O que é Satanás na Bíblia? Do acusador do livro de Jó ao nome próprio

Satanás, na Bíblia, não nasce como nome próprio: nasce como cargo. O termo hebraico śāṭān quer dizer «acusador» ou «adversário» e, nos textos mais antigos, vem sempre com artigo, haśśāṭān, «o acusador» – designa uma função dentro do conselho celeste, não a biografia de um indivíduo. Só depois esse vocábulo se fixa como nome.

A passagem de função a nome próprio é documentada e até datável num texto. A Comissão Episcopal Pastoral para a Doutrina da Fé, da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, no documento «Exorcismos: reflexões teológicas e orientações pastorais», resume assim o percurso: «Originalmente, a expressão utilizada era “o satanás”, com o artigo “o”, designando não um nome, mas um encargo: “o acusador”. Só gradativamente este vocábulo passou a ser usado como nome próprio, sem artigo. O primeiro texto com esse uso é 1Cr 21,1». Este artigo percorre esse caminho com as obras da biblioteca da Locus, do vocabulário jurídico hebraico até ao Apocalipse.

O que significa a palavra satanás na Bíblia hebraica?

O ponto de partida é o vocabulário do tribunal. O estudo «Satã no horizonte veterotestamentário e judaico», na biblioteca da Locus, situa o termo no campo semântico do verbo opor-se e acusar, e recolhe um uso claramente forense no Saltério: «Constitui contra ele um ímpio, e esteja à sua direita um acusador (śāṭān)» (Sl 109,6). O acusador é aqui um papel processual, aquele que se posta à direita do réu para o incriminar.

Daí a formulação mais exata que o mesmo estudo propõe: «no Antigo Testamento, Satã é uma mera função, não biografia». A observação é decisiva para quem procura no Antigo Testamento uma história do diabo. Ela não está lá com os traços que a imaginação posterior lhe deu.

Quem foi satanás no livro de Jó?

No livro de Jó, haśśāṭān aparece dentro do conselho celeste, questionando a retidão do justo e pedindo autorização para o pôr à prova (Jó 1,6-12 e 2,1-7). O estudo «Satã no horizonte veterotestamentário e judaico» insiste no limite: trata-se de um acusador autorizado e limitado, que só atua dentro de permissões claras (Jó 1,12 e 2,6). O mesmo esquema, nota o texto, reaparece em Zacarias, onde haśśāṭān acusa o sumo sacerdote Josué e o Senhor o repreende (Zc 3,1-2).

A CNBB descreve a lógica da personagem em Jó nos mesmos termos – o acusador não acredita que o ser humano, diante da desgraça, seja capaz de reconhecer a grandeza de Deus, e por isso Deus permite a prova. O comentário litúrgico «DIOS CADA DÍA», de Marcel Bastin, Ghislain Pinckers e Michel Teheux, lê o livro como um processo com três personagens: «Dios; “Satanás”, el Acusador, el que siembra la división entre Dios y el hombre diciéndole a Dios: “¡Los hombres te olvidarán!”, y al hombre: “¡Dios te ha olvidado!”, y Job, que, sin sospecharlo, va a ser arbitro en el debate» – isto é, Deus, o Acusador, que semeia a divisão entre Deus e o homem dizendo a Deus «os homens esquecer-te-ão» e ao homem «Deus esqueceu-te», e Jó, que sem o suspeitar será o árbitro do debate.

Quando satanás passa a ser um nome próprio?

A viragem, segundo a CNBB, dá-se em 1Cr 21,1, o primeiro texto em que o vocábulo é usado sem artigo, como nome. O mesmo documento remete ainda para o Livro da Sabedoria, que associa a entrada da morte no mundo à inveja do diabo (Sb 2,24). É nesse arco – Jó, Zacarias, Crónicas, Sabedoria – que uma função de acusação se vai tornando uma figura reconhecível.

Satanás no Antigo Testamento veio da Pérsia? O que as fontes divergem

Aqui as obras da biblioteca não dizem o mesmo, e a divergência merece ser assinalada em vez de harmonizada. A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil admite uma hipótese de influência externa: a ideia de satã como inimigo pessoal de Deus teria sido «possivelmente influenciada por concepções dos povos circunvizinhos, desde os babilónios até os persas e a religião grega», com destaque para o Zoroastrismo a partir do ano 500 a.C.

O estudo «Satã no horizonte veterotestamentário e judaico» explica o mesmo fenómeno por via interna: a função vai-se estabilizando como figura mais personalizada sobretudo na literatura do Segundo Templo. As duas leituras não são necessariamente exclusivas, mas convém ao leitor saber que a primeira é apresentada como hipótese («possivelmente», «pode ter sido») e a segunda como descrição de um processo literário documentado. A regra metodológica que o mesmo estudo formula vale para ambas: não ler automaticamente o Satã do imaginário cristão dentro dos textos antigos.

O que Jesus diz sobre satanás nos Evangelhos?

No Novo Testamento o nome já está fixado, e é Jesus quem lhe dá o argumento decisivo. Em Marcos 3,20-35, acusado de expulsar demónios pelo príncipe dos demónios, responde com uma pergunta que o comentário «Lectio divina para a vida diária: o evangelho de Marcos», de Giorgio Zevini e Pier Giordano Cabra, cita assim: «¿Cómo puede Satanás expulsar a Satanás?», ou seja, «como pode Satanás expulsar Satanás?». Segue-se o princípio do reino dividido contra si mesmo, que não pode subsistir.

