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MARIA EM CRISTO NOS RECONCILIA CONOSCO MESMOS E COM OS OUTROS

Maria em Cristo é reconciliada por Deus consigo mesma por via de pré redenção, razão pela qual é imaculada. Mas ela o é em Cristo não apenas por privilégio, mas também, e ainda mais, como ministra da nossa reconciliação com Deus: um ministério único, insubstituível, sempre em ato. Ela é imaculada por nós; é mulher de fé corajosa por nós; é dolorosa até quase morrer com o Filho no Calvário por nós; é assunta por nós; Mãe da Igreja, pela força da caridade no Espírito Santo de Cristo. Ela, que foi fiel, está no vértice do “resto” do povo de Israel.

Mas, reconciliando-nos em Cristo com Deus, Maria reconcilia também cada um de nós consigo mesmo; reconcilia-nos entre nós, para fazer da humanidade uma família de irmãos.

Maria em Cristo nos reconcilia conosco mesmos

Extroversão e divisão cultural da pessoa


Qual é a condição do homem individual, hoje? Ele perdeu as certezas fundamentais que exprimiam o sentido da vida e davam serenidade à consciência, em todas as dimensões; davam energia de decisão à vontade; davam criatividade e alegria ao nosso agir. Estávamos no mundo como pessoa à imagem de Deus, pessoa não em sentido individualista, mas como um eu que se abre ao outro como tu, para formar um nós: comunidade, cidade.

Hoje, todo homem que pensa se sente interiormente inseguro, porque está dividido em si mesmo entre aspiração e realidade. Na verdade, isso sempre aconteceu: pense-se, por exemplo, em Santo Agostinho antes de chegar a Cristo. Contudo, ao nosso redor emergia e se impunha um mundo de valores que tinha força para nos orientar e, por fim, a divisão interior entre aspiração e realidade encontrava solução. Verificava-se a reconciliação interior de nós conosco mesmos.

Hoje isso não é totalmente impossível, mas tornou-se muito mais difícil. Ao mundo “ambiente natural” substituiu-se um mundo “ambiente cultural”, que muitas vezes é tal que o homem é alienado, arrancado e distraído de si mesmo, é manipulado: não vive, mas é vivido pelo mundo ambiente.

Perdemos a nossa autonomia de pessoa: pessoa, repito, como “eu” que se abre ao outro como “tu” para formar comunidade, cidade de valores. E é doloroso pensar que perdemos essa autonomia e nos deixamos manipular e cindir interiormente, rejeitando Aquele que era a razão fundante dessa autonomia: Deus.

«Deus está morto», disse-se nos anos cinquenta, porque não nos teria salvado dos horrores da guerra, que, no entanto, o próprio homem quis. Deus não serve mais, disse-se nos anos sessenta, porque a tecnologia determinara progressos econômicos tão rápidos que nos fizeram iludir-nos de que, doravante, o homem podia construir por si mesmo o próprio paraíso terrestre, o bem-estar individual e social sem limites, para todos.

E assim, a suspeita e a rejeição, partindo de Deus, estenderam-se a todo o passado: ele cheirava demais a uma ordem dominada por Deus. De uma justa “secularização” passou-se ao “secularismo” ou “laicismo”.

Qual é o resultado dessa corrida rumo a uma nova terra prometida? Encontra-se entre dois vazios: o do passado rejeitado; o do futuro, que reduz o homem a simples servo do computador que produz apenas matéria para consumir e, por isso, reduz o homem a simples consumidor. E, para que consuma, com os meios de comunicação de massa criam-se falsas necessidades dentro do homem, que assim é transformado numa cadeia de necessidades, as quais atribuem valor a coisas que não o têm. Daí a cisão interior entre o homem profundo do coração e o homem extrovertido na superfície, o qual é manipulado por um ambiente que já não é cidade à medida do homem natural.

O que Maria pode dizer-nos e dar-nos?


O que fazer? Rejeitar ou modificar esta cidade? Modificá-la. Mas, para modificá-la sem renunciar aos valores novos e assim reconciliar o homem de hoje consigo mesmo, permanecendo homem de hoje, o que Maria pode dizer-nos, o que Maria pode dar-nos? A pergunta coloca-se de modo especial para a mulher.

