Maria nas bodas de Caná: sinal, glória e fé no quarto Evangelho

Por Prof. Dr. Daniel C. Afonso · Atualizado em
Hoc fecit initium signorum Iesus in Cana Galilaeae et manifestavit gloriam suam et crediderunt in eum discipuli eius.
«Assim, em Caná da Galileia, Jesus deu início aos sinais, manifestou a sua glória, e os seus discípulos creram nele» (Jo 2,11)
O quarto Evangelho fala pouco da mãe de Jesus. Ela aparece em Caná, no começo da vida pública (Jo 2,1-12), e junto da cruz, no fim (Jo 19,25-27), e os judeus a mencionam uma vez ao dizer que conhecem o pai e a mãe de Jesus (Jo 6,42). Alberto Valentini, que estudou longamente estas páginas, observa que, no Evangelho, «a quantidade é inversamente proporcional à qualidade»: Maria é colocada no início e no fim do Evangelho, como fiel e como mãe (VALENTINI, 2009, p. 186). É desse lugar, que João lhe reserva, que se deve ler o episódio de Caná. O comentário versículo a versículo está em Bodas de Caná (Jo 2,1-12).
Sinal, glória e fé
O evangelista resume o episódio numa frase: Jesus fez em Caná o initium signorum, em grego ἀρχὴν τῶν σημείων, manifestou a sua glória, e os discípulos creram nele (Jo 2,11). Para Valentini, essa ἀρχή não é apenas o primeiro de uma série: é o princípio, o modelo dos sinais que se seguirão. Os três termos dizem o movimento de todo o Evangelho, em que o sinal deixa ver a glória e quem a contempla chega a crer (VALENTINI, 2009, p. 188). Em 1999, o mesmo autor notara um detalhe: o quarto Evangelho nunca usa o substantivo «fé», só o verbo «crer», e tirava daí que, para João, crer é sempre um movimento pessoal em direção a Jesus (VALENTINI, 1999, p. 5, nota 1).
Para Valentini, a glória que Jesus manifesta em Caná é a que o Filho tinha junto do Pai antes da criação do mundo, claritatem quam habui priusquam mundus esset apud te (Jo 17,5). O mesmo autor vê em Caná também um anúncio da glória pascal (VALENTINI, 2009, p. 188). Ignace de la Potterie discorda: parece-lhe anacrônico ver na glória de Jo 2,11 uma referência ao mistério pascal, porque se está apenas no começo da vida pública e o Evangelho tem uma progressão que não se pode ignorar (LA POTTERIE, 2023, cap. 5, nota 14).
A semana inaugural
Caná não está isolado. João abre o seu relato com uma sequência de dias numerados: «no dia seguinte» (Jo 1,29.35.43) e, por fim, «no terceiro dia» (Jo 2,1). La Potterie retoma a expressão «semana inaugural», que alguns exegetas usam para esses dias. Nela, primeiro algumas pessoas seguem Jesus uma a uma e, em Caná, são chamadas em conjunto «os discípulos». Caná é o ponto culminante dessa primeira seção do Evangelho (LA POTTERIE, 2023, cap. 5, 2.2). A expressão «no terceiro dia» lembrava a Valentini o terceiro dia em que Israel recebeu a Lei no Sinai e prometeu fidelidade à aliança (cf. Ex 19,10-11.16, 24,7) e, ao mesmo tempo, a ressurreição (VALENTINI, 1999, p. 5). La Potterie, sem discutir o eco do Sinai, chama a atenção para a função da fórmula, que em geral liga o episódio ao que vem antes (LA POTTERIE, 2023, cap. 5, nota 21).
De mãe a discípula
Em Caná, a mãe de Jesus começa por falar num plano humano: «Não têm vinho» (Jo 2,3). Valentini observa que é o que acontece com outros personagens do quarto Evangelho, que Jesus leva de um plano humano a um plano mais alto (VALENTINI, 2009, p. 189). Jesus responde chamando-a «Mulher» (Jo 2,4). La Potterie sublinha que na Antiguidade semítica e greco-latina não se encontra nenhum caso de um filho que chame assim a própria mãe, embora o termo seja normal para outras mulheres, como a samaritana (Jo 4,21) (LA POTTERIE, 2023, cap. 5, 1.2). Com esse título, Jesus já não se põe numa relação apenas familiar, mas fala como o Messias diante da «Mulher» na economia da salvação (LA POTTERIE, 2023, cap. 5, 4.2).
A frase sobre a hora divide os exegetas. Lida como afirmação, «a minha hora ainda não chegou» aponta para a hora da paixão e da glorificação, e forma com «Pai, chegou a hora» (Jo 17,1) uma tensão que atravessa todo o Evangelho (VALENTINI, 1999, p. 6-7). La Potterie, com Albert Vanhoye, lê-a como pergunta, «a minha hora não chegou?», e entende que a hora que começa em Caná é a da manifestação messiânica, que se completa na cruz e na ressurreição (LA POTTERIE, 2023, cap. 5, 4.2).
