O caminho do discípulo passa pelo Calvário

Festa junto à Cruz, mas com horizonte pascal
O primeiro documento certo sobre o surgimento de uma festa litúrgica relativa à dor de Maria provém de uma Igreja local. Com efeito, em 22 de abril de 1423, um decreto do concílio provincial de Colónia introduzia naquela região a festa de Nossa Senhora das Dores como reparação pelos sacrilégios e ultrajes feitos pelos hussitas às imagens do Crucificado e da Virgem aos pés da cruz. A festa tinha por título Commemoratio angustiae et dolorum beatae Mariae virginis, segundo o teor do decreto conciliar, que dizia: «… Ordenamos e estabelecemos que a comemoração da angústia e das dores da bem-aventurada Virgem Maria, doravante, seja celebrada todos os anos na sexta-feira depois do domingo Jubilate (terceiro domingo depois da Páscoa), salvo se naquele dia ocorrer outra festa, caso em que será transferida para a sexta-feira imediatamente seguinte». Mais acima, o decreto fixava também o momento preciso a que a celebração se referia: «… Em honra da angústia e da dor que ela sofreu quando Jesus, com as mãos estendidas na cruz e imolado para a nossa salvação, confiou a bendita sua Mãe ao discípulo predileto». Além disso, o documento especificava que tal festa «será celebrada apenas em coro, com as primeiras vésperas, matinas e horas, e com as segundas vésperas, segundo as notas, a história e a homilia compostas para esta mesma festa», palavras que parecem aludir à existência de textos litúrgicos anteriores ao próprio concílio.
O que merece ser sublinhado é que se trata de uma festa centrada na cena do Calvário e na «recomendação» (commendatio) da Mãe feita por Jesus, na cruz, a João, e que, além disso, tal recordação ou comemoração era atribuída ao tempo pascal. Em 1482, o papa Sisto IV compunha e fazia inserir no Missal Romano, com o título «Nossa Senhora da Piedade», uma missa centrada no acontecimento salvífico de Maria aos pés da cruz. Em seguida, essa celebração difundia-se no Ocidente com várias denominações e em várias datas. Além da denominação estabelecida pelo concílio de Colónia e daquela fixada na missa de Sisto IV, ela era também chamada: «De transfixione seu martyrio cordis beatae Mariae», «De compassione beatae Mariae virginis», «De lamentatione Mariae», «De planctu beatae Mariae», «De spasmo atque doloribus Virginis», «De septem doloribus beatae Mariae virginis», etc.
Quanto à data, ela variava desde a sexta-feira depois do domingo in albis, ou o primeiro sábado depois da oitava da Páscoa, ou a sexta-feira depois do segundo domingo da Páscoa (sem esquecer a data fixada pelo concílio de Colónia, isto é, a sexta-feira depois do terceiro domingo da Páscoa) até à segunda-feira, ou sexta-feira, ou sábado depois do Domingo da Paixão. Em suma, no nome passa-se da commendatio aos septem dolores (isto é, da cena aos pés da cruz às diversas dores da vida de Maria) e, na data, do tempo pascal ao tempo quaresmal. Naturalmente, essas passagens acontecem lentamente, embora nos seja impossível seguir o seu desenvolvimento.
Em 18 de agosto de 1714, a Sagrada Congregação dos Ritos, a pedido do prior geral dos Servos de Maria, concedia que a «Comemoração solene das Sete dores da bem-aventurada Virgem Maria», já celebrada em algumas províncias por indulto especial, fosse estendida a toda a Ordem na sexta-feira da Paixão, com rito duplo maior. Em 22 de abril de 1727, Bento XIII, também a pedido da Ordem servita, estendia a festa das Sete dores de Maria a toda a Igreja latina e fixava-a segundo a data da Ordem, na sexta-feira depois do Domingo da Paixão. Assim se alcançava a unificação tanto do título como da data.
A referência às sete dores, causada pela referência, muito mais antiga, às sete alegrias de Maria, remonta ao século XIV, embora durante muito tempo tenha faltado uniformidade na determinação das dores singulares. Houve, de fato, vários agrupamentos, e o número sete, com o conteúdo que permaneceu até hoje, consolidou-se apenas por volta do final do século XV. A passagem da «Piedade» às «Sete dores» não ocorreu sem a influência da Ordem dos Servos de Maria, que, entretanto, tinha delineado outra festa sobre as dores de Maria em setembro, a fim de favorecer os grupos leigos.