Paulo VI, na exortação apostólica «Marialis Cultus», observa:

«No culto à Virgem… percebe-se um mal-estar: a distância, isto é, entre certos conteúdos desse culto e as concepções antropológicas de hoje e a realidade psicossociológica, profundamente mudada, na qual os homens do nosso tempo vivem e operam…
Daí resulta, em alguns, certa desafeição para com o culto à Virgem e certa dificuldade em tomar Maria de Nazaré como modelo, porque os horizontes da sua vida, afirma-se, parecem restritos em comparação com as vastas áreas de atividade nas quais o homem contemporâneo é chamado a agir
» (n. 34).

Certamente, o mundo no qual Maria operava estava encerrado num pequeno vilarejo da Galileia, Nazaré, como simples dona de casa numa casa de carpinteiro; e a cultura da região não ia além das preocupações da vida cotidiana de gente simples.

Mas aqui deve colocar-se uma pergunta fundamental e decisiva: o mundo ambiente é a medida da grandeza do homem, de modo que, quanto menor é esse mundo, tanto menor e mais insignificante é o homem, ou a medida do mundo, onde quer que se encontre, é o homem? E a grandeza do homem está sobretudo na interioridade e mede-se pela grandeza de Deus? E, portanto, pela grandeza dos valores que a realidade mundana assume quando entra em contato de serviço para essa interioridade?

A resposta não pode ter dúvidas: é o homem, com os valores que cria, ainda que permaneçam imanentes na pessoa. É esse homem que constitui a verdadeira grandeza do mundo, a grande cultura do mundo.

Temos no Evangelho de Mateus uma página em que Jesus nos revela quais são as figuras de homem e quais são as obras que de fato alcançam valor e, portanto, a perenidade de “história”, em contraste com aquilo que faz simples “crônica” e dura apenas uma hora.

No capítulo 25, Ele nos diz que, nas ações do homem, além da dimensão da factualidade que, para nós, faz “notícia”, existe uma dimensão de valor que já possui a intensidade e a vastidão da vida eterna do Reino de Deus. É a “meta história” imanente na “história”: ela não faz “notícia”, não faz “cultura secularista”; muitas vezes passa completamente despercebida aos homens; mas emerge na consciência de quem age como pessoa e é conhecida e avaliada por Deus.

Assim, quem dá de comer a quem tem fome; quem dá de beber a quem tem sede; quem veste aquele que está nu; e visita quem está na prisão etc., realiza atos de máximo valor, atos que têm perenidade de história e vastidão de Reino de Deus, ainda que sejam ações de um único instante num lugar sem esplendor. Do mesmo modo, quem não dá de comer a quem tem fome, não dá de beber a quem tem sede etc., comete atos de omissão que nem sequer são percebidos pelos homens, hoje especialmente; mas são de uma gravidade e de uma perenidade que se medem apenas com a exclusão do Reino de Deus.

Quando, portanto, nos colocamos a pergunta se Maria tem algo a dizer-nos e a dar-nos para compor, reconciliar realidade interior e realidade externa mundana, devemos buscar a resposta na dimensão dos valores, dos verdadeiros valores, ainda que não façam notícia; ainda que a cultura extrovertida ridicularize a verdadeira interioridade e proponha como valores os que não o são; e os exalte com monumentos e lhes teça elogios em bibliotecas de livros.

Ensina-nos a tomar decisões como pessoa de verdadeira e grande história

No fundo, trata-se de responder com verdade à pergunta: o que é o homem? Quais são os valores verdadeiramente humanos? Trata-se, pois, de um discurso antropológico. E é o discurso que Paulo VI quer que se faça ao tratar de Maria, e que ele, na sua exortação apostólica, inicia com algumas reflexões. Evoco aqui uma delas:

«A leitura das divinas Escrituras, realizada sob o influxo do Espírito Santo e tendo presentes as aquisições das ciências humanas e as várias situações do mundo contemporâneo, levará a descobrir como Maria pode ser assumida como espelho das expectativas dos homens do nosso tempo. Assim, para dar alguns exemplos, a mulher contemporânea, desejosa de participar com poder decisório nas escolhas da comunidade, contemplará com íntima alegria Maria que, admitida ao diálogo com Deus, dá o seu consentimento ativo e responsável, não à solução de um problema contingente, mas àquela “obra dos séculos”, como foi justamente chamada a encarnação do Verbo», (n. 37, São Pedro Crisólogo, Sermo 143).

