O Domingo de Páscoa é a maior solenidade do ano litúrgico. A antífona de entrada proclama com o Salmo 117(118): «Este é o dia que o Senhor fez: exultemos e alegremo-nos nele». A Missa deste dia articula-se em torno de três leituras que constroem, em camadas progressivas, a teologia da Ressurreição:
Nenhuma destas leituras menciona Maria explicitamente. E é precisamente aí que a mariologia pascal revela a sua necessidade.
O Diretório sobre a Piedade Popular e a Liturgia ensina: «a piedade popular intuiu que a associação do Filho à Mãe é constante: na hora da dor e da morte, e na hora da alegria e da ressurreição». Este princípio, associação constante, é a chave hermenêutica da leitura mariológica do Domingo de Páscoa. O que as leituras litúrgicas proclamam sobre Cristo, a mariologia lê na sua repercussão em Maria, figura e primícia da Igreja redimida.
Pedro proclama em Cesareia: «Vós sabeis o que aconteceu em toda a Judeia, começando pela Galileia, após o baptismo pregado por João: como Deus ungiu com o Espírito Santo e com poder a Jesus de Nazaré» (At 10,37-38). Este kerigma apostólico começa pela Galileia: começa onde Maria estava. A Galileia de que Pedro fala é a mesma Galileia da Anunciação (Lc 1,26), do casamento de Caná (Jo 2,1), do Magnificat. A Galileia é o território de Maria.
Pedro continua: «Deus ressuscitou-o ao terceiro dia e concedeu-lhe manifestar-se, não a todo o povo, mas a testemunhas previamente escolhidas por Deus» (At 10,40-41). A mariologia patrística e medieval, de São Ambrósio a Santo Anselmo, de Jorge de Nicomédia à tradição devocional aprovada pela Sé Apostólica, identificou Maria entre essas «testemunhas previamente escolhidas». Não como afirmação doutrinária definida, mas como consensus teológico de alta plausibilidade: era justo que a primeira a receber a alegria do mundo fosse aquela que havia atravessado o Sábado Santo na fé.
Paulo escreve: «Se ressuscitastes com Cristo, buscai as coisas do alto, onde Cristo está sentado à direita de Deus… Porque morrestes, e a vossa vida está oculta com Cristo em Deus» (Cl 3,1.3). Esta teologia da vida «oculta com Cristo em Deus» tem uma ressonância mariológica imediata: toda a vida de Maria foi uma vida «oculta». Ela foi a primeira a receber o Verbo encarnado num ventre virgem, a «guardar todas estas coisas no seu coração» (Lc 2,19.51), a seguir o Filho na sua missão pública «permanecendo fora» (Mc 3,31-32) para não interferir na sua hora.
A Ressurreição não rompe esta ocultação: revela a sua fecundidade. «Quando Cristo, que é a vossa vida, se manifestar, então também vós vos manifestareis com Ele em glória» (Cl 3,4). A Assunção de Maria, dogma proclamado por Pio XII em Munificentissimus Deus (1950), é a manifestação plena desta vida até então oculta. Na Assunção, Maria «se manifesta com Cristo em glória»: o que Cl 3,4 anuncia para todos os eleitos, ela já vive como primícia e figura.
O Evangelho de João narra a descoberta do sepulcro vazio: Maria de Magdala corre, Pedro e o discípulo amado correm, «os dois corriam juntos» (Jo 20,4). João chega primeiro, não entra; Pedro entra; e então João: «Entrou também o outro discípulo que chegara em primeiro lugar ao sepulcro, viu e acreditou» (Jo 20,8). O que viu? As «mortalhas no chão e o sudário que havia estado na cabeça de Jesus não com as mortalhas, mas dobrado num lugar à parte» (Jo 20,6-7).
A mariologia lê este episódio com um detalhe que a exegese raramente explicita: João havia estado debaixo da Cruz com Maria (Jo 19,26-27). O discípulo que «viu e acreditou» diante do sepulcro vazio é o mesmo que havia recebido Maria como mãe. A sua fé pascal é inseparável da companhia de Maria durante a noite do Sábado Santo. Ele «acreditou» porque Maria, naquela noite, havia mantido viva em si a fé que ele agora encontra confirmada pelas mortalhas dobradas.
A piedade popular pascal, que a Igreja recomenda e integra no Domingo de Páscoa, expressa em forma processional o que as leituras litúrgicas proclamam em forma kerygmática: «dois cortejos, um carregando a imagem da Mãe Dolorosa e o outro a do Cristo Ressuscitado, se encontram para significar que a Virgem foi a primeira e plena participante do mistério da ressurreição do Filho». Este exercício, o encontro do Ressuscitado com a Mãe, está aprovado pela Sé Apostólica e integra a celebração pascal de inúmeras comunidades.
No final da Vigília Pascal e nas Vésperas do Domingo, a Igreja substitui o Angelus pelo Regina Coeli: «Alegra-te, ó Rainha do Céu, aleluia; porque o que mereceste trazer em ti, aleluia, ressuscitou como disse, aleluia». Esta antífona, atribuída ao século XII, enriquecida pela piedade medieval e confirmada pelo Magistério, é a síntese mariológica do Domingo de Páscoa: a Mãe que havia gerado o Filho no ventre virgem é agora convidada a alegrar-se com a sua Ressurreição. O círculo pascal fecha-se: Encarnação e Ressurreição têm o mesmo rosto materno.
Neste Domingo de Páscoa de 2026, unimos a nossa voz à da Igreja inteira: Surrexit Dominus vere, alleluia. E acrescenta, com a tradição mais antiga: alegra-te, Rainha do Céu. Ele ressuscitou, como prometeu. Aquilo em que tu acreditaste no Sábado Santo, o mundo inteiro proclama hoje. Regina Coeli, laetare. Alleluia.
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