Maria, Mulher e Mãe do Dom

Introdução

Desejamos explorar o papel da Mãe de Deus, tanto como Mãe da Igreja quanto da humanidade como um todo, como um presente que o Senhor nos concedeu. Para realizar isso, iremos nos basear em:

  • alguns textos do Evangelho de Lucas, bem como dos Atos dos Apóstolos,
  • e Maria ao lado de João aos pés da cruz.

Descobriremos, de maneira mais esclarecedora, por que Maria é honrada com os títulos de Mãe da Igreja e Templo do Espírito Santo.

Maria, chamada à maternidade e ao sofrimento (Lc 2,35)

Após o nascimento de Jesus, o evangelista Lucas nos apresenta Maria com José e o Menino em dois episódios em Jerusalém.

O primeiro desses episódios é a apresentação no templo, em obediência à Lei. Deste episódio, muito rico e cuja explicação requereria mais espaço, escolhemos apenas os versículos que se referem diretamente a Maria: “33 O pai e a mãe de Jesus se maravilhavam com o que se dizia dele. 34 Simeão os abençoou e disse a Maria, sua mãe: ‘Eis que este menino está destinado a ser queda e elevação de muitos em Israel e sinal de contradição 35 – e a ti, uma espada traspassará a alma -, para que se revelem os pensamentos de muitos corações‘”.

Estamos no centro do primeiro episódio da vida de Jesus em Jerusalém. Este detalhe não é de importância secundária. Na verdade, especialmente na literatura profética, Jerusalém é simbolicamente identificada como a mãe de todos os povos, o local da redenção futura de toda a humanidade, não apenas dos judeus. Encontramos essas afirmações, por exemplo, em Is 56,6-7; 66,18-21: a cidade santa acolherá as multidões de seus filhos nos braços de suas muralhas, manifestando sua maternidade universal e reunindo todas as nações no templo que está no meio dela, em seu seio (cf. Is 49,18-23; 54,1-3; 50,1-22; 66,7-13; Bar 4,36-37; 5,5-6; Sl 87; …).

Na reinterpretação cristã, a maternidade de Jerusalém é atribuída a Maria: olhando para sua humildade, Deus reafirmou Sua preferência pelos humildes. Ao fazer morada nela, Ele a tornou o novo templo, a nova arca da aliança; nascendo dela, Ele estabeleceu permanentemente Sua morada em nossa humanidade, abrindo o caminho da salvação para todos. Essas são as raízes bíblicas da maternidade de Maria.

Mas neste episódio do evangelho de Lucas, Maria é uma mãe submissa à Lei, com José, levando Jesus, o primogênito, ao templo, para oferecê-lo a Deus. Esse ato é acompanhado pela oferta de um par de rolas jovens, como a própria Lei prescreve para as famílias pobres! Recordamos aqui que a expropriação da família de Nazaré e o ritual de purificação não acompanham a realidade dos descendentes de Davi e do parto virginal. No entanto, não é isso que mais nos interessa agora.

O que é mais relevante para nós são as palavras que o idoso Simeão, cheio do Espírito Santo, dirige à jovem esposa: “Uma espada traspassará a tua alma“. Há diferentes interpretações desta profecia: certamente podemos pensar na vida difícil dessa mãe, que segundo a tradição fica viúva cedo e é chamada a acompanhar o crescimento de um filho definitivamente especial. Como veremos no episódio que analisaremos em breve, as dificuldades associadas a essa tarefa devem ter sido consideráveis.

