios do Senhor. Não se trata de duas orientações cultuais (para Deus e para Maria), mas de uma mesma: porque a Igreja celebra em primeiro lugar a obra de Deus no mistério pascal de Cristo, e nele encontra a Mãe intimamente unidos com o Filho.

O vínculo indissolúvel que une Maria a Cristo é, portanto, o primeiro e fundamental critério dentro do qual se exprime a veneração litúrgica pela Mãe do Salvador. À luz dos mistérios de Cristo professados ​​no Credo (encarnado por nós homens e pela nossa salvação, crucificado e ressuscitado, esperando o último dia), a Igreja acredita em Maria e a celebra.

Maria no único culto da Igreja, significa por um lado a contemplação da economia salvífica operada pelo Pai, através do Filho, no Espírito e, por outro, a compreensão da história humana de Maria como paradigma para os fiéis.

Um segundo momento de inevitável interrogação é a sua relação com a Igreja. Do ponto de vista evangélico é evidente a relação entre Cristo e Maria, mas no horizonte eclesiológico? Mãe e filha da Igreja, sua figura e modelo, Maria é a primícia e o ícone perfeito da comunidade dos redimidos; esta ligação tipológica aplica-se tanto à Igreja como um todo como a cada fiel. As categorias que, ao nível celebrativo, ilustram a relação entre Maria e a Igreja podem resumir-se em comunhão e exemplaridade: na oração da Igreja a oração de Maria é revivida.

Indispensável para o encontro entre Deus e o homem, Maria sempre pertenceu ao anúncio do mistério de Cristo e também à sua realização litúrgica. De fato, a veneração à Mãe do Senhor permeia a tradição milenar da Igreja: ao longo do tempo, as várias Igrejas expressaram louvor, súplica e amor a Maria com características próprias dos diversos ritos.

Sem entrar em detalhes, recordemos algumas coordenadas ilustrativas do lugar singular que ela ocupa na celebração dos mistérios de Cristo.

Nos séculos IV-V a memória da Virgem ganha destaque na liturgia do Natal e no tempo que a precede e acompanha, desenvolvendo em várias igrejas a ascensão de uma festa explícita da Virgem Mãe. Serão, portanto, as festas orientais da Apresentação, Anunciação, Assunção, Natividade a conotar o lugar de Maria no culto: chegadas a Roma no séc. VII, se estenderá por toda a Europa com a difusão da liturgia romana.

Mas mesmo antes do ciclo natalício e das festas em honra da Virgem, deve-se considerar a dimensão “mariana” da própria oração litúrgica: com Maria e como Maria, a Igreja celebra os mistérios divinos (escuta a Palavra, concorda com a fé, torna-se um corpo somente em Cristo). Com efeito, por tradição antiga e universal, a recordação orante da Virgem pertence à própria celebração da Eucaristia, expressão máxima da Igreja na oração.

Não se deve pensar que sua menção na Oração Eucarística seja de natureza devocional: é o sinal de que não podemos silenciar Maria ao fazer memória da Páscoa de Cristo. Dela, historicamente, veio até nós o corpo e o sangue do Senhor: por isso a Igreja a recorda, experimentando a sua comunhão e imitando as suas atitudes interiores. 

No exercício do culto, a Igreja reflete-se em Maria, a Virgem que escuta, a Virgem em oração, a  Virgem Mãe, a Virgem oferente.

A substância da piedade litúrgico-mariana pode, portanto, ser resumida pela memória (louvor, invocação, imitação, comunhão) de Maria no memorial dos mistérios de Cristo, celebrado para a vida da Igreja. Em virtude da presença viva de Maria nos mistérios históricos de Cristo, ela é reconhecida como presente também na realização litúrgica desses mesmos mistérios, que viram a sua protagonista e companheira, perenemente celebrada pelos fiéis que vivem emcompara Cristo. Ao reapresentar a obra salvífica nos santos sinais, a liturgia suscita e nutre a comunhão Cristo-Igreja; e nela brilha o lugar de Maria. De fato, na esfera litúrgica, a piedade mariana não corre o risco de um ênfase indevido em detrimento da centralidade de Cristo, pois não propõe uma mariologia desvinculada do mistério de Deus, um culto mariano desvinculado do culto cristão: a relação Igreja-Maria insere-se na relação litúrgica Trindade-Igreja.

Continuemos a questionar

Que tipo de presença é a de Maria na liturgia? 

Como ela difere da presença de Cristo e da presença dos santos? 

A sua presença na celebração transita entre a memória, a mediação materna, a exemplaridade e a comunhão. Difere da presença de Cristo por não ser autônoma mas relativa, e dependente da presença do mistério pascal de Cristo realizando-se no memorial. Comparada aos Santos, diferencia-se pelo lugar verdadeiramente único de Maria na história da salvação.

Edição Locus

Recent Posts

COM MARIA, POR UMA COMUNIDADE CRISTÃ RECONCILIADA

Descubra como Maria revela a reconciliação perfeita: nova criação em Cristo, coração novo e ação…

7 dias ago

Maria em Cristo nos reconcilia entre nós, para fazer da humanidade família de irmãos

Maria em Cristo nos reconcilia entre nós para fazer da humanidade uma família de irmãos.…

1 semana ago

MARIA EM CRISTO NOS RECONCILIA CONOSCO MESMOS E COM OS OUTROS

Maria em Cristo nos reconcilia com Deus, conosco mesmos e com os outros. Um estudo…

1 semana ago

Como nós devemos, com Maria, abrir-nos a Cristo para ir ao encontro de Deus

Como abrir-se a Cristo com Maria para ir ao encontro de Deus? Um texto profundo…

1 semana ago

Maria em Cristo no reconcilia com Deus

Como Maria, em Cristo, nos reconcilia com Deus? Um texto profundo sobre a história da…

2 semanas ago

O caminho do discípulo passa pelo Calvário

Entenda por que a festa de Nossa Senhora das Dores só se compreende plenamente no…

2 semanas ago