Com efeito, por volta de 1500, era costume realizar junto às igrejas dos Servos de Maria uma reunião dos inscritos na «Companhia do hábito das sete dores», no terceiro domingo de cada mês. Um século depois, começou-se a tornar mais solene uma dessas reuniões com procissão, escolhendo-se o terceiro domingo de setembro. A Santa Sé, em 9 de junho de 1668, autorizava a Ordem a celebrar solenemente essa festa das Sete dores no terceiro domingo de setembro. Mais ainda, a pedido do procurador geral, Clemente XI, com a bula Iniunctae nobis, concedia indulgência plenária a todos os que tivessem visitado, no terceiro domingo de setembro, uma igreja dos Servos.
A pedido de Filipe V, a festa das Sete dores de setembro foi estendida, em 17 de setembro de 1735, a todos os domínios da Espanha. Em 18 de setembro de 1814, Pio VII, muito devoto de Nossa Senhora das Dores, em memória dos sofrimentos infligidos por Napoleão à Igreja na pessoa do seu chefe, estendia-a a toda a Igreja latina, com os textos do ofício e da missa já em uso entre os Servos de Maria. Com a reforma litúrgica de Pio X, que queria realçar o domingo, essa festa de setembro, em 1913, deixou de ser móvel e foi fixada em 15 de setembro, dia em que era celebrada no rito ambrosiano, que já festejava as Sete dores no dia da oitava da Natividade de Maria.
Quanto à festa da sexta-feira da Paixão, ela foi reduzida a simples comemoração pela reforma rubrical de 1960. De resto, tratava-se de duas festas idênticas no título e com textos de missa iguais, exceto a coleta. O novo Calendário de 1969, além de suprimir totalmente a comemoração do tempo da Paixão e reduzir o grau da celebração de 15 de setembro a simples «memória», mudou também o título da festa (Bem-aventurada Virgem Maria das Dores). Não se faz a memória específica das «Sete dores», mas deseja-se contemplar «a dor» de Maria de maneira global.
Pode-se concordar com essa última mudança, embora nos pareça que teria sido mais eficaz passar de «Nossa Senhora das Dores» (quase fruto de uma piedade devocional) para «Maria junto à cruz» (evidente «acontecimento salvífico» e, portanto, passível de uma celebração memorial). Considerando que todas as manifestações mais antigas do culto litúrgico a Nossa Senhora das Dores, além de se referirem a Jo 19, 25-27, pertencem também ao tempo quaresmal pascal, perguntamo-nos se não teria sido o caso de privilegiar, não a festa de setembro, mas a da Paixão (entrada no Calendário romano um século antes), preenchendo assim uma lacuna quanto à presença explícita de Maria durante o tempo da celebração do mistério pascal.
Assim, como o estudo das fontes antigas levou à recuperação da solenidade da Mãe de Deus inserida no ciclo natalino, o mesmo estudo teria conduzido à recuperação de uma festa da «compaixão» da Virgem a ser inserida no ciclo pascal. Aliás, parece-nos que não apenas os acontecimentos históricos recordados, mas também a Marialis cultus está mais do nosso lado. De fato, o documento papal, antes de tudo, enumera essa festa entre «as celebrações que comemoram acontecimentos salvíficos, nos quais a Virgem esteve estreitamente associada ao Filho» e que comportam o grau litúrgico de «festa». Em seguida, indica o seu conteúdo, dizendo que «a memória da Virgem das Dores é uma ocasião propícia para reviver um momento decisivo da história da salvação e para venerar a Mãe associada à paixão do Filho e próxima dele, elevado sobre a cruz» (Marialis cultus 7).