A referência mais óbvia de Simeão parece ser a cruz, aquela morte cruel, violenta e injusta que Maria acompanha até o último suspiro de Jesus e que certamente significou para ela uma dor particularmente profunda, uma ferida interna que pode ser comparada àquela causada por uma espada. No entanto, gosto também de outra interpretação, ligada a um trecho da Epístola aos Hebreus, onde a Palavra de Deus é descrita como uma espada de dois gumes, penetrando articulações e medula (Hb 4,12)…

Maria se abre ao dom da maternidade divina, acolhe em si mesma essa Palavra que se faz carne por meio de sua carne. A Palavra de Deus está nela desde o momento de seu sim ao anjo e permanece nela para sempre, pois encontrou nela uma morada segura. Mesmo diante das dificuldades que ela é chamada a enfrentar, das incompreensões às quais a maternidade a expõe, das angústias de seu coração por não ser capaz de compreender plenamente quem é esse filho e o que realmente significa ser sua mãe, Maria nos mostra sua permanência na vontade de Deus, que a Palavra manifesta, por meio da atitude que Lucas destaca repetidamente: “Maria guardava todas essas coisas, meditando-as em seu coração“.

Essa Palavra da qual ela é mãe permanece nela, é uma espada que não a deixa, mas também é a fonte de sua fé e de sua capacidade de se entregar com confiança ao Mistério.

Maria, mãe de um filho “difícil” (Lc 2,41-51)

O segundo episódio que envolve a família de Jesus em Jerusalém é o da chamada “perda e encontro” no templo, entre os doutores da Lei. Este trecho também demandaria uma explicação mais detalhada. Podemos, no entanto, enquadrá-lo como um episódio “pascal“, pois ocorre em Jerusalém, onde se desenrola a angustiante busca por Jesus, que encontra satisfação e paz no terceiro dia.

Mas, para nós, o que mais importa aqui é o que emerge da experiência de Maria, lidando com as dificuldades de ser mãe de um filho como Jesus:

“41 Seus pais iam todos os anos a Jerusalém, para a festa da Páscoa. 42 Quando ele tinha doze anos, subiram para a festa, como era costume. 43 Passados os dias da festa, quando voltavam, o menino Jesus ficou em Jerusalém, sem que seus pais o soubessem. 44 Pensando que ele estivesse na caravana, fizeram um dia de caminho e o procuraram entre parentes e conhecidos. 45 Não o encontrando, voltaram a Jerusalém, à procura dele. 46 Depois de três dias, o encontraram no templo, sentado no meio dos doutores, ouvindo-os e interrogando-os. 47 Todos os que o ouviam estavam maravilhados com sua inteligência e suas respostas. 48 Quando seus pais o viram, ficaram muito admirados e sua mãe lhe disse: ‘Filho, por que nos fizeste isso? Teu pai e eu, aflitos, estávamos te procurando’. 49 Ele respondeu: ‘Por que me procuráveis? Não sabíeis que devo estar na casa de meu Pai?’. 50 Mas eles não compreenderam o que lhes disse. 51 E desceu com eles e veio para Nazaré, e lhes era submisso. Sua mãe conservava todas essas coisas em seu coração.”

Estamos novamente em Jerusalém, e os referências proféticas mencionadas no episódio anterior ainda estão em jogo. No entanto, agora Jesus tem doze anos, a idade em que ocorre a entrada ritual na comunidade da sinagoga, na vida adulta e consciente da fé. E de fato, aqui Jesus manifesta pela primeira vez a consciência de sua condição como Filho obediente ao Pai, uma condição que atingirá seu ápice novamente em Jerusalém, no momento de sua entrega à paixão e morte.

O contexto deste episódio em Lucas, muitas vezes ignorado porque se refere à infância de Jesus, geralmente lido durante o Natal, é, na verdade, um contexto pascal: estamos na cidade santa, Jesus se perde e é encontrado após três dias, tudo isso acontece durante a Páscoa judaica. Certamente, todos esses elementos não foram colocados juntos por acaso, mas querem nos oferecer uma referência adicional, a da cruz. O evento narrado é bem conhecido: ao retornar a Nazaré vindo de Jerusalém, Maria e José percebem que Jesus não está na caravana, eles voltam e o encontram no templo após três dias de busca e angústia.