Esta página de Paulo VI deve ser meditada, precisamente por causa do nosso tema: Maria, em Cristo, reconciliando-nos com Deus, reconcilia também cada um de nós consigo mesmo.

Deve-se, portanto, sublinhar em Maria o ato de decisão, a coragem com que ela decide, o modo sábio e ponderado, mesmo encontrando-se diante de Deus, e, por fim, a docilidade e a totalidade dessa decisão, que era decisão de fé.

Esta foi uma verdadeira opção moral fundamental de uma pessoa madura: com isso, ela dava um novo sentido finalizante a toda a sua vida. E aceitava também uma incógnita e, portanto, um risco. Mas conhecia bem quem era Deus: o Deus de Abraão, de Isaac, de Jacó, o Deus cujas promessas ela acreditava e ao qual permanecia ainda fiel, como aquela pessoa em quem o “Povo de Deus”, o “Resto de Israel”, tinha a sua expressão máxima.

Certeza de fé e de experiência histórica e, por isso, segurança; e depois firmeza em tomar, perseverar e conduzir a termo o caminho assinalado por Deus.

Tudo isso é o que hoje se pede para que o homem moderno reencontre o sentido da própria vida, em qualquer ambiente em que esteja, em qualquer cultura em que se encontre, quer realize uma obra humilde numa casinha, quer conduza uma nave espacial rumo à lua. A vastidão dos horizontes terrestres é sempre coisa pequena diante da vastidão de dialogar e depois caminhar com Deus.

Mas Maria não é apenas modelo de como devemos dar sentido à nossa pessoa ao agir no nosso tempo: ela está presente no princípio interior que forma esta nossa pessoa e, portanto, está na raiz da nossa identidade e do nosso contínuo fazer síntese entre interioridade e realidade do mundo ambiente, sem nos dispersarmos, sem nos distrairmos. Ser sempre nós mesmos e, contudo, servir e criar valores ao nosso redor. Conciliar ou reconciliar a realidade conosco e nós com a realidade.

Como Maria é princípio de tudo isso em nós?

É preciso refletir sobre a expressão de São Pedro Crisólogo, citada por Paulo VI para indicar a encarnação do Verbo: «é a obra de todos os séculos». A obra desejada por todos os séculos, desde a criação do mundo; a obra presente e operante na história de todos os séculos, em todos os homens, até que os séculos terminem e o céu de Cristo ressuscitado seja a nossa habitação, onde Deus será tudo em todos.

A reconciliação universal no máximo da sua realização, operada por Deus em Cristo.

Isto não é imaginação oratória de São Pedro Crisólogo; é doutrina revelada, especialmente por meio de São Paulo. Na carta aos Efésios, ela é indicada como «economia da plenitude dos tempos», com tensão escatológica (tòn kairón), que tem o seu ápice na recapitulação de todas as coisas em Cristo (Ef 1, 10; cf. 1Cor 15, 24-28).

Ao dizer Sim, o «fiat», a Deus, Deus, em Cristo, assumia Maria como sua ministra particular nesta obra. Este fiat era renovado e, de fato, assumia dimensão e tensão salvífica, como «socia Christi», no Calvário, e finalmente a revelava publicamente na sua dimensão e tensão eclesial no dia de Pentecostes. Com a assunção, ela era assumida no céu do Ressuscitado, sempre como ministra em ato do Ressuscitado com a sua maternidade. Pois bem, precisamente por este ministério materno, ela não é apenas exemplo para que também nós digamos Sim a Deus, mas opera dentro da ação de Cristo com a energia do Espírito Santo. Tudo isso não deve causar nenhuma surpresa, se se compreende que isso se realiza num espaço próprio, que é o espaço da Igreja, Igreja mistério.