Este é o verdadeiro conteúdo da festa, isto é, a presença efetiva de Maria no momento culminante da redenção, e é precisamente isso que os textos litúrgicos do dia evidenciam. Ora, ao fato histórico salvífico deve corresponder a sua celebração mistérica ao longo do ano litúrgico: por que separar, na celebração, aquilo que aconteceu conjuntamente na história da salvação? Se se pôde escrever: «Apesar de todas as adaptações, não é fácil encontrar uma justificação para a dor de Maria na liturgia: o tema em si, tal como foi pensado na piedade ou na devoção, assume um aspeto eminentemente pessoal, de devoção privada, e não de liturgia», isso aconteceu por se deter no apelativo «Nossa Senhora das Dores», quase fruto de um sentimentalismo piedoso, e por não considerar devidamente o conteúdo da festa, centrado em Jo 19, 25-27 e tão bem posto em relevo no capítulo VIII da Lumen gentium do Vaticano II (cf. Lumen gentium 58 e 61). Se a celebração se tivesse colocado no ciclo pascal, teria sido mais imediato perceber toda a sua densidade mistérica. Infelizmente, assim, ela traz as cicatrizes das lacerações históricas entre devoções e liturgia, à espera de melhores soluções, mais pascais.
Do mistério celebrado ao mistério vivido
Os textos litúrgicos da celebração de 15 de setembro tiveram melhor fortuna, porque, na maior parte, tratam-se de formulários novos, ainda que colhidos de diversas fontes e oportunamente adaptados. Aliás, essa ampla substituição torna-se um claro indício de que se quis introduzir, na memória de Nossa Senhora das Dores, uma verdadeira correção: de uma leitura predominantemente devocional sentimental, tenta-se chegar a uma leitura misterial vital da participação de Maria na paixão do Filho. Procuremos, brevemente, percebê-la.
a) O núcleo mariano da festa, em dependência do mistério de Cristo
Antes de tudo, põe-se em evidência o conteúdo mariano da festa, com dependências claras do mistério de Cristo. Parece-nos que é a coleta da missa (que tem precisamente o objetivo de «expressar a índole da celebração») que focaliza o tema central: «Ó Deus, tu quiseste que, junto do teu Filho, elevado sobre a cruz, estivesse presente a sua Mãe sofredora». Refere-se, isto é, ao fato culminante da nossa redenção, ao acontecimento salvífico do Calvário, para afirmar que ele tem dois sujeitos: junto de Cristo, sua Mãe. Infelizmente, o texto italiano traduz de modo fraco a expressão latina compatientem Matrem astare voluisti, onde é mais explícito que Maria não apenas «esteve presente», mas também «foi com-padecente» (de paticum, sofrer junto) com Cristo, colaborando de modo efetivo na sua obra redentora.
Também a expressão compassionem b. v. M. recolentes da oração depois da comunhão é vertida como «na memória da bem-aventurada Virgem das Dores». Parece-nos, de fato, que o termo «das Dores» não exprime bem toda a amplitude da «com-paixão» e a enfraquece num sentimento genérico e vago. Tudo isso tem fundamento na constituição sobre a Igreja do concílio Vaticano II (à qual o nosso texto parece remeter), que afirma: «Maria, sofrendo com o Filho seu, morrendo na cruz, cooperou de modo todo especial na obra do Salvador» (Lumen gentium 61).
Mais ainda, isso acontece por vontade do Pai («Ó Deus, tu quiseste»): o Filho que morre na cruz e a Mãe que participa desse sofrimento constituem um ato de obediência à vontade do Pai, em linha direta com todo o seu plano salvífico. Aquilo que celebramos não é uma circunstância secundária da vida de Jesus e de Maria, mas algo que está no centro dos desígnios de Deus Pai, porque, como diz o mesmo concílio: «Maria, não sem desígnio divino, esteve junto à cruz, sofrendo profundamente com o seu Unigénito e associando-se, com ânimo materno, ao sacrifício dele, consentindo amorosamente na imolação da vítima por ela gerada» (Lumen gentium 58).
À «paixão» de Cristo corresponde a «com-paixão» de Maria: se o Filho é «o homem das dores» (cf. Is 53, 3), sua Mãe torna-se «a mulher das dores»; se ele é o «Servo de JHWH» sofredor, ela torna-se a «Serva do Senhor» (cf. Lc 1, 38), sofredora. Este é o núcleo central do mistério celebrado.
