Festa do Imaculado Coração de Maria: história, de 1648 a 1996

Por Prof. Dr. Daniel C. Afonso · Atualizado em
Mater eius conservabat omnia verba haec in corde suo.
«Sua mãe conservava todas estas palavras no seu coração» (Lc 2,51)
A memória do Imaculado Coração da Virgem Maria celebra-se no sábado seguinte à solenidade do Sagrado Coração de Jesus, isto é, no sábado depois do segundo domingo depois de Pentecostes. É memória obrigatória para toda a Igreja desde 1996. Por trás desta data há uma história de mais de três séculos, que passa por São João Eudes, por três papas, entre 1799 e 1855, pela consagração do mundo feita por Pio XII durante a Segunda Guerra Mundial e pela reforma do calendário depois do Concílio.
Do «Puríssimo Coração» à festa de Pio XII
A primeira celebração pública de uma festa do Coração de Maria foi em 8 de fevereiro de 1648, em Autun, com Missa e Ofício compostos por São João Eudes e aprovados pelo bispo da diocese (SARTOR, 1986, p. 453). A vida e a doutrina de Eudes estão em São João Eudes e o Imaculado Coração de Maria e em o «Coração admirável».
Roma aprovou a festa por etapas. Em 1799 Pio VI permitiu-a à diocese de Palermo (SARTOR, 1986, p. 454). Em 31 de agosto de 1805, Pio VII estendeu a faculdade de celebrá-la a todas as dioceses e congregações que a pedissem, mas com o formulário da festa de Nossa Senhora das Neves, adaptado. Em 21 de julho de 1855, Pio IX deu-lhe Missa e Ofício próprios (ALONSO, 1986, p. 449, SARTOR, 1986, p. 454). Nesse tempo a festa chamava-se do «Puríssimo Coração» de Maria (SACRA CONGREGATIO RITUUM, 1945, p. 50). A expressão «Imaculado Coração» só se tornou corrente depois da definição do dogma da Imaculada Conceição, em 1854 (ALONSO, 1986, p. 443).
1942-1944: a consagração e a festa universal
Em plena guerra, Pio XII consagrou a Igreja e todo o gênero humano ao Imaculado Coração de Maria, primeiro numa radiomensagem dirigida a Portugal em 31 de outubro de 1942, depois solenemente em 8 de dezembro do mesmo ano, na basílica de São Pedro (SARTOR, 1986, p. 454). Para guardar a memória desse ato estendeu a festa à Igreja inteira. O decreto da Sagrada Congregação dos Ritos de 4 de maio de 1944 recorda o caminho percorrido e explica a razão: Ut autem eiusdem consecrationis memoria servaretur, Festum Immaculati Cordis Beatae Mariae Virginis cum Officio et Missa propria, die 22 Augusti, loco diei Octavae Assumptionis eiusdem Beatae Mariae Virginis, sub ritu duplici secundae classis quotannis celebrandum, ad universam Ecclesiam extendere decrevit, «para que se guardasse a memória desta consagração, decidiu estender à Igreja universal a festa do Imaculado Coração da bem-aventurada Virgem Maria, com Ofício e Missa próprios, a celebrar todos os anos a 22 de agosto, no lugar do dia oitavo da Assunção, em rito duplo de segunda classe» (SACRA CONGREGATIO RITUUM, 1945, p. 51).
O mesmo decreto explica o sentido do culto: sob o símbolo do Coração, a Igreja venera Dei Genitricis eximiam singularemque animae sanctitatem, praesertim vero ardentissimum erga Deum ac Iesum Filium suum amorem, maternamque erga homines divino Sanguine redemptos pietatem, «a santidade excelsa e singular da alma da Mãe de Deus, sobretudo o seu amor ardentíssimo para com Deus e para com Jesus, seu Filho, e a sua piedade materna para com os homens resgatados pelo Sangue divino» (SACRA CONGREGATIO RITUUM, 1945, p. 50).
A coleta da festa de 1944, que o Missal de 1962 conserva, pedia: ut, eiusdem immaculati Cordis festivitatem devota mente recolentes, secundum Cor tuum vivere valeamus, «que, celebrando com devoção a festa do mesmo Coração Imaculado, possamos viver segundo o vosso Coração» (MISSALE ROMANUM, 1962, p. 633).