É interessante notar que, no momento do encontro, quem fala com Jesus não é José, mas Maria! E suas palavras são de repreensão, quase manifestando ressentimento, certamente incompreensão. A resposta de Jesus, claro, permanece misteriosa para eles, eles não podem realmente entender o que seu filho quer dizer com “ocupar-se das coisas” de seu Pai! Portanto, não nos surpreende o comentário de Lucas (v.50) que parece encerrar a discussão. No entanto, embora o comportamento de Jesus, sua resistência indevida ao controle dos pais e sua resposta, mostrem uma independência já alcançada e reivindicada por sua família, o menino retorna a Nazaré com eles e permanece submisso por muitos anos.

Isso significa que o episódio não é tanto indicativo de uma mudança consolidada, mas sim uma antecipação do que será sua vida quando Ele começar a proclamar o reino de Deus presente e ativo. É importante também notar o esforço da busca pela qual os pais de Jesus são “obrigados“. É a busca por um filho amado e perdido, mas simbolicamente é a busca pelo Cristo, que às vezes se esconde, até mesmo em nossas vidas. São esses os momentos mais difíceis na vida da fé, mas também as crises que podem levar a um rejuvenescimento do nosso espírito. Este é o tempo de retorno a Jerusalém, como Lucas nos lembra aqui: um retorno que significa conversão, aceitação de nossa fraqueza, para abrir espaço ao mistério de Sua Presença.

De alguma forma, aqui, Maria e José também passam por um processo de conversão, pois são chamados a procurar o filho e a reconhecer que não o compreendem, e, mais ainda, que não o conhecem, pois Ele é maior do que eles. O apelo à conversão não é forçado, ele está presente aqui: o retorno, a busca, a descoberta, mas, acima de tudo, a pergunta de Jesus (“por que me procuravam?“), que revela o desejo por Ele, o significado da busca de fé. Deve-se enfatizar a força da figura de sua mãe, que toma a palavra para repreendê-lo e, mesmo sem entender o que aconteceu ou as palavras que Jesus lhe dirige, ela continua sendo uma mulher capaz de permitir que a espada da Palavra penetre nela, rasgue mesmo seus limites, para habitar mais plenamente em seu coração.

Maria, mãe que acolhe (Jo 19,25-27)

Mesmo que o trecho anterior, como mencionado, tenha uma clara referência pascal, a transição para este episódio é bastante abrupta, pois agora estamos junto à cruz, no momento mais doloroso da experiência de Maria como mãe. O evangelista João coloca este episódio da paixão no centro da narrativa, dando-lhe destaque até mesmo acima da descrição da morte de Cristo na cruz.

Há muitas referências neste texto ao único outro trecho em que Maria está presente no quarto evangelho, o episódio das bodas de Caná. Os pontos de conexão entre os dois momentos, aparentemente tão diferentes, estão no tema e no uso de vocabulário. Mas antes de tudo, vamos ler o texto, certamente muito conhecido: “25 Estavam junto à cruz de Jesus sua mãe, a irmã de sua mãe, Maria, mãe de Cléofas, e Maria Madalena. 26 Jesus, vendo sua mãe e, ao lado dela, o discípulo que ele amava, disse à mãe: ‘Mulher, eis aí teu filho’. 27 Depois, disse ao discípulo: ‘Eis aí tua mãe’. E, a partir daquela hora, o discípulo a acolheu consigo”.

São apenas três versículos, mas são verdadeiramente ricos! Não vamos nos deter para contar quantas mulheres estão sob a cruz: como escreve o evangelista, poderiam ser três, mas também quatro. O que importa é que Maria, a mãe, esteja lá (v.25). Na narrativa que se desenrola, algo que normalmente passa despercebido acontece. Inicialmente, Maria é chamada de “sua mãe“, a mãe de Jesus, no versículo seguinte, ela é simplesmente “a mãe“, sem outras especificações (v.26), mas, nas palavras de Jesus, que se dirige a João, ela se torna “tua mãe“, a mãe do discípulo amado (v.27)!
De forma notável, apenas com esta passagem marcada pela presença (ou ausência) de diferentes adjetivos possessivos, o IV Evangelho nos diz que a transição da maternidade divina de Maria para ser nossa mãe ocorre sob a cruz e é pela vontade do Filho, quase como um testamento final, uma verdadeira última vontade. A tradução mais correta da atitude de João não é “a acolheu consigo“, mas sim “a levou para sua casa“: não lemos essas palavras como uma descrição de posse, como se fosse uma objetivação da mãe. Em vez disso, leiamos como a recepção dessa preciosa herança que expressa a vontade suprema, a mais elevada e significativa, do Senhor Jesus, à beira da morte. Mencionamos anteriormente as muitas semelhanças entre este episódio e o das bodas de Caná da Galileia.