O estudo «Demonologia na Parábola do Semeador», também da biblioteca, acrescenta um dado de fundo judaico: a figura dos pássaros que devoram a semente (Mc 4,4) tem eco no Livro dos Jubileus, onde Mastemá, o acusador ou adversário, atua por meio de aves que devastam as sementeiras (Jub 11,10-24). A ação atribuída a Satanás em Mc 4,15 é, nesse horizonte, a de arrancar a Palavra antes que ela crie raiz.

Como a Bíblia narra a queda de satanás?

Dois textos concentram a questão. Anne Bernet, em «Na companhia dos anjos: a verdadeira história dos mensageiros de Deus» (1998), cita-os lado a lado: a palavra de Jesus em Lucas 10,18, «Eu vi Satanás cair do Céu como um raio», e o Apocalipse, «Foi precipitado aquele grande dragão, aquela antiga serpente, que se chama Demónio e Satanás, que seduz todo o mundo, foi precipitado na terra; e foram precipitados com ele os seus anjos» (Ap 12,9). A mesma autora remete a discussão escolástica para a Suma Teológica de São Tomás de Aquino, I, q. 109, a. 4.

Convém desfazer aqui um equívoco frequente: o nome lúcifer não aparece nesses textos. A CNBB explica que ele se firmou por causa dos comentários de São Jerónimo ao livro de Isaías e da sua tradução da Vulgata, a partir de Is 14,12, e que o termo latino significa «portador de luz». O mesmo documento conclui que «diabos e demónios não aparecem nos textos bíblicos de modo idêntico e unívoco». Sobre a sorte dos que caíram, ver também os anjos caídos e a síntese do Catecismo sobre anjos e demônios.

Satanás existe? A objeção moderna e a resposta das fontes

A pergunta não é nova. Marcelo Gomes Bolshaw, em «Problemática do tema anjos e demônios hoje» (2018), recorda que autores como Friedrich Schleiermacher e Adolf von Harnack recusaram a ideia de Satanás como ser pessoal, atribuindo-a a influências culturais antigas. E cita a carta em que von Harnack o admite com clareza: «Quanto à sua pergunta sobre o diabo, não há dúvida de que as Escrituras pretendem falar de um diabo pessoal. Mas a Bíblia deve ter a última palavra, é infalível? Você sabe que essa não é minha opinião» (A. von Zahn-A. Harnack, A. Harnack, Berlim, 1951, pp. 211-212).

O reparo é instrutivo: mesmo quem nega a existência pessoal do adversário reconhece que o texto bíblico fala dele como pessoa. A conclusão que Bolshaw tira é de método – «é necessário voltar aos textos bíblicos com uma exegese correta e estudar como a tradição cristã, tanto católica quanto protestante, os interpretou ao longo dos séculos». É exatamente o que distingue a leitura teológica da curiosidade: não se trata de decidir se a figura agrada, mas de ler o que está escrito e como foi lido.

Uma última precisão, porque as perguntas se confundem com frequência. Saber o que é Satanás na Bíblia não é o mesmo que saber como o adversário age sobre uma pessoa concreta. Sobre isso, ver a diferença entre possessão e obsessão demoníaca, e sobre o mundo angélico em que o acusador se situa, a hierarquia dos anjos segundo a Bíblia.

Perguntas frequentes

O que significa a palavra satanás?

Significa acusador ou adversário. O termo hebraico śāṭān tem sentido forense, de quem acusa num tribunal, e nos textos mais antigos aparece com artigo, haśśāṭān, «o acusador», designando uma função e não um nome.

Qual é a origem da palavra satanás na Bíblia?

A origem é o vocabulário jurídico do Antigo Testamento. O Salmo 109,6 usa śāṭān para o acusador que fica à direita do réu. Segundo a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, só gradativamente o vocábulo passou a ser usado como nome próprio, sem artigo, e o primeiro texto com esse uso é 1Cr 21,1.

Satanás aparece no Antigo Testamento?

Aparece, mas quase sempre como função dentro do conselho celeste. Está em Jó 1,6-12 e 2,1-7, em Zacarias 3,1-2, onde acusa o sumo sacerdote Josué, e no Salmo 109,6. Em Jó, atua apenas dentro das permissões que recebe (Jó 1,12 e 2,6).

Como a Bíblia narra a queda de satanás?

Lucas 10,18 traz a palavra de Jesus, «Eu vi Satanás cair do Céu como um raio», e Apocalipse 12,9 fala do dragão precipitado com os seus anjos. O nome lúcifer não vem desses textos, mas da tradução de Isaías 14,12 por São Jerónimo, como recorda o documento da CNBB sobre exorcismos.

Satanás existe na Bíblia ou é uma figura cultural?

A Escritura fala de um adversário pessoal. Teólogos como Schleiermacher e von Harnack recusaram essa leitura, atribuindo-a a influências culturais antigas, e o próprio von Harnack reconhecia numa carta que «as Escrituras pretendem falar de um diabo pessoal», embora negasse a sua infalibilidade.

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