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A escuta e o olhar contemplativo de Maria

A escuta atenta de Maria

Para compreender a profundidade e a amplitude da escuta de Maria, devemos descer à gruta da Natividade em Belém e reviver a visita dos pastores ao berço de Jesus.
Os pastores vieram e contaram muitas e maravilhosas coisas, que aconteceram naquela noite, enquanto eles vigiavam o rebanho: E todos os que ouviram ficaram maravilhados com o que os pastores diziam;

Maria, por sua vez, guardava todas estas coisas meditando em seu coração (Lc 2,18-19).

Aqui a escuta de Maria é meditação; e para entender essa atitude é importante saber que meditar traduz um verbo grego característico, que significa juntar, reunir. Maria praticava a meditação das Sagradas Escrituras e depois meditava sobre tudo, porque reunia em seu coração tudo o que ouvia e entendia de Deus: assim unia a palavra à Palavra, conhecimento ao Conhecimento, decisão à Decisão, amor ao Amor.
Desta forma, a Mãe de Jesus entrou cada vez mais no mistério de Deus e na compreensão de sua Palavra. Todo este trabalho de meditação é marcado por um grande discernimento:

Maria sabe o que levar e o que deixar. Encontramos este seu dom precisamente na história da Anunciação (Lc 2,26-38).

Maria ouve e vê coisas verdadeiramente extraordinárias; e ela é uma mulher dedicada, uma adoradora do Senhor. Ela se sente chamada cheia de graça; um anjo lhe assegura que o Senhor está com ela e que ela foi escolhida para ser a mãe do Messias, que se sentará no trono de Davi.
No entanto, Maria não se deixa levar; dir-se-ia que tudo isso não lhe sobe à cabeça, mas toma distância e submete o anjo a uma prova: «Como é possível? Eu não conheço homem». O anjo responde-lhe com precisão, dá-lhe todas as explicações que ela procura, para concluir que aquele que dela nascer será concebido por intervenção do Espírito de Deus. Então Maria encerra o seu discernimento, a sua meditação, respondendo ao anjo: se se trata de dar consentimento ao Espírito Santo, não há problema, pois sou serva do Senhor; então que o que você mesmo disse se cumpra em mim!
Não é preciso muito para Maria: ela consegue reconstruir tudo imediatamente, de um versículo todo o salmo, de um detalhe todo o episódio; e isto porque a Palavra de Deus lhe é familiar. Meditando lentamente, Maria alcança a Palavra de Deus: ela a concebe em seu coração e não em seu ventre. A Mãe de Deus se preocupa com o que está no coração do Filho: Maria e Jesus vivem uma profunda compreensão. Só assim podemos entender o episódio das bodas de Caná, a reação de Jesus à informação de Maria sobre a falta de vinho.
Acredito que Maria não acelerou o tempo dos milagres de Jesus, mas que, em seu espírito profético, o viu chegar e, por isso, prepara tudo para que a transformação da água em vinho seja acolhida como um momento de misericórdia divina. O milagre das bodas de Caná revela de forma desconcertante o espírito de profecia de Maria, aprofundado nas Escrituras e inteiramente orientado para a Palavra reveladora. Perante a advertência de Jesus:

Ainda não é chegada a minha hora (Jo 2,4),

Maria não responde, mas se dirige aos serventes dizendo: Fazei tudo o que ele vos disser. Maria, portanto, sabe que a hora está para chegar; e este conhecimento vem a ela de seu espírito de profecia.
Assim compreendemos quão atenta se torna a nossa escuta da Palavra de Deus: queremos dizer as parábolas, as palavras com significados colaterais que servem para esclarecê-las (para quem adere a Jesus) e também para escondê-las (de quem não adere a ele), e então as palavras e os gestos são combinados até que se descubra a única Palavra e o único gesto: a Cruz, revelação e dom do amor de Deus. Parece que Maria escuta as palavras e compreende as parábolas, através do silêncio e da vigilância, que tornam audível a Palavra, o espanto pelo entendimento com o anúncio, a memória que guarda a caminhada com a Parábola na intimidade pessoal.
Portanto, a meditação produz uma profunda conversão de nossa liberdade, que é a razão de nossa razão, orientando-nos inteiramente para a Palavra da vida. A meditação da Palavra converte-se lentamente em relação com Aquele que fala e em contemplação com Aquele que, permanecendo oculto, se deixa encontrar e ver pelos seus amigos: a escuta atenta da Palavra provoca um olhar capaz de penetrar no mistério.

O olhar penetrante de Maria

Para compreender o olhar de Maria, a sua capacidade de entrar com os olhos da fé no mistério do amor de Deus, devemos subir com ela ao Calvário, aos pés da Cruz de Jesus. Aqui Maria vê o que os outros não vêem:

seu olhar profético, de olhar penetrante (Nm 24,3)

discerne a presença de cada manifestação suprema do divino Ágape.
De fato, lemos que

«todas as multidões, que vieram ver aquele fato, relembrando o que tinha acontecido, voltaram a bater no peito. Em vez disso, os amigos de Jesus e as mulheres, que o seguiram desde a Galiléia, ficaram a certa distância e observaram tudo o que acontecia» (Lc 23,48-49).

