Saúde dos enfermos: a missa de Maria Salus infirmorum

Saúde dos enfermos: análise dogmático-litúrgica

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Infirmis eius patrocinium invocantibus signum fulget salutis et supernae spei.
«Para os enfermos que invocam o seu patrocínio, ela brilha como sinal de saúde e de esperança celeste» (Prefácio da missa Beata Maria Virgo, Salus infirmorum)

«Saúde dos enfermos», Salus infirmorum, é um dos títulos com que os fiéis invocam Maria há muitos séculos. A missa que os camilianos tinham no seu Próprio, impresso em 1974, entrou em 1987, com um prefácio novo, na Collectio Missarum de Beata Maria Virgine, a coleção de missas da Virgem publicada pela Congregação para o Culto Divino (formulário 44). É nos textos dessa missa que se vê melhor o que a Igreja entende por este título.

A saúde que vem de Deus

A introdução da missa começa por dizer o que é a salvação: «Salus Dei» hominem totum afficit, eius corpus, eius animam eiusque spiritum, «a “salvação de Deus” atinge o homem inteiro, o seu corpo, a sua alma e o seu espírito». E acrescenta logo um limite realista: Tamen absolutam et perfectam salutem homo in hoc mundo nequit consequi: eius vita enim dolori, infirmitati, morti est obiecta, «mas o homem não pode alcançar neste mundo a salvação absoluta e perfeita, porque a sua vida está sujeita à dor, à doença e à morte» (COLLECTIO MISSARUM, 1987, p. 167). Em latim, salus quer dizer ao mesmo tempo «saúde» e «salvação», e a liturgia joga com os dois sentidos.

A mesma introdução lembra que a «salvação de Deus» é o próprio Cristo, a quem a liturgia, ecoando Santo Inácio de Antioquia, chama corporum animarumque medicum, «médico dos corpos e das almas», e que, nos dias da sua vida terrena, curou muitos doentes, libertando-os muitas vezes também da ferida do pecado (cf. Mt 9,2-8, Jo 5,1-14) (p. 167).

O Servo que tomou as nossas dores

A primeira leitura da missa é o quarto canto do Servo do Senhor: vere languores nostros ipse tulit et dolores nostros ipse portavit… et livore eius sanati sumus, «verdadeiramente ele tomou sobre si as nossas enfermidades e carregou as nossas dores… e pelas suas chagas fomos curados» (Is 53,4-5). O Evangelho de Mateus aplica este texto às curas de Jesus: ut adimpleretur quod dictum est per Esaiam prophetam dicentem: ipse infirmitates nostras accepit et aegrotationes portavit, «para que se cumprisse o que foi dito pelo profeta Isaías: ele tomou as nossas enfermidades e carregou as nossas doenças» (Mt 8,17). O salmo responsorial louva o Senhor qui sanat omnes infirmitates, «que cura todas as enfermidades» (Sl 102 [103],3).

Quando Jesus cura, diz muitas vezes «a tua fé te salvou». À mulher curada da hemorragia diz: fides tua te salvam fecit, vade in pace et esto sana a plaga tua, «a tua fé te salvou, vai em paz e fica curada do teu mal» (Mc 5,34). A cura do corpo é sinal de uma salvação maior.

Maria visita os que precisam

O Evangelho da missa é a Visitação (Lc 1,39-56). A introdução explica a escolha: os fiéis contemplam a Virgem que, cheia de fé e louvando a misericórdia de Deus, corre a visitar Isabel, ut… eius sollicitudinem imitari impellantur in fratrum sororumque aegrotantium cura, «para que sejam levados a imitar a sua solicitude no cuidado dos irmãos e irmãs doentes» (COLLECTIO MISSARUM, 1987, p. 167).

Sinal de saúde e de esperança

O centro da missa é o prefácio, composto de novo para esta coleção: Quia beata Virgo Maria, doloris mysterii mirum in modum particeps effecta, infirmis eius patrocinium invocantibus signum fulget salutis et supernae spei, eam autem contemplantibus exemplar praebet animi tuae voluntati perfecte consentientis et Christo plene se conformantis, «porque a bem-aventurada Virgem Maria, feita de modo admirável participante do mistério da dor, brilha para os enfermos que invocam o seu patrocínio como sinal de saúde e de esperança celeste, e oferece aos que a contemplam o exemplo de um ânimo perfeitamente conforme à vossa vontade e plenamente configurado com Cristo» (p. 169).