A reforma: do 22 de agosto ao sábado
Na reforma do calendário depois do Concílio, a celebração deixou o 22 de agosto e passou para o sábado seguinte à solenidade do Sagrado Coração de Jesus, como memória facultativa. O Nuovo dizionario di mariologia explica que se quis dar-lhe um lugar mais adequado, junto da festa do Coração de Jesus (SARTOR, 1986, p. 454). O Missal de Paulo VI conserva, quase à letra, o começo da coleta de 1944 e muda-lhe o pedido: Deus, qui in Corde beatae Mariae Virginis dignum Sancti Spiritus habitaculum praeparasti, concede propitius, ut, eiusdem Virginis intercessione, tuae gloriae templum inveniri mereamur, «Deus, que no Coração da bem-aventurada Virgem Maria preparastes uma digna morada do Espírito Santo, concedei, propício, que, pela intercessão da mesma Virgem, mereçamos ser achados templo da vossa glória» (MISSALE ROMANUM, 1977, p. 899). O Evangelho é o do menino Jesus encontrado no templo, que termina com as palavras Et mater eius conservabat omnia verba in corde suo, «E sua mãe conservava todas as palavras no seu coração» (Lc 2,41-51, MISSALE ROMANUM, 1977, p. 900).
1996: memória obrigatória
Em 1º de janeiro de 1996, a Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos tornou a memória obrigatória. O decreto recorda a consagração de Pio XII e a renovação feita por João Paulo II, e chama o Coração de Maria, Mãe da Igreja, de quodammodo «cor» mystici Corporis Christi, «de certo modo o “coração” do Corpo místico de Cristo». E conclui: a Congregação propôs ut celebratio liturgica Immaculati Cordis beatae Mariae Virginis obligatoria redderetur pro universa Ecclesia. Quod ipse Summus Pontifex Ioannes Paulus II approbavit, «que a celebração litúrgica do Imaculado Coração da bem-aventurada Virgem Maria se tornasse obrigatória para a Igreja universal, o que o próprio Sumo Pontífice João Paulo II aprovou» (CONGREGATIO DE CULTU DIVINO ET DISCIPLINA SACRAMENTORUM, 1999, p. 337-338).
Assim a liturgia une, num fim de semana, o Coração do Filho e o Coração da Mãe: na sexta-feira, a solenidade do Sagrado Coração de Jesus, no sábado, a memória do Coração de Maria, que guardava e meditava no coração as palavras e os acontecimentos da vida do Filho.
Referências
ALONSO, Joaquín María. Cuore immacolato, I-IV. In: DE FIORES, Stefano e MEO, Salvatore (org.). Nuovo dizionario di mariologia. 2. ed. Cinisello Balsamo: Edizioni Paoline, 1986. p. 443-453.
BÍBLIA. Latim. The Holy Bible: Vulgate translation. [S. l.: s. n.], 2003. Edição eletrônica.
CONGREGATIO DE CULTU DIVINO ET DISCIPLINA SACRAMENTORUM. Decretum de celebratione Immaculati Cordis beatae Mariae Virginis in Calendario Romano Generali, 1 ian. 1996. Marianum, Roma, v. 61, n. 155-156, p. 337-338, 1999.
MISSALE ROMANUM ex decreto SS. Concilii Tridentini restitutum Summorum Pontificum cura recognitum. Editio typica. Città del Vaticano: Typis Vaticanis, 1962. Reimpressão: Church Music Association of America, [s. d.].
MISSALE ROMANUM cum lectionibus ex decreto sacrosancti Oecumenici Concilii Vaticani II instauratum auctoritate Pauli PP. VI promulgatum. Editio iuxta typicam alteram. v. 3: Tempus per annum, hebdomadae VI-XXI. [Città del Vaticano]: Libreria Editrice Vaticana, 1977.
SACRA CONGREGATIO RITUUM. Officium et Missa pro festo Immaculati Cordis Beatae Mariae Virginis, 4 maii 1944. Acta Apostolicae Sedis, [Città del Vaticano], v. 37, p. 44-52, 1945.
SARTOR, Danilo. Cuore immacolato, V. In: DE FIORES, Stefano e MEO, Salvatore (org.). Nuovo dizionario di mariologia. 2. ed. Cinisello Balsamo: Edizioni Paoline, 1986. p. 453-455.
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