O fato da morte de Jesus é chamado por Lucas de theoria, termo grego de profundo significado: a teoria era a explicação suprema de tudo. Lucas encontra esta explicação de tudo na Cruz; e com Lucas também Maria, que vê o que os outros não veem, porque seus olhos estão lavados pelas lágrimas e dilacerados pela dor.
Para penetrar o mistério do amor de Deus com o olhar, é necessário que o mistério penetre primeiro no olhar, abrandando o coração. A oração realizada pelo olhar, exterior e interior, brota da suprema manifestação do amor de Deus pelo homem. A Cruz torna-se assim o coração da vida contemplativa, porque é o lugar onde o Amor se derrama sobre nós. A Cruz é o ícone da caridade de Deus, o dom pleno do amor de Deus ao homem segundo uma bela expressão de São Máximo, o Confessor. Podemos assim compreender o que afirma o II Concílio de Nicéia (787), na definição dogmática, quando especifica o tipo de veneração reservado aos ícones sagrados. Segundo a nossa fé, não se trata de um verdadeiro culto de latria, reservado apenas à natureza divina, mas de um culto semelhante ao que se presta à imagem da preciosa e vivificante Cruz, ao santos Evangelhos e a outros objetos sagrados, honrando-os com a oferenda de incensos e luzes, como era costume entre os antigos. De fato, a honra dada à imagem passa para aquele que ela representa; e quem venera a imagem, venera a pessoa de quem nela se reproduz.
Neste ponto parece-nos claro que, se queremos amadurecer na oração, na contemplação do mistério da Cruz, que é o trono do Cordeiro em torno do qual a Igreja se reúne, é preciso descobrir, talvez redescobrir, a tradição iconográfica da Igreja. Existe uma iconografia nas Igrejas orientais e ocidentais: a primeira é mais representativa e alcança sua expressão mais característica na pintura (melhor, escrita) de ícones; a segunda é mais abstrata e alcança sua expressão mais característica na arquitetura (refiro-me sobretudo ao gótico).
Porém, ainda hoje, são oferecidas ocasiões singulares: a cruz, o crucifixo, o círio pascal, o altar são imagens a serem decifradas e interiorizadas, que entram na ação litúrgica como imagens sagradas. Depois, existe uma redescoberta da arte dos ícones, latinos e bizantinos, que oferecem uma oportunidade singular para a oração. No entanto, para ler essas imagens é necessário um método, caso contrário pode-se acabar no sentimentalismo ou em atribuições de sentido completamente livres: algo que não favorece a contemplação sábia, em harmonia com a tradição viva da Igreja e em harmonia com a liturgia.
Se um ícone é entendido, recebendo o seu serviço de referência ao arquétipo, então ele permite a lectio divina, com mais profundidade e clareza do que um texto das Sagradas Escrituras pode fazer. Um método positivo de leitura de ícones pode ser concentrado em cinco operações: tema, narração, estímulo, distância e labirinto.
Descobrir o tema, mesmo com a ajuda da inscrição, significa identificar o texto das Escrituras a que o ícone se refere; de fato, cada ícone deve tornar visível, com o desenho e as cores, o que as Escrituras anunciam com as palavras.
O tema é reexpresso no ícone com linguagem visual; e esse fato cria uma espécie de narração, uma sequência de imagens que fazem do ícone um equivalente visível da realidade invisível que ele faz pensar e acreditar.
O estímulo lembra a função das cores, pois a cor é um estímulo psicoemocional. Uma leitura correta do ícone permite identificar sua cor central e cores secundárias, que se harmonizam como as notas de uma música. O aspecto cromático e seu simbolismo implícito são a causa da força terapêutica dos ícones, capazes de curar a imaginação e libertá-la da agressividade das imagens perversas.
No entanto, também devemos nos distanciar dos estímulos cromáticos, pois o homem não é apenas imaginário (noturno), mas também racionalidade (dia). Somos conduzidos a esta operação através da descoberta do perigrafado ícone, do simbolismo geométrico e abstrato subliminar.
Cada ícone tem o seu mistério, oferece o seu próprio tesouro, além do que se vê imediatamente. E este tesouro sugere o símbolo do labirinto, pois a leitura do ícone é como um caminho que conduz precisamente à sala do tesouro, à Jerusalém celeste, como nos labirintos que encontramos no chão de certas Igrejas antigas, atravessados ​​por penitentes de joelhos, no lugar da peregrinação à terra santa.
Cada ícone é assim apresentado como uma pequena iconóstase, que esconde e revela o mistério da fé aos olhos penetrantes; é como um labirinto que deve ser percorrido lentamente, ajoelhados, até descobrirmos o ponto de irradiação que queima nosso olhar para nos fazer pensar com amor sobre o que é real, mas invisível. O fogo que queima o olhar, introjetado, ilumina o coração e aquece a oração e a contemplação. Se um ícone não queimar o olhar, ele permanece uma superfície externa, talvez tão bela que pode ser olhado, até se tornar respeitável. Assim nasceria o ídolo, uma manipulação ímpia do ícone incapaz de comunicar o mistério contemplado. Se o ícone não levar o contemplante a participar da realidade contemplada será mais uma imagem que representa uma realidade como uma fotografia do passado.
No olhar penetrante de Maria nós vemos a iconografia a acontecer. Maria via, além das cores, dos momentos, das vozes e ia entrando dentro de um mistério que se revelava, velando-se e ia lendo essas marcas da história que era salva a cada momento. O mistério não está fora de nós, nós estamos dentro dele e olhando para o que nos rodeia nos apercebemos da sua presença. Assim foi a estrada de Maria, em que o absoluto transcendente perante o qual se cobria o rosto porque não podia ser visto, tornou-se homem no meio de nós, tocável, atingível mas não perdeu o seu mistério nem a força da revelação. Agora temos uma história que salva, narrada no ícone contínuo da vida… que não pára de fluir. Tempo para aprender a ler esse ícone aprendendo de Maria.

Edição Locus

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