A primeira palavra que conecta os dois momentos, aparentemente tão diferentes, da vida de Jesus (e de Maria) é a maneira como Jesus se dirige à mãe: “Mulher“. Em Caná, e talvez também aqui, essa expressão soa quase estranha, já que é dirigida pelo Filho à Mãe. Mas na verdade, devemos entendê-la em seu sentido pleno, como a expressão da plenitude do ser feminino que se manifesta em Maria, a verdadeira mulher, a mulher por excelência. É a mulher que, em Caná como sob a cruz, representa a Esposa do Verbo, a humanidade inteira. Jesus, o Esposo, é Aquele que dá a vida por essa esposa, porque a ama “até o fim” (Jo 13,1). Não pode haver desprezo nas palavras de alguém que está doando até a última gota de seu sangue para salvar até mesmo aqueles que o pregaram na cruz.

Em Caná, Maria pede vinho,a resistência inicial de Jesus ocorre por um motivo: a hora ainda não havia chegado (Jo 2,4). Mas na cruz, a hora chegou, é a hora do mistério da glória, o mistério da paixão, morte e ressurreição de Jesus. Assim, o dom do bom vinho, prefigurado pelo sinal em Caná, se cumpre no dom do sangue na cruz (o vinho é, claramente de forma eucarística, o sangue derramado de que Jesus fala na última ceia). Como a hora chegou, não há hesitação, Jesus realiza o verdadeiro sinal, o sinal definitivo da morte na cruz, para oferecer um vinho que nunca se esgota, uma água que sacia para a vida eterna (Jo 19,34; 4,14);

Da cruz, Maria é dada como mãe ao discípulo amado. Mas todos nós somos discípulos amados, somos os “seus” dos quais o início do capítulo 13 fala: “Tendo amado os seus que estavam no mundo, ele os amou até o fim“. Portanto, neste discípulo, todos nós somos chamados a receber Maria em nossas vidas, a acolhê-la como nossa mãe. Podemos dizer que, ao aceitar a maternidade de Maria, reconhecemos que somos discípulos amados!

De fato, os versículos 26-27 seguem um “esquema de revelação” típico do IV Evangelho, marcado por uma sequência precisa: ver profundamente, falar e constatar um resultado, um fato que é revelado. Aqui, isso acontece assim: Jesus vê Maria e o discípulo amado, se dirige a eles e afirma o que sua palavra realiza: “Eis“! O mesmo esquema é encontrado, por exemplo, em João 1,29, onde quem fala é João Batista e o objeto de sua revelação é Jesus mesmo. Essas afirmações, portanto, constituem uma “revelação“, uma “desvelação“, são definições de natureza dogmática, no sentido de que expressam uma verdade absoluta. A verdade que Jesus revela aqui é o fato da maternidade de Maria em relação ao discípulo amado e, como tal, à Igreja.

Mas há mais: como já destacamos a clara referência ao sinal de Caná, que encontra em Jesus na cruz o seu cumprimento pleno, podemos dizer que é precisamente da cruz que o Filho confia à mãe a tarefa de introduzir o discípulo no mistério do amor crucificado! É nesse mistério que nossa fé se baseia, a fé da Igreja. Assim, Maria é nossa mãe principalmente porque foi a primeira a acreditar no cumprimento das promessas, das quais a cruz é o sinal mais misterioso e sublime.