Ensina-nos a agir em sintonia com a caridade misericordiosa do Espírito Santo de Deus em Cristo

Como membro único na sua ministerialidade a Cristo na Igreja, Maria não atua apenas como princípio, da parte de Deus, com o seu «fiat», mas atua também com a sua caridade eclesial, movendo-nos a dizer, como ela disse e com ela que sempre o repete, o nosso Sim a Deus. É uma comunhão de caridade e de oração que forma a comunhão, a qual se exprime na piedade popular mariana, movida e sempre animada pelo Espírito Santo.

A ação de Maria dentro de nós e a ação da Igreja aqui se fundem numa única ação de reconciliação, isto é, de identidade do cristão: identidade que é recomposta se se está fora da caridade pelo pecado, e que é intensificada se já se está na caridade, até tornar-nos, com Maria, santos da santidade de Cristo, do Cristo que se exprime na Igreja para o mundo.

E aqui se pode compreender também outra grande verdade e prática que anima a autêntica piedade mariana: a solicitude de Maria para com os pecadores e a confiança dos pecadores em Maria. É sempre a mesma caridade de Maria que circula na Igreja, junto com a caridade de todos os santos. Os pecadores são por ela alcançados, porque é verdade dogmática que os pecadores, em força do batismo indelével e, digamos também, da confirmação, embora tenham perdido a graça santificante e a caridade, são, contudo, membros da Igreja e estão sob a ação, diria até a pressão, da caridade eclesial e mariana, para que se convertam.

O Concílio Vaticano II o diz de modo explícito:

«Aqueles que se aproximam do sacramento da penitência recebem da misericórdia de Deus o perdão das ofensas feitas a Ele e, ao mesmo tempo, reconciliam-se com a Igreja, à qual infligiram uma ferida com o pecado, e que coopera para a sua conversão com a caridade, o exemplo, a oração», (Lumen gentium 11).

Somente quem renega a Igreja com um ato de apostasia e se coloca positivamente contra a ação do Espírito Santo é como se se separasse da Igreja e se privasse dos bens que provêm do influxo da caridade eclesial e mariana. E, no entanto, a ternura de Deus não perde de vista esses infelizes.

Nos primeiros séculos da Igreja, prestava-se muita atenção àqueles que, embora não estivessem em plena comunhão com a Igreja, a ela estavam ligados, seja pelo catecumenato, no caso dos que se preparavam para o batismo, seja no caso dos pecadores que, embora não recebessem ou não pudessem receber a penitência, sofriam, choravam o seu pecado, faziam esmolas. Eram assim dispostos para a penitência final antes de morrer, com a imposição penitencial das mãos, se ainda não tivessem recebido a penitência, ou ao menos com o viático.

E, se alguns morriam sem essa última ação da Igreja, mas a tinham desejado, a Igreja rezava por eles também após a morte, implorando do clementíssimo Deus a não condenação eterna para quem assim tivesse falecido.

Toda essa riqueza da caridade da Igreja, com práticas pastorais originais, com o tempo foi-se modificando. Seria necessário retomar aquela caridade e adaptá-la às exigências pastorais do nosso tempo, para a reconciliação, ao menos gradual, de cristãos que se sentem em dificuldade e têm grande necessidade de reencontrar-se e pôr-se em oração confiante a Deus.

A economia da Igreja, isto é, de Cristo que se faz Igreja, é economia de reconciliação. É economia de «misericórdia», isto é, segundo a terminologia bíblica, do amor de ternura paterna e materna de Deus, em Cristo, para com o mundo. Nesta economia, Deus Pai, em Cristo e no Espírito Santo, quis que Maria fosse ministra de maternidade, especialmente para com os pecadores. Assim, entrar no circuito do amor de Maria é entrar num circuito de salvação segura. Escreve Santo Afonso:

«Este é o principal ofício que foi dado a Maria ao ser colocada na terra: levantar as almas caídas da graça divina e reconciliá-las com Deus», (Santo Afonso, Le glorie di Maria, cap. 6, § 3).

E acrescenta que: «a devoção a Maria é graça que Deus concede àqueles que quer salvar», (op. cit., cap., § 1).

