Imaculada ou Maculada?

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Unica mediação de Cristo

A Imaculada existe como hino à incomparável potência salvífica de Cristo. Este ‘novo’ horizonte da mariologia foi um desafio que requereu séculos para conseguir receber uma resposta satisfatória da parte dos teólogos. 

Na história da mariologia nós encontramos Pelágio (m. 422) e o seu seguidor Juliano de Eclano (m. 454) que afirmam que Maria foi concebida sem pecado original. Contudo este acontecimento não seria uma singularidade pois todos nasceríamos na bondade e na graça sem a necessidade de Cristo Salvador. Claro que esta afirmação não é compatível com a Revelação e como tal com os dados da fé. Em sentido contrário, procurando colocar Maria no horizonte do nexus mysteriorum Agostinho procura equilibrar a visão não tocando na questão do pecado em Maria mas considerando-a necessitada da redenção de Cristo porque da mesma estirpe daqueles que humanamente estão debaixo do pecado original ainda que colocada debaixo do pecado original seria libertada com a graça da regeneração. Desta forma, Maria não seria subtraída à condição humana, não seria deixada num estado primordial idílico mas participante na obra salvífica do único mediador que longe de uma auto-salvação se transforma no mais perfeito fruto da árvore da vida.

Esta mariologia embrionária colocava o problema soteriológico que devia ser resolvido: como se pode ser concebidos sem pecado original e ao mesmo tempo ser redimidos por Cristo? Este pergunta permaneceu como a afirmação dogmática da universalidade da redenção realizada por Cristo. Ao longo dos séculos fomos encontrando tentativas de resposta como a purificação de Maria do pecado original no momento da concepção que chegaram até nós pelas mãos de Alexandre de Hales (m. 1245), Alberto Magno (m. 1280), Boaventura (m. 1274) Anselmo de Cantuária (m. 1109), Bernardo de Claraval (m. 1153) entre outros. As posições extremam-se então entre maculistas e imaculistas e encontramos por exemplo de Tomás de Aquino (m. 1274) a dificuldade de harmonizar a redenção realizada por Cristo com a isenção de Maria do pecado original.

A resolução deste problema encontrará uma resposta mariológica na afirmação da redenção antecipada ou retroativa com Anselmo e depois com Eadmero de Cantuária (m. 1134). Esta não será acolhido por Boaventura pois não pode pensar a uma santificação da Virgem depois de ter contraído pecado original, como tal desenvolve o conceito de redenção preservativa que não se opõe à fé cristã. Será este núcleo mariológico que o franciscano João Duns Scoto (m. 1308) irá expor como possibilidade ou probabilidade da doutrina imaculista afirmando perante o argumento da única mediação de Cristo que:

«Cristo exercitou o perfeito grau possível de mediação relativamente a uma pessoa pela qual era mediador. Ora por nenhuma pessoa exercitou em grau mais excelente do que por Maria. Mas isso não teria acontecido se não tivesse merecido ser preservada do pecado original» (Duns Scotus, Lectura in tertium librum Sententiarum, dist. 3, q. 1, in Opera omnia, XX, Civitas Vaticana 2003,129).

A Imaculada Conceição não poderá ser então considerada como uma exceção à redenção de Cristo mas um caso de perfeita e eficaz ação salvífica do único mediador. A intervenção de Scoto foi decisiva no desenvolvimento da doutrina imaculista que será defendida pelos franciscanos e depois se alargará dentro da comunidade teológica como encontramos na de Paris onde na Universidade de Sorbonne em 1496 se encontram registros com o juramento pela defesa da Imaculada.

Um autor singular neste âmbito alguns séculos mais tarde foi F. Suárez (m. 1617) que ensinando no Colégio Romano entre 1584-1585 afirma que a Bem Aventurada Virgem , desde o primeiro instante da sua concepção foi santificada através da graça de Deus e como tal preservada da culpa do pecado original. Através da Escritura, da autoridade da Igreja, do testemunho dos Santos e das razões de conveniência o autor prova a sua posição imaculista que depois na obra Summa theologica sobre os Mysteria vitae Christi em 1592 afirmou:

«Antes de tudo é necessário estabelecer que a Bem Aventurada Virgem foi redimida por Cristo, porque Cristo foi o redentor universal de todo o gênero humano e foi morto por todos (Rm 5; 2 Cor 5; 1 Tm 2). Retirar alguém desta regra geral da Escritura é retido contra a fé por Agostinho (De peccat. Merit. Remis., lib.1, cap.27-28, et lib.3): cap. 3; Contra Iulianum, lib. 6, cap. 8. Declarar livre a Virgem desta redenção seria de qualquer forma derrogar a dignidade de Cristo».

