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Santa Maria porta do céu – Análise dogmático-litúrgica

A antífona de entrada explica o conceito de porta quando diz: «Ave Virgem, grávida do Verbo Encarnado! Porta do paraíso, dando Deus ao mundo, nos abristes o caminho do céu». Maria é chamada de porta do céu porque ela reabriu para nós e continua a abrir a porta do céu para nós. A oração Coleta confirma isso: «Ó Deus, que no Filho único, estabeleceste a porta da vida e da salvação». Deus, em Cristo, é sobretudo a porta do céu: a porta da vida e da salvação.

O autor do Apocalipse vislumbra nesta passagem o cumprimento da nova aliança que, prometida a Abraão e confirmada ao longo do tempo ao povo de Israel, atingiu a sua perfeição em Cristo, ou melhor, será definitivamente sancionada quando Cristo for tudo em todos

O que significa? Esse cumprimento da antiga aliança é chamado de «novos céus e nova terra», para indicar a recomposição do universo, devastado pelo pecado e pela corrupção, em sua harmonia original.

São Paulo nos recorda isto: «por isso, a criação aguarda ansiosamente a manifestação dos filhos de Deus. Pois a criação foi sujeita à vaidade (não voluntariamente, mas por vontade daquele que a sujeitou), todavia, com a esperança de ser também ela libertada do cativeiro da corrupção, para participar da gloriosa liberdade dos filhos de Deus. Pois sabemos que toda a criação geme e sofre como que dores de parto até o presente dia. Não só ela, mas também nós, que temos as primícias do Espírito, gememos em nós mesmos, aguardando a adoção, a redenção do nosso corpo» (Rm 8,19-23). A superação de tudo isso depende da afirmação do reino de Deus que, em Cristo, fará novas todas as coisas.

Remetendo a parábola evangélica a Maria, segue-se que ela é a Virgem prudente, a quem, quando bate à porta, o senhorio não diz: “Não te conheço!” (v. 12), mas a convida a entrar. Mais uma vez o conceito de porta reaparece para sublinhar o papel mediador de Maria. Segundo os Padres da Igreja Maria é a nova Eva que reabre a porta do paraíso fechada por Eva, como canta o prefácio: «Virgem humilde e obediente, que reabre a porta do paraíso, fechada pela desobediência de Eva».

A imagem da porta, na tradição cristã das imagens atribuídas a Maria, não é a única a indicar o papel de intercessão de Maria. Também é conhecida como ‘canal’, ‘pescoço’, ‘caminho’, “voz suplicante de intercessão” (Prefácio). No entanto, a passagem do Evangelho é eloquente também porque supõe que, convenientemente ou não, estamos prestes a entrar pela porta que dá acesso aos novos céus e à nova terra. A presença e assistência da mãe celestial não substituem a nossa presença e o nosso compromisso. Ela está lá esperando a gente para abrir a porta, mas cabe a nós bater.

No batente da porta pela qual se acessa a imagem de Nossa Senhora venerada no famoso santuário beneditino de Montserrat, a cinquenta quilômetros de Barcelona, ​​pode-se ler a inscrição: “Ostende nobis Christum et sufficit“, Mostra-nos Cristo e isso nos basta! Conhecemos as vigílias passadas na solidão e na amargura induzidas pelas provações da vida e a esperança com que repetimos, diante da porta da casa do Senhor: Abre-nos!

Maria, porta do céu, é a razão firme da nossa esperança de que ela nos seja aberta, graças a ela que é “ianua Dei et porta coeli“, entrada para Deus e porta para o céu. Ela não está apenas ao nosso lado, mas a experiência dos santos nos assegura que Maria impele a nossa pergunta e põe em nossos lábios as palavras que a tornam efetiva. Ela conhece o Filho e sabe o momento em que “chega o Esposo“, enquanto nós “não sabemos nem o dia nem a hora“.

O nosso tempo evita e afasta o pensamento da morte, do chamado de Deus para a casa do Pai. Não saber o dia e a hora é justificativa absurda para descartar qualquer referência a essa verdade, a mais certa e universal depois da de estar vivo. A morte está bastante associada à ideia de uma porta que se fecha para não reabrir. Maria é a garantia de que, no final da nossa existência terrena, esta porta se abrirá. Garantia infalível, porque é maternal.

Carolline Muniz

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