Via Matris

A Via Matris Dolorosae, ou simplesmente Via Matris, é um exercício de piedade no qual um grupo de fiéis, ou um único orante, percorre um caminho dentro ou fora de uma igreja ou santuário, meditando sobre os sofrimentos da Virgem.
Esse caminho, que é percorrido em oração, é marcado por sete paradas (as estações), correspondendo aos sete principais eventos dolorosos que a piedade popular cristã identificou na vida da Virgem ao lado do Salvador.

Nota Histórica

As origens da Via Matris não são bem conhecidas. Modelada sobre a Via Crucis, o exercício de piedade floresceu certamente no século XVII, no contexto da devoção às sete dores da Virgem, caraterística da Ordem dos Servos de Maria, que se tornariam os seus propagadores. Gradualmente se impôs até se estabelecer na forma atual no século XIX.
Da pesquisa histórica detalhada da Via Matris, conduzida pela Comissão Litúrgica da Ordem dos Servos, sabemos que nos anos 1628-1629, por interesse da confraria local das Sete Dores, foram erigidas em Malines (Bélgica) sete estações: seis ao redor da catedral, a sétima dentro do edifício sagrado.

Este testemunho indica que a devoção às sete dores da Virgem estava difundida nas Flandres e altamente apreciada pela autoridade eclesiástica.
Além disso, sabemos que uma abundante literatura devocional atesta que nos séculos XVII-XVIII a atenção para com a paixão de Cristo e os dores da Virgem era profunda e difundida na Espanha e nos países americanos então dependentes da Coroa espanhola.

Forma original


Uma forma embrionária da Via Matris pode ser considerada a procissão instituída em 1661 em Barcelona pelos Servos de Maria do convento Nuestra Señora del Buen Suceso.
No Domingo de Ramos, desfilam pelas ruas adjacentes à igreja dos Servos sete pasos (grupos escultóricos), representando as cenas da Paixão. Na procissão, figuram dois elementos que se tornarão característicos da Via Matris: as sete dores dispostas em sucessão cronológica e o caminho como expressão ritual.
Outra forma embrionária do piedoso exercício pode ser vista no uso de colocar nas igrejas dos Servos de Maria ou em algum local do convento – corredor, claustro, sala capitular – sete quadros representando em ordem cronológica os dores da Virgem.
Um exemplo notável deste uso é oferecido pela igreja de Monte Senário. Em 4 de abril de 1717, após importantes restaurações, Mons. Giovanni Francesco Poggi, bispo de San Miniato (Pisa), anteriormente prior geral da Ordem, reconsagra a igreja e a dedica à Virgem dos Sete Dores e a São Filippo Benizi.
Ao dedicar a igreja à Virgem Dolorosa, sente-se a necessidade natural de reproduzir nela os sete dores. De fato, dez anos depois, em 21 de maio de 1727, por interesse de Fra Arcangelo M. Meini, são colocados na nave da igreja seis quadros representando seis dores da Virgem, que se somam à Crucificação de Cristo representada pelo Crucifixo em estuque policromado de Ferdinando Tacca, que ainda hoje domina o altar-mor com a Mãe e o discípulo amado ao lado.
Em qualquer caso, a Via Matris, qualquer que seja sua origem, encaixa-se bem no movimento de piedade da Ordem dos Servos de Maria em relação à Dolorosa, particularmente acentuado nos séculos XVII a XIX.
Neste período, outra data significativa e rica em consequências cultuais marca a história da Via Matris: a promulgação do decreto Cum sacrorum (9 de agosto de 1692), pelo qual a Sagrada Congregação dos Ritos, com a aprovação de Inocêncio XII, reconhece a Dolorosa como padroeira da Ordem dos Servos de Maria e a devoção aos sete dores como sua principal característica.
O decreto constitui o ponto culminante de um longo processo no qual várias expressões de piedade em relação à Mãe dos Dores – tanto litúrgicas quanto populares – surgem e se afirmam.

Valor espiritual e uso pastoral

Assim como a Via Crucis, o piedoso exercício da Via Matris apresenta-se como uma oração bíblica. Ela extrai do Evangelho os episódios de dor e salvação que contempla progressivamente. A Via possui uma clara orientação cristológica e eclesial, na qual as dores são todas referíveis ao mistério da paixão do Filho e ao mistério da dor que acompanha a Igreja em seu caminho.
Para além do mais, o Caminho tem uma notável nota antropológica que é a celebração da Via Matris aproximando-se ao mistério do sofrimento humano com o coração da Virgem.
O tempo privilegiado para rezar a Via Matris, em harmonia com o sentir litúrgico, é o período da Quaresma, especialmente na sexta-feira ou no sábado.
A dor de Maria, causada pela rejeição do Filho pelos homens, enquanto remete ao amor paciente e misericordioso do Servo sofredor, incentiva à conversão do coração.
A Via Matris também é indicada para preparar-se interiormente para a memória litúrgica da Dolorosa em 15 de setembro (ou para prolongar seu lembrança), assim como nas sextas-feiras ou sábados do Tempo Comum e, ainda, em ocasiões em que o sofrimento e a coragem de Maria se revelam exemplares para quem vive situações de desolação e dor.