CONCLUSÃO

Ao longo destas reflexões, o fio condutor permaneceu o mesmo: Maria, inseparável de Cristo e inteiramente relativa a Ele, é ministra singular da reconciliação que Deus realiza em Cristo, e por isso nos reconcilia com Deus, conosco mesmos e entre nós, para que a humanidade se torne uma verdadeira família de irmãos. Esta mediação materna não diminui a unicidade de Cristo, antes a manifesta na sua fecundidade histórica e eclesial, porque se exerce no espaço próprio em que Cristo age e comunica a sua vida, a Igreja mistério.

No plano antropológico, o homem contemporâneo experimenta com frequência a fratura interior entre aspiração e realidade, agravada por um ambiente cultural que dispersa, aliena e fragmenta a pessoa. A resposta cristã a esta crise não é fuga do mundo, mas recuperação da interioridade como lugar da verdade do homem diante de Deus. Aqui, Maria aparece como espelho das legítimas expectativas do nosso tempo: a mulher, e com ela todo ser humano, reconhece nela a grandeza de uma decisão plenamente pessoal, consciente e responsável, o seu Sim de fé, não para resolver um problema contingente, mas para acolher a “obra dos séculos”, a encarnação do Verbo (Paulo VI, Marialis Cultus 37; São Pedro Crisólogo, Sermo 143, Patrologia Latina 52, 583). É precisamente esta maturidade espiritual, lucidez, coragem e docilidade total que recompõe a unidade interior e devolve sentido ao agir, quer na humildade cotidiana, quer nas tarefas mais amplas da cultura e da técnica.

Esta decisão de Maria, o seu fiat, não permanece como mera lembrança exemplar, mas insere-a, por disposição divina, no coração da economia da salvação, aquela “economia da plenitude dos tempos” em que todas as coisas são recapituladas em Cristo (Ef 1, 10; cf. 1Cor 15, 24-28). Por isso, Maria não é apenas modelo externo: ela está presente, como mãe, no princípio interior que sustenta a nossa identidade cristã, ajudando-nos a manter a síntese entre interioridade e mundo ambiente, sem dispersão e sem perda de nós mesmos. Dizer Sim a Deus, com Maria e como Maria, torna-se caminho de integração: permanecer pessoa, servir, criar valores verdadeiros, reconciliar a realidade conosco e nós com a realidade, no horizonte do Reino.

A reconciliação, porém, tem também um rosto pastoral e misericordioso. A Igreja, corpo de Cristo, vive uma economia de reconciliação que é economia de misericórdia, isto é, do amor terno de Deus em Cristo. Nela, Maria exerce uma maternidade particularmente voltada aos pecadores, não como alternativa à graça, mas como expressão materna da própria caridade de Cristo comunicada pelo Espírito Santo. Por isso, a piedade mariana autêntica, quando é verdadeiramente eclesial, não se fecha em afetos, mas se torna energia de conversão, oração, exemplo e caridade. Quem se aproxima do sacramento da penitência recebe o perdão de Deus e, ao mesmo tempo, reconcilia-se com a Igreja ferida pelo pecado, que coopera para a conversão “com a caridade, o exemplo, a oração” (Concílio Vaticano II, Lumen gentium 11). Retomar, com criatividade e prudência, a riqueza pastoral da antiga solicitude eclesial pelos que estão em dificuldade, pode ser um caminho providencial para a reconciliação gradual de muitos fiéis feridos, cansados ou distantes.

Em síntese, a proposta é clara e exigente: reencontrar a verdade do homem na luz de Deus, e aprender, com Maria, a arte de decisões grandes, que devolvem unidade à pessoa e abrem o coração à comunhão. Entrar no circuito do amor de Maria é entrar no circuito da caridade eclesial que o Espírito Santo suscita e sustenta, e, portanto, num caminho seguro de salvação e de reconstrução interior (Santo Afonso, Le glorie di Maria, cap. 6, § 3; cap., § 1). Assim, reconciliados em Cristo, tornamo-nos capazes de reconciliar também a vida concreta: as relações, as escolhas, o trabalho, a cultura, a história. E, como Maria, permanecemos fiéis no essencial: caminhar com Deus, para que, na nossa vida e no nosso tempo, se manifeste a verdadeira grande história, aquela que Deus reconhece e faz permanecer.

Daniel Afonso

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