Maria é «saúde dos enfermos» por dois motivos. Como padroeira, intercede pelos que sofrem. Como modelo, ensina a viver a doença unidos a Cristo, que languores nostros pertulit et dolores nostros portavit, «suportou as nossas enfermidades e carregou as nossas dores» (p. 169). A coleta, por sua vez, pede ao mesmo tempo a saúde mentis et corporis, «da mente e do corpo», e a libertação da tristeza presente para gozar da alegria eterna (p. 168).

Saúde e salvação, sem confundir

O mariólogo Stefano De Fiores, num estudo sobre Maria como «ícone de salvação e mãe da saúde», distingue duas correntes teológicas. A primeira separa a salvação da saúde e cai facilmente no dolorismo, que lê a vida cristã só pelo ângulo do sofrimento. A segunda, que ele segue, liga a saúde à salvação, porque a vida é dom de Deus que deve ser posto a serviço do Reino, e depois de Cristo até o sofrimento pode tornar-se lugar de graça. Daí a sua fórmula: L’equazione più esatta non è “tanta più sofferenza o salute tanto più grazia”, ma “tanto più amore tanta più grazia”, «a equação mais exata não é “quanto mais sofrimento ou saúde, tanto mais graça”, mas “quanto mais amor, tanto mais graça”» (DE FIORES, 1994, p. 24-25). E lembra: il soccorso di Maria ai cristiani malati non è automatico né immediato: ella rispetta i tempi della storia della salvezza, «o socorro de Maria aos cristãos doentes não é automático nem imediato: ela respeita os tempos da história da salvação» (p. 32).

Os Padres já viam Maria na obra da salvação. Santo Ireneu, comparando-a com Eva, diz que ela, obaudiens et sibi et universo generi humano causa facta est salutis, «obedecendo, tornou-se causa de salvação para si e para todo o gênero humano» (IRENEU, Adversus haereses III 22,4, apud ÁLVAREZ CAMPOS, 1970, v. 1, n. 85, p. 48).

A invocação dos fiéis

A invocação Salus infirmorum aparece já numa ladainha mariana de Paris do fim do século XII, uma das antepassadas da ladainha de Loreto (CALABUIG e PERRELLA, 2008, p. 124, 144-145). A Ordem dos Ministros dos Enfermos, os camilianos, difundiu este título, e na sua igreja de Santa Maria Madalena, em Roma, venera-se uma imagem célebre da Virgem Salus infirmorum (COLLECTIO MISSARUM, 1987, p. 167). Paulo VI, na Marialis cultus, lembra que Christifideles eam invocare consueverunt ut Consolatricem afflictorum, Salutem infirmorum, Refugium peccatorum, ad impetrandum in aerumnis solacium, in aegritudine levamen, in peccatis robur, «os fiéis costumam invocá-la como Consoladora dos aflitos, Saúde dos enfermos, Refúgio dos pecadores, para alcançar consolo nas aflições, alívio na doença, força contra o pecado» (PAULO VI, 1974, n. 57, p. 164). A ladainha lauretana e a sua história estão em Santa Maria, porta do céu.

Referências

ÁLVAREZ CAMPOS, Sergio (org.). Corpus Marianum Patristicum. Burgos: Ediciones Aldecoa, 1970. v. 1.

BÍBLIA. Latim. The Holy Bible: Vulgate translation. [S. l.: s. n.], 2003. Edição eletrônica.

CALABUIG, Ignazio M. e PERRELLA, Salvatore M. Le litanie della Beata Vergine: storia, teologia, significato. Marianum, Roma, v. 70, n. 173-174, p. 103-202, 2008.

COLLECTIO Missarum de Beata Maria Virgine. Editio typica. [Città del Vaticano]: Libreria Editrice Vaticana, 1987. v. 1.

DE FIORES, Stefano. Maria, icona di salvezza e madre della salute. In: MARIA Madre della Salute e Icona di Salvezza: atti del convegno, Roma, 21-22 marzo 1994. [Roma]: Camillianum, [1994?]. (Quaderni di Camillianum, 7). p. 13-34.

PAULO VI. Adhortatio apostolica Marialis cultus. Acta Apostolicae Sedis, Cidade do Vaticano, v. 66, n. 3, p. 113-168, 31 mar. 1974.

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