As últimas palavras de Maria no Evangelho são para os servos: «Fazei tudo o que ele vos disser» (Jo 2,5). Ecoam a resposta de Israel no Sinai, omnia quae locutus est Dominus faciemus et erimus oboedientes, «tudo o que o Senhor disse faremos e obedeceremos» (Ex 24,7). La Potterie, seguindo Aristide Serra, julga essa ligação com a aliança muito mais sólida do que a aproximação com Gn 41,55, e observa que, ao usar a fórmula da aliança, Maria personifica de algum modo o povo de Israel (LA POTTERIE, 2023, cap. 5, 4.3). Para Valentini, por essa fé obediente, a mãe de Jesus é la prima dei discepoli del Signore, «a primeira dos discípulos do Senhor» (VALENTINI, 1999, p. 8). O Concílio, ao falar do sim da Anunciação, descreve a mesma atitude: Maria semetipsam ut Domini ancillam personae et operi Filii sui totaliter devovit, «consagrou-se totalmente, como serva do Senhor, à pessoa e à obra do seu Filho» (CONCÍLIO VATICANO II, 1965, p. 60, LG 56).
O esposo e o vinho
Neste casamento, o noivo só aparece quando o mestre-sala o chama, e da noiva não se diz uma palavra (LA POTTERIE, 2023, cap. 5, 1.2). O mestre-sala o elogia por ter guardado o vinho bom até agora (Jo 2,10). La Potterie conclui que o verdadeiro esposo do episódio é Jesus, e lembra que no capítulo seguinte João Batista se chama a si mesmo amicus sponsi, «o amigo do esposo» (Jo 3,29) (LA POTTERIE, 2023, cap. 5, 5.1.3). O mestre-sala não sabia de onde vinha o vinho, mas os servos sabiam (Jo 2,9). O «de onde» volta várias vezes no Evangelho a propósito de Jesus: «deste sabemos de onde é» (Jo 7,27), «deste não sabemos de onde é» (Jo 9,29), e Pilatos lhe pergunta «de onde és tu?» (Jo 19,9). Valentini liga este motivo ao vinho de Caná: o mundo não sabe de onde vem Jesus, os servos que obedeceram à sua palavra sabem (VALENTINI, 2009, p. 191).
O vinho também se presta a leituras diferentes. Valentini vê nele os tempos messiânicos e o próprio Cristo, e uma evocação dos gestos em que Jesus se dará como alimento (cf. Jo 6,55) (VALENTINI, 2009, p. 190-191). La Potterie julga muito provável que esse vinho não tenha nada a ver com o vinho eucarístico: é o vinho dos bens messiânicos, e lembra que essa é a exegese tradicional, já presente em Santo Agostinho, para quem o vinho bom é o Evangelho (LA POTTERIE, 2023, cap. 5, 5.1.2).
Caná e a cruz
Valentini lê as duas cenas marianas de João como um díptico. Junto da cruz reaparecem Jesus e a sua mãe, e o grupo dos discípulos fica condensado numa só figura, o discípulo amado. Em nenhuma das cenas o evangelista diz o nome de Maria, que é a mãe de Jesus e, na boca do Filho, «mulher» (Jo 2,4, 19,26). A hora que em Caná ainda não tinha chegado é a que se cumpre no Calvário. As duas cenas desembocam na mesma fórmula, «depois disto» (Jo 2,12, 19,28), que Valentini lê como consequência e não só como sucessão, leitura que os gramáticos discutem, como ele mesmo reconhece em nota (VALENTINI, 2009, p. 192-193). Há também um contraste: a mulher que em Caná tomou a palavra fica em silêncio junto da cruz e, ainda assim, ocupa o centro da cena (VALENTINI, 2009, p. 194). Para ele, o que em Caná era o começo dos sinais encontra na cruz o seu sinal maior, onde a glória se revela e a fé dos discípulos se firma (VALENTINI, 2009, p. 193).
Referências
BÍBLIA. Latim. The Holy Bible: Vulgate translation. [S. l.: s. n.], 2003. Arquivo PDF. Jo 2,11, 3,29, 7,27, 9,29, 17,1.5, Ex 24,7.
CONCÍLIO VATICANO II. Constitutio dogmatica Lumen gentium, n. 56. Acta Apostolicae Sedis, Cidade do Vaticano, v. 57, p. 60, 1965.
LA POTTERIE, Ignace de. Maria nel mistero dell’alleanza. Tradução de Fabrizio Tosolini. 3. ed. Bologna: EDB, 2023. E-book. Cap. 5, Il mistero delle nozze.
VALENTINI, Alberto. Il «segno» di Cana. Theotokos, Roma, v. 7, n. 1, p. 3-8, 1999.
VALENTINI, Alberto. Maria nei racconti dell’infanzia e nel quarto vangelo. In: TONIOLO, Ermanno M. (org.). Maria nel cuore della Parola di Dio donata accolta trasmessa. Roma: Centro di Cultura Mariana «Madre della Chiesa», 2009. p. 181-198.
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