Características e simbologia

Meditação sobre o sofrimento salvífico

O percurso das sete etapas da Via Matris visam prolongar a meditação sobre o mistério doloroso de Cristo, no qual a Mãe participa intimamente, oferecendo seu consentimento amoroso ao sacrifício do Filho e colaborando com o mistério da redenção.
Os orantes, em particular, são convidados a refletir com mente e coração sobre o caminho de fé e sofrimento da vida inteira da Virgem, desde o anúncio de Gabriel (cf. Lc 1,26-38) e a profecia de Simeão (cf. Lc 2,34-35) até a morte e sepultura do Filho (cf. Jo 19,25-30).
No ordenado desenrolar das sete estações contemplativas da Via Matris, os fiéis são chamados a captar o fundamento teológico desses exercícios piedosos: a união indissolúvel de Maria com Cristo e sua participação na obra redentora do Filho.
O caminho doloroso de Cristo, ao qual a Mãe está intimamente associada, leva os fiéis a contemplá-lo e compreendê-lo à luz da Páscoa. O sofrimento vivido por Maria na fé, na esperança e na caridade é iluminado pela gloriosa ressurreição. A peregrinação terrena de Maria é esclarecida pela glória de Cristo ressuscitado.
O valor espiritual e a eficácia pastoral da Via Matris são múltiplos. Os fiéis, por meio da contemplação da compaixão da Virgem:

  • aproximam-se de um dos aspectos essenciais do mistério pascal: a paixão salvífica de Cristo;
  • são iluminados sobre o mistério do sofrimento com a luz que emana do modo singular com que Maria de Nazaré, cheia de fé, viveu essa experiência;
  • tornam-se participantes dos sofrimentos dos irmãos, pois a celebração do sofrimento da Virgem implica uma atenção operosa para com quem sofre;
  • são instigados a ter sentimentos de misericórdia.

Nada, após ter contemplado a bondade misericordiosa de Cristo e a compassiva amorosidade da Virgem, dispõe mais o espírito à reconciliação. Aos pés da cruz, Maria é a Virgem do perdão.

O simbolismo do número ‘sete’

Na Bíblia, os números frequentemente carregam um valor simbólico. O sete, por exemplo, é um número de grande importância, representando a perfeição. Encontramos sua menção já no Gênesis. Após criar o mundo em seis dias, Deus descansa no sétimo dia, abençoando e santificando este dia, que se tornará o sábado.
O número está presente no ritual litúrgico. O candelabro de sete braços, aparece nas visões dos profetas e nas representações do mundo invisível.
O livro dos sete selos, as sete trombetas, as sete taças, os sete sinais do Apocalipse. O número sete também é retomado no Evangelho. Jesus recomenda a seus discípulos perdoar sete vezes (Lc 17,4) e até setenta vezes sete, ou seja, sempre (Mt 18,22).
O número sete sempre fascinou estudiosos pelo seu rico simbolismo, expressando totalidade, dinamismo, universalidade, plenitude. O sete é o número-chave do piedoso exercício da Via Matris. Sete são as estações correspondentes a igual número de eventos dolorosos identificados pelos fiéis na vida da Virgem ao lado do Salvador.
No contexto da Via Matris, o número sete indica a totalidade do sofrimento vivido pela Virgem.


A metáfora da vida como ‘caminho’

Focando no Novo Testamento, percebemos que a metáfora do caminho é usada para indicar a conduta moral e, em particular, o comportamento que o cristão é chamado a adotar para que sua vida seja digna do Senhor e conforme ao seu Evangelho (cf. Ef 4,1; Fp 3,17; Cl 1,10; 1 Ts 2,12; 4,1).
Isso implica a observância dos mandamentos de Deus, a prática de boas obras, o exercício das virtudes que conduzem à nova vida n’Ele, sendo o amor a principal.
O caminho (cf. Ef 5,2), dando sentido ao fluir da vida, é a resposta do discípulo à sequência de Cristo, Aquele que nos amou imensuravelmente, chegando a se sacrificar na cruz por nós.
Dentre as formas de oração popular onde emerge a metáfora da vida como caminho, destaca-se a Via Matris, certamente surgida por um processo imitativo da Via Crucis, piedoso exercício que se formou a partir do final da Idade Média.
Os Evangelhos nos informam sobre várias viagens realizadas por Jesus e por Maria de Nazaré, sua Mãe. Em relação à Virgem, seguindo os rastros dos evangelistas, podemos recordar alguns:

  • o caminho da Filha de Sião em direção à casa do sacerdote Zacarias (cf. Lc 1,39-55);
  • o caminho de mulher grávida, de Nazaré a Belém (cf. Lc 2,1-7);
  • o caminho de piedosa israelita, que se dirige a Jerusalém e lá ouve a profecia sobre o Filho e sobre si mesma (cf. Lc 2,34-35);
  • o caminho de mulher exilada (cf. Mt 2,13-15);
  • o caminho de mulher peregrina, que todos os anos, para a festa da Páscoa, vai a Jerusalém (cf. Lc 2,41-50);
  • o caminho de mulher amiga, que vai solícita a Caná da Galileia (cf. Jo 2,1-11);
  • o caminho de discípula fiel, pelo qual sobe atrás de Jesus ao Monte Calvário (cf. Jo 19,25-27).

Portanto, a metáfora da vida como caminho vale também para a Virgem, aliás, aplica-se a ela de modo eminente. Esperamos que ao longo desta oração, o orante, devoto, confiante possa com a Virgem fazer o caminho que conduz à esperança da Ressurreição!

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