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Releitura pós conciliar da Consagração à Maria

Tempo de leitura: 4 minutos

A Páscoa é o centro do anúncio cristão e é sempre o ponto de partida do pensamento mariológico. A hora da glorificação do Filho em Ele que se oferece ao Pai e nos deixa como herança o Espírito Santo que infundiu na Igreja nascente juntamente com a doação da Mãe ao discípulo amado. Neste contexto encontramos também as últimas palavras da vida terrena de Jesus: Eis a tua Mãe (Jo 19,27). A história do cristianismo a partir daquela Hora tornou-se o acolhimento recíproco entre a Mãe de Jesus e a Comunidade dos discípulos.  

O acolhimento tornou-se ao longo dos séculos consagração, devido à grande reforma  da mariologia bíblica e com o objetivo de permanecer fiel às Escrituras usaremos a palavra acolhimento no nosso percurso. O culto cristão, liturgia, ao longo dos séculos foi-se apropriando dos diversos elementos escriturísticos sobretudo ligados à Páscoa, nesse sentido a Santa Maria começou cada vez mais a estar no centro das venerações, inclusive populares. A maternidade messiânica de Maria desenvolveu-se de tal forma que na Cruz assistimos a uma extensão desta maternidade a toda a Igreja, na Páscoa e no Cenáculo.

Olhando para a raiz do cristianismo não podemos negar a relação entre a Virgem e o fiel para com o Deus Trindade, fonte e meta de cada ato de fé. Deste ponto de vista, a piedade é então uma resposta, na espiritualidade cristã, à convicção eclesial e pessoal de relação com Maria. À Mãe de Deus se consagram Nações, seguros de encontrar uma materna proteção aos males do cotidiano. 

Históricamente Ildefonso de Toledo (m. 667) oferece-nos uma expressão que permaneceu até aos nossos dias: servos da Serva do meu Senhor. Unindo o serviço à Mater Domini se reconhecia na realeza de Maria, o serviço a Cristo, a consciência da indignidade do servo, a função de Maria enquanto aquela que aponta o caminho para Deus de uma forma clemente. Mais tarde encontramos João Damasceno (m. 749) que numa homilia nos oferece o primeiro registro histórico do uso da expressão consagração como oferta total de si mesmo a Maria: “também hoje nós nos apresentamos a ti, oh Soberana, sim repito-o, oh Soberana, Mãe de Deus Virgem. Nós ligamos as nossas almas a ti, nossa esperança, como a uma âncora que não se pode quebrar, consagrando a ti, mente, alma, corpo, todo o nosso ser”. Por uma questão de precisão linguística, o autor escreve em grego usando o verbo antíthemi que indica uma consagração, apesar das necessárias distâncias, ao mesmo nível daquela realizada para com Deus.

O ato de consagração a Maria ao longo do séculos foi almejado, proposto e apreciado por Santos, Papas, Pastores e foi-se tornando uma prática muito popular nas instâncias católicas até chegar ao Concílio Vaticano II (1962-1965). Como todos os outros exercícios de piedade cristãos, conheceu um eclipse depois do Concílio pela necessidade de processo de revisão. Não podemos afirmar que o Concílio tenha sido contra Maria, antes pelo contrário, nunca na história da Igreja de escreveu tanto sobre Maria como no Concílio. Todavia, a reforma litúrgica oferecida por São Paulo VI à Igreja teve o seu tempo de maturação e até mesmo em 1967 com a Signum Magnum 5, temos o chamado do Santo Padre a convidar os fiéis a consagrar-se ao Coração Imaculado da Mãe da Igreja e «a viver este nobilíssimo ato de culto com uma vida cada vez mais conforme à Vontade Divina, e em espírito de serviço filial e de devota imitação da sua celeste Rainha».

São João Paulo II relançou em diversas ocasiões a consagração/entrega a Maria desde o seu mote no brasão Totus tuus. A atitude de total abandono a Maria depois do Vaticano II encontrou hostilidades pela dificuldade de linguagem pois a palavra consagração é uma expressão que indica a obra de Deus, a missão de Cristo, o ministério da Igreja, sacramento de salvação, a dedicatio do fiel a Deus e ao seu Reino. Salvaguardamos que é comum em teologia encontrar expressões elaboradas com base na analogia e da metáfora. 

Permanece então o problema do ponto de vista mariológico de uma revisão clara na linguagem que respeite a identidade e a missão da Mãe de Deus sem obscurecer a absoluta transcendência  e independência do Filho de Deus na sua relação com as criaturas e com a cooperação de sua Mãe. No seu profundo significado espiritual o acolhimento de Maria deriva da única consagração a Deus e a esta nos leva. 

Fica a pergunta, qual o valor então do acolhimento, entrega, doação, consagração à Maria? Bem, começamos com um conceito base: este ato é um “sacramental”, isto é, contrariamente ao sacramento que realiza aquilo que significa, o sacramental realiza a partir do empenho o fiel que se empenha em imitar Maria para no seu sulco encontrar as linhas espirituais para seguir a Cristo. A história do Santos demonstra quanto a co-responsabilidade e cooperação do fiel às promessas da consagração batismal sobre a evangelização da Igreja no mundo secular e globalizado seja ampliada e fortificada pelo acolhimento de Maria na sua vida.

Para continuarmos com essas questões teremos o Curso da releitura pós conciliar da Consagração; e para irmos dando corpo ao curso que logo mais acontecerá, quais são suas dúvidas com relação a consagração? Comente abaixo!

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Respostas

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  1. Por que o uso da pulseira com cadeado pelos consagrados?
    Qual a diferença entre um consagrado e um devoto de Nossa Senhora?

  2. Após a Consagração teremos a renovação anual também pela Locus Mariologicus?

  3. Sou divorciado e casado somente no civil no momento, aguardo a anulação do meu matrimônio que já está em seu término. Posso fazer minha consagração?

  4. O termo Consagração não expressa teologicamente melhor do que entrega? Uma vez que consagração quer dizer tornar algo sagrado à Deus, viver minha vida consagrada à Deus através da consagração à Virgem Maria, imitando suas virtudes.

  5. Convivo com muitos jovens consagrados a Virgem Maria e vocês estão me dando a Graça de me consagrar também. Vou fazê-lo, pois não me sinto apenas devoto de Nossa Senhora, me considero filho DELA

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