Ora, os dois trechos do Evangelho do dia ( Lc 2, 33-35 e Jo 19, 25-27 ) recordam o fato histórico que a coleta apreendeu como acontecimento de salvação: o primeiro, em forma de profecia; o segundo, em forma de plena realização. De fato, «a espada», que Simeão prediz a Maria, acompanhará toda a sua vida, mas encontrará cumprimento sobretudo na «hora» do Calvário. E é precisamente o Evangelho de João que evidencia aquilo que a oração sobre as oferendas afirmará: Maria «foi-nos dada como Mãe dulcíssima junto à cruz de Cristo».
A sua «com-paixão», definida pela aclamação ao Evangelho como um verdadeiro martírio («Bem-aventurada a Virgem Maria, porque, sem morrer, mereceu, sob a cruz, a palma do martírio»), torna-a colaboradora do Filho que, segundo a primeira leitura ( Hb 5, 7-9 ), com a sua morte «tornou-se causa de salvação eterna para todos os que lhe obedecem». Com a sua dor, também Maria, até então apenas Mãe de Jesus, torna-se nossa Mãe, Mãe de todos os fiéis e de todos os homens chamados à salvação.
Os exegetas observam que, estruturalmente, a cena descrita por Jo 19, 25-27 sublinha uma transferência de pertença: a mulher que até então era «a mãe de Jesus» será doravante, por vontade do próprio Jesus, «a mãe do discípulo». Com o título «mulher» que Jesus usa na cruz, ele constitui sua mãe na função de nova Eva, de nova «mãe dos viventes». Diz o concílio Vaticano II: «Com razão os santos Padres consideram que Maria, obedecendo, se tornou causa de salvação para si e para todo o género humano. Por isso, não poucos Padres antigos, na sua pregação, afirmam com Irineu que o nó da desobediência de Eva foi desatado pela obediência de Maria: aquilo que a virgem Eva atou com a sua incredulidade, a virgem Maria desatou com a sua fé; e, comparando-a com Eva, chamam Maria “mãe dos viventes”, afirmando muitas vezes: “a morte por meio de Eva, a vida por meio de Maria”» (Lumen gentium 56).
Mais adiante, o mesmo concílio afirma de modo peremptório que Maria «sofrendo com o Filho seu, morrendo na cruz, cooperou de modo todo especial na obra do Salvador, com a obediência, a fé, a esperança e a caridade ardente, para restaurar a vida sobrenatural das almas. Por isso, foi para nós mãe na ordem da graça» (Lumen gentium 61). Essa maternidade espiritual, mas real, conquistada por Maria, como toda maternidade, na dor, é a consequência do mistério central celebrado e abre caminho para outro conjunto de considerações.
b) Do evento à Igreja, do mistério celebrado ao mistério vivido
Passando, portanto, à nossa implicação na celebração, recordemos que a cena de Jo 19, 25-27 tem também um altíssimo valor eclesiológico. De fato, as duas pessoas presentes junto à cruz têm, ambas, embora de modo diverso, uma relação com a Igreja: a mãe de Jesus torna-se a mãe do discípulo e de todos os discípulos (e, nesse sentido, pode-se dizer que aqui se torna a mãe da Igreja); por sua vez, o discípulo amado representa todos os discípulos de Cristo, os fiéis da Igreja.
O último ato de Jesus, antes de morrer, foi formar o povo messiânico, fundar a Igreja, nas pessoas de sua Mãe e do seu discípulo amado. Ora, os textos litúrgicos se referem precisamente também à Igreja, a nós que celebramos este mistério, pedindo ao Pai que dele colhamos os frutos: «Fazei que a vossa santa Igreja, associada com Maria à paixão de Cristo, participe da glória da ressurreição» (coleta). Trata-se de um pedido essencial e vital: participar da paixão de Cristo como aquela que é mãe e imagem da Igreja, desejando ardentemente alcançar, como ela alcançou, a glorificação final.
Em suma, pede-se ser associado, como Maria, a todo o mistério pascal de Cristo, segundo a exortação da antífona da comunhão: «Na medida em que participais dos sofrimentos de Cristo, alegrai-vos, para que também na revelação da sua glória possais alegrar-vos e exultar». Para quantos foram batizados na morte e ressurreição do Senhor, este é o modo de reviver o próprio batismo, e a celebração da Eucaristia, presença memorial do mistério pascal, é penhor de êxito.