Para que se trate de uma verdadeira redenção, admite o teólogo Jesuíta, é necessário que em Maria exista um verdadeiro débito como tal, e para dirimir a questão esclarece que débito significa submissão a um pecado não pessoal e como tal a partir do momento da sua existência foi imersa da graça para não cair no pecado. Assim sendo Maria pode dizer que forma singular a Cristo que é o seu salvador (Lc 1) pois, como afirma Suárez:

«Aconteceu por conveniente razão da divina providência que a Bem Aventurada Virgem fosse constituída juntamente com toda a natureza na vontade de Adão para que a perfeita e universal dignidade do Redentor e a eficácia da sua graça se tornassem mais claras e resplandecesse na Mãe» (F. Suàrez, Commentariorum ac disputationum in tertiam partem divi Thomae, tomus secundus. Mysteria vitae Christi, Venetiis 1605 (la ed. 1592), disp. III, sectio II, p. 20).

Esta herança de Suárez permaneceu na história da mariologia e numerosos teólogos Jesuítas lhe seguiram os passos desenvolvendo uma mariologia que viu nascer personagens como C. Passaglia e G. Perrone ainda hoje nos ilustram a longa maturação da Imaculada Conceição até à definição dogmática.

Conclusão

Depois de termos apresentado brevemente a história encontramo-nos na obrigação de responder ao problema inicial: como surgiu e amadureceu na Igreja a verdade da Imaculada Conceição?

  1. O dogma da Imaculada é um evento eclesial

A verdade de fé nasce de um dinamismo de fé que interessou a Igreja em todos os seus componentes. Não nasce de uma especulação mariológica mas encontra fiéis, magistério, teólogos a contribuir de forma eficaz cada um com o seu carisma. Se destacarmos cada uma destas estradas não conseguimos encontrar razão suficiente para tal, isto é, se percorrermos a via histórica deparamo-nos com uma verdade não expressa pela Escritura nem presente na primeira tradição eclesial. Se por sua vez formos pela via da lógica deparamo-nos com uma não necessidade perante uma afirmação da revelação. Então encontramos o sentido da fé como faculdade de perceber e desenvolver no Espírito as virtudes incluídas na Revelação. Esta inspiração sobrenatural é um processo espiritual, intuitivo, consequente da verdade revelada que progressivamente é desvelada nas suas potencialidades. A fé da Igreja, que se exprime num determinado momento com o consenso global dos fiéis, é a base válida e suficiente para a definição dogmática. Esta se funda na assistência do Espírito Santo na Igreja onde se alcança a plenitude da verdade. 

  1. A Imaculada Conceição como sinal da perfeita redenção

A história da Imaculada é um sinal admirável da redenção de Cristo que exclui a auto-salvação pois todos somos justificados gratuitamente pela graça em virtude da redenção realizada por Cristo em nós (Rom 3,24). A Imaculada é então este sinal luminoso da gratuidade do amor de Deus, que se atua ainda antes da resposta responsável da criatura como que o hino: Soli Deo gloria!

A apropriação e defesa da Imaculada Conceição pelos fiéis leigos tem um profundo significado antropológico. O valor inalienável da pureza de Maria alcança mais do que um acontecimento histórico, um ideal mítico ou até a identidade cristã pois é um acontecimento cósmico de santidade e de salvação. Ao defender o mistério mariano encontramos a tenacidade da Igreja peregrina que perante a Mãe do Senhor realiza uma profissão de fé na potência salvadora de Cristo com um ato de esperança onde o bem imperará sobre o mal.

Maria foi redimida de modo sublime, salva pelo Filho quando Jesus não lhe permitiu que caísse, inaugurando assim a forma mais sublime de redenção. A consciência que em Maria a salvação não se reduz à imunidade do pecado da origem mas à obra redentora de Cristo é uma vida nova, um renascer (Jo 3,3-5), uma nova criação (2 Cor 5,17 Gal 6,15) que se atua pela ação do Espírito Santo. Por isso podemos afirmar a santidade positiva de Maria: «pelo Espírito Santo quase plasmada e tornada nova criatura, adornada desde o primeiro instante da sua concepção pelos esplendores duma santidade deveras singular» (Lumen Gentium 56).

Isto significa que em Maria conta mais o ser como nós do que o ser diversa de nós. A comunhão é um elemento essencial daqueles que foram salvos por Cristo tal como Maria, o que altera é o modo como esta redenção é realizada, a Mãe de Jesus por preservação e nós por libertação. A Imaculada não é privilégio de exceção mas singularidade de excelência porque em nome de todos os salvos reconhece o único Salvador Jesus seu Filho e Filho de Deus.

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Respostas

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  1. Maria é sem mancha, é imaculada, desde de sempre. Para mim, Ela é perfeita, é cheia de graça, a mais linda entre todas as mulheres, simplismente porque Ela é  Mãe do Filho de Deus, e eu a amo. Maria sempre me mostra seu Filho nos momentos de tribulações, e me diz não larga minha mão, sempre me levando de volta ao vinho novo. Maria como é bom ser sua filha.🙏 

  2. Sublime ter esse entendimento que somente nos fortifica mais na Fé! Continuo dizendo como verdade de Fé, em todos os momentos de minha vida, que o Sim de Maria nos unifica em sermos irmãos em Cristo! A Paz de Cristo a todos, meus irmãos! Amém!

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