Para o discípulo, aceitar o dom da maternidade de Maria significa acolher sua maternidade protetora, reconhecer que, como mãe do Verbo feito carne, ela nos pertence, está em nosso DNA como fiéis (entre nossos pertences, precisamente, o que nos é mais querido, o que é mais nosso). Para o IV Evangelho, a profecia de Isaías sobre a nova Jerusalém, a mãe que consola seus filhos (Is 66,13), se realiza na maternidade de Maria, que é a imagem da maternidade da Igreja: na Igreja, como na profecia, os filhos dispersos são reunidos em Cristo, todos aqueles que se abrem para a fé através da maternidade da virgem de Nazaré, que é mãe, filha e esposa.

A maternidade de Maria deve ser um convite à unidade para seus filhos. Isso é afirmado pelo evangelista João por meio da referência, que imediatamente precede nossa cena, à túnica que não foi dividida, enquanto as roupas foram rasgadas (Jo 19,23-24). Rasgar as roupas tem um significado simbólico de divisão entre o povo, causada pela infidelidade e pela corrupção. Em seu último gesto, da cruz, confiando a humanidade à maternidade de Maria, o Senhor nos lembra a importância da unidade, uma unidade que deve resultar de seu sacrifício e pela qual ele ora ao Pai antes de enfrentar a paixão (Jo 17,22-23).

Todas as divisões que são um sinal da luta entre os seres humanos, da busca mútua por afirmação às custas do outro, tornam de alguma forma vão o dom de amor de Cristo. Em Maria, que é o sinal de uma única maternidade que abraça toda criatura humana, encontramos aquela que nos guia no caminho da unidade, não como anulação das diferenças, mas como espaço de reconciliação nas fraternidades.

Maria, mãe doada à Igreja (At 1,14)

O Evangelho de João nos diz que Jesus nos deu sua mãe. Lucas nos a apresenta dentro da primeira comunidade como uma mulher “idosa” (Lucas não diz isso explicitamente, mas é claro que a presença de Maria é a de uma mãe, mais madura do que os apóstolos), que está lá e reza: com a comunidade e pela comunidade.

Vamos ler o breve texto de Atos: “12 Então, voltaram a Jerusalém do monte chamado das Oliveiras, que fica perto de Jerusalém, a uma jornada de sábado. 13 Ao chegarem à cidade, subiram para o andar de cima, onde costumavam se reunir: estavam Pedro e João, Tiago e André, Filipe e Tomé, Bartolomeu e Mateus, Tiago, filho de Alfeu, Simão, o Zelote, e Judas, filho de Tiago. 14 Todos eles perseveravam unanimemente na oração, junto com algumas mulheres, entre elas Maria, mãe de Jesus, e com seus irmãos“.

Atos 1,14 é o único versículo em que se fala de Maria no livro de Atos. É muito importante, mas deve ser lido em seu contexto imediato e, de forma mais geral, no contexto dos primeiros dois capítulos de Atos, que estão todos centrados na expectativa e no dom do Espírito na Pentecostes. No centro do primeiro capítulo está a perícopa que inclui o nosso versículo, Atos 1,12-14.
No versículo 12, temos a localização do relato em Jerusalém, em obediência ao comando de Jesus antes de sua ascensão (v.4). Além disso, o retorno a Jerusalém do monte das Oliveiras é uma ligação evidente com a cena da ascensão (vv. 9-11). O versículo 13, por sua vez, lista os onze, preparando o terreno para a reconstituição do grupo dos Doze, que segue (vv. 15-26). O capítulo 2 começa com uma referência ao mesmo grupo (os Doze com Maria), sempre reunidos em oração no dia de Pentecostes, esperando o dom do Espírito, prometido “dentro de poucos dias” em 1,5. É um grupo sólido, unido pela fé comum nas promessas de Cristo e pela prática da oração conjunta. Entre as mulheres, Maria se destaca como a mãe de Jesus.
A ligação entre 1,12-14 e 2,1-4 é particularmente forte e nos revela a dinâmica essencial da vida cristã, a que envolve a espera e a realização. A espera resulta de um comando e de uma promessa, que se cumpre no dom. Mas o significado de tudo isso se realiza na testemunha que o Espírito dado inspira nos discípulos, imediatamente. Portanto, a força do Dom prometido traz consigo a coragem do anúncio, para os Doze.