A isso tendem também as petições da Liturgia das Horas: «Nosso Salvador, que quisestes a vossa Mãe aos pés da cruz, unida à oferta do sacrifício, fazei que participemos, por sua intercessão, do mistério da vossa paixão e da vossa glória»; «Jesus bom, que, enquanto pendíeis da cruz, destes por mãe a João a Virgem sofredora, concedei-nos a graça de viver como seus verdadeiros filhos» (intercessões em Laudes); «Tornastes forte Maria aos pés da cruz e a enchestes de alegria na ressurreição do vosso Filho: sustentai-nos nas provas da vida e fortalecei-nos na esperança» (intercessões em Vésperas).
Conclusão
O percurso histórico da festa de Nossa Senhora das Dores, com as suas variações de título e de data, revela uma tensão real: por um lado, a tendência a deslocar o olhar do evento pascal, concentrado na commendatio da Mãe ao discípulo, para uma leitura mais fragmentada e devocional dos septem dolores; por outro, a necessidade, sempre reaparecente, de reconduzir a dor de Maria ao seu lugar teológico próprio, isto é, ao Calvário como acontecimento salvífico. Quando a celebração se fixa em setembro, corre-se o risco de separar, no ritmo do ano litúrgico, aquilo que na história da salvação se deu de modo unitário: a paixão do Filho e a com-paixão da Mãe. A memória pode, então, perder densidade mistérica e tornar-se mais facilmente objeto de piedade privada, sem se impor, por sua própria estrutura, como participação eclesial no mistério pascal.
A reforma litúrgica, ao preferir contemplar «a dor» de Maria de forma global, abre uma possibilidade importante: libertar a celebração de um sentimentalismo estreito e recuperar o núcleo essencial, que é a presença efetiva de Maria junto ao Filho elevado na cruz, em obediência ao desígnio do Pai. No entanto, essa recuperação será tanto mais fecunda quanto mais explicitamente se deixar conduzir pelo dado evangélico que sustenta a festa: (Jo 19, 25-27). Ali, a Igreja vê, simultaneamente, a consumação da obra redentora e a constituição de um vínculo novo, real e permanente, entre Maria e os discípulos. A dor de Maria não é apenas uma dor “sobre” Cristo, mas uma dor “com” Cristo, uma participação que, sem confundir-se com a ação única do Redentor, é assumida como cooperação materna no plano da salvação, conforme a leitura eclesial proposta por Lumen gentium (Lumen gentium 58 e 61).
Daqui decorre o ponto decisivo: a celebração litúrgica não se limita a recordar um passado, mas permite passar do mistério celebrado ao mistério vivido. A Igreja, associada com Maria, é chamada a entrar no mesmo dinamismo pascal: sofrer com Cristo para com Cristo ressuscitar, atravessar a prova na esperança, e receber, como dom, a maternidade espiritual de Maria como princípio de pertença e de comunhão eclesial. Por isso, quando a liturgia pede que a Igreja, unida a Maria, participe da glória da ressurreição, ela não faz um ornamento mariano do culto, mas indica um itinerário discipular: o caminho do discípulo passa pelo Calvário, e o Calvário só se compreende plenamente a partir da Páscoa.
Em síntese, a festa de Nossa Senhora das Dores atinge a sua verdade quando é lida no seu horizonte pascal e no seu alcance eclesiológico. O Calvário não é apenas o lugar do sofrimento, mas o lugar da fundação: nele se manifesta, de modo extremo, o amor obediente do Filho e o consentimento materno da Mãe; nele a Igreja nasce simbolicamente, na relação entre «a Mãe» e «o discípulo amado»; nele o fiel aprende que a dor, quando atravessada na fé, não conduz ao fechamento, mas à fecundidade. Assim, reencontrar uma colocação mais pascal, explícita e mistérica para a memória de Maria junto à cruz não é um detalhe rubrical, mas uma chave pastoral e espiritual: devolver à celebração a sua força de formar discípulos que, com Maria, permanecem junto à cruz e, com ela, aprendem a esperar a alegria da ressurreição.
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