Mas qual é o anúncio, a testemunha de Maria?
Ela, que João já havia apresentado como a mãe dos vivos, a mãe do corpo de Cristo que é a Igreja, está aqui no centro da primeira comunidade cristã, revigorada pelo dom do Espírito. Com a descida do Espírito no dia de Pentecostes, a terceira pessoa da Trindade inaugura o amanhecer dos últimos tempos, quando a Igreja, precisamente nesse dom, se torna visível aos olhos do mundo.
E a testemunha de Maria, a maneira como ela torna presente a presença do Espírito nela, é a oração! A oração da Virgem, na Anunciação, assim como no cântico do Magnificat e em cada momento de sua vida como mãe, é caracterizada pela oferta generosa de todo o seu ser na fé.

A oração de Maria nos é revelada explicitamente com este versículo de Atos (1,14) no que já é o tempo da Igreja, da comunidade unida em nome de Cristo e pelo poder do Espírito, uma comunidade que se identifica naquela que trouxe em si o Filho, pelo poder do Espírito Santo. Mas poderíamos dizer que Maria não precisava de Pentecostes, esse Dom (o “Dom dos dons“, como a Tradição o chama) já estava operando nela desde o momento de seu “sim” à mensagem do anjo.

Antes da Encarnação do Filho de Deus e antes de se tornar ela mesma o templo do Espírito, a sua oração cooperava de maneira única com o plano de redenção do Pai. Podemos afirmar isso porque todos sabemos, por experiência, que não é algo que se improvisa, a capacidade de confiar em Deus e se entregar à sua vontade.

Na fé de sua “humilde serva“, o Dom de Deus encontra a acolhida que esperava desde o início dos tempos. Aquela que o Todo-Poderoso fez “cheia de graça” (Lc 1,28) responde com a oferta de todo o seu ser: “Eis-me aqui, sou a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lc 1,38). Essa confiança nas mãos de Deus é a essência, o significado da oração cristã: ser inteiramente para Ele, uma vez que Ele é inteiramente para nós.

No dia de Pentecostes, o Espírito da Promessa foi derramado sobre os discípulos, que “estavam todos juntos no mesmo lugar” (At 2,1), esperando, “perseverando unanimemente na oração” (At 1,14). No Espírito, que instrui a Igreja e lembra tudo o que Jesus disse (Jo 14,26), a vida de oração da Igreja é moldada. Na oração, o Espírito Santo nos une à Pessoa do Filho unigênito, em sua Humanidade glorificada. Por meio dela, nossa oração filial entra em comunhão, na Igreja, com a Mãe de Jesus.

Conclusão

Com referência à presença de Maria nas páginas do Antigo Testamento, o documento que resume o trabalho do Concílio Vaticano II, a Lumen Gentium, no n. 55, expressa-se da seguinte maneira:

«Os livros do Antigo e do Novo Testamento e a venerável tradição mostram de maneira cada vez mais clara a função da mãe do Salvador na economia da salvação e a apresentam, por assim dizer, à nossa contemplação. Os livros do Antigo Testamento descrevem a história da salvação, na qual lentamente se prepara a vinda de Cristo ao mundo. Esses documentos primitivos, quando lidos na Igreja e compreendidos à luz da revelação posterior e plena, destacam cada vez mais claramente a figura de uma mulher: a mãe do Redentor. Sob essa luz, ela já é profeticamente insinuada na promessa feita aos primeiros ancestrais caídos em pecado, sobre a vitória sobre a serpente (cf. Gn 3,15). Da mesma forma, é ela, a Virgem, que conceberá e dará à luz um Filho, cujo nome será Emanuel (cf. Is 7,14; Mt 1,22-23). Ela se destaca entre os humildes e pobres do Senhor, que confiam e recebem a salvação dele com fé. E finalmente, com ela, a filha de Sião por excelência, após a longa espera da promessa, os tempos se cumprem e se estabelece a nova “economia”, quando o Filho de Deus assume dela a natureza humana para libertar o homem do pecado através dos mistérios de sua carne”

Na Mãe de Deus, encontramos a síntese de tudo o que uma mulher é: filha, esposa, mãe, virgem. Maria é filha de Deus, mas também filha de Sião, ou seja, uma mulher judia que recebe a herança de fé das gerações que a precederam e a completa em sua capacidade de acolher a vontade de Deus na obediência da escuta e da fé.

Mas ao mesmo tempo, ela é esposa, não apenas a esposa de José. Nas bodas de Caná, como sob a cruz, encontramos nela os sinais da esposa que confia em Cristo como esposo, que por amor dá a vida.
Em seu papel de esposa, Maria é uma figura da Igreja, mas também de cada homem e mulher que se abre para essa união espiritual com Cristo que é o objetivo de toda jornada de fé cristã. Portanto, todas as filhas de Israel e todas as esposas que encontramos nos ajudam a reconstruir a beleza do rosto da esposa, que idealmente está na beleza da mulher do Cântico dos Cânticos, mas de forma mais concreta é sintetizada na beleza da virgem de Nazaré.

Maria é ao mesmo tempo, de maneira paradoxal, esposa e virgem. Não por causa de uma superioridade em sua humanidade (Maria é e permanece uma mulher, não é divina), mas devido à abundância da Graça derramada sobre ela e por ela aceita com fé e levada à plenitude de seus frutos.

Finalmente, Maria, acima de tudo, é Mãe. Tentamos defini-la como Mãe do dom, que certamente é Jesus, mas também é o Espírito, a Igreja, é cada pessoa que sabe e deseja se abrir ao seu coração materno, para aprender a fazer de toda a sua vida um dom.

Maria recebe a profecia de Simeão, ela sabe que sua vida como jovem mãe será marcada pelo sofrimento, um sofrimento profundo, como uma ferida aberta: “Senhor, a tua Palavra é uma ferida aberta, também em nossas vidas, se a deixarmos penetrar em nós com todo o seu poder. Dá-nos a coragem de dizer sim a ti, de nos colocarmos constantemente em escuta, de nos deixarmos ferir por Ti e de sermos curados pelo calor do teu Amor“.
Não deve ter sido fácil ter um filho adolescente como Jesus. Certamente, não devemos pensar na condição de adolescência que caracteriza nossa época, mas o episódio de Jesus que fica em Jerusalém nos dá um quadro de uma situação complexa, na qual Maria, assim como José, parece não encontrar a chave certa para entender. Os pais de Jesus precisam procurá-lo, precisam enfrentar a angústia de tê-lo perdido; assim também somos chamados a procurá-lo, toda vez que percebemos que o medo, a ansiedade e a dificuldade de enfrentar as incertezas que a vida nos apresenta estão crescendo em nós. Mas sabemos que você está lá, Senhor, sabemos que se o procurarmos, você se deixará encontrar e nos devolverá a paz.
Sob a cruz, banhada em seu sangue, Maria contempla aquele Filho único, amado e agora humanamente perdido, naquela morte violenta, sem sentido e inexplicável. Mas ela permanece lá e continua a ser um presente, permanece lá porque acredita e espera:

Nas nossas cruzes, Senhor, faz com que sintamos Maria ao nosso lado, como Mãe que não nos esquece, que nos entende porque soube entender você. Faz com que também nós aprendamos da cruz a beleza de nos doarmos, o valor da humildade de quem sabe se tornar pequeno. Faz com que aceitemos Maria como nossa mãe, como parte de nós, sempre.

A ascensão de Jesus é precedida pela promessa do Espírito. Com a primeira comunidade, Maria acredita na promessa e espera em oração, embora já fosse templo do Espírito. E ela torna sempre plena e significativa sua presença porque é a mãe que guarda em seu coração orante os filhos que o Filho lhe confiou. Nós recebemos o Dom dos dons e ainda o recebemos nos sacramentos. Faz, Senhor, que o teu Espírito ore em nós, como em Maria, que faça de nós pessoas que vivem de Ti, conTigo e para Ti, na alegria de uma vida doada por amor.

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