Maria fecundada pela Palavra que escutou

Por Prof. Dr. Daniel C. Afonso · Atualizado em
Quia per aurem Evae intraverat mors, per aurem Mariae intravit vita.
«Como a morte tinha entrado pelo ouvido de Eva, a vida entrou pelo ouvido de Maria» (Santo Efrém, Comentário ao Diatessaron XX,32, versão armênia, na tradução latina de Louis Leloir)
São Paulo escreve que «a fé vem da escuta» (Rm 10,17), e a tradição da Igreja ensina que Maria concebeu o Filho pela fé. Juntando as duas afirmações, o mariólogo italiano Michele Giulio Masciarelli resume: Maria ha concepito credendo, dunque ascoltando, «concebeu acreditando, e portanto escutando», porque dalla Parola ascoltata è sorta la fede con cui ha generato il Cristo, «da Palavra escutada nasceu a fé com que gerou Cristo» (MASCIARELLI, 2009, p. 217). A escuta não é em Maria uma virtude entre outras. É o caminho pelo qual Deus a tornou mãe.
Concebeu pela fé
A ideia vem de Santo Agostinho. Num sermão sobre o Símbolo, diz da Virgem: Nam et ipsa beata Maria, quem credendo peperit, credendo concepit, «também a bem-aventurada Maria deu à luz acreditando aquele que acreditando concebeu» (AGOSTINHO, Sermo 215,4, PL 38, 1074). João Paulo II retomou a fórmula dos Padres na encíclica Redemptoris Mater: Hunc autem Filium concepit, sicut Patres docent, prius in mente, quam in utero: per ipsam fidem, «concebeu este Filho, como ensinam os Padres, primeiro na mente e depois no seio, precisamente pela fé» (RM 13, AAS 79, 1987, p. 376).
Antes de ser seio que acolhe, Maria foi ouvido que acolhe. O anjo fala, ela pergunta, escuta a resposta e consente: «Faça-se em mim segundo a tua palavra» (Lc 1,38).
A vida que entrou pelo ouvido
Os Padres traduziram esta verdade numa imagem. Como a serpente tinha seduzido Eva falando-lhe ao ouvido, a salvação começou com a palavra do anjo ao ouvido de Maria. Santo Efrém, no Comentário ao Diatessaron, num passo que só a versão armênia conserva, escreve, na tradução latina de Louis Leloir: Quia per aurem Evae intraverat mors, per aurem Mariae intravit vita. Et quia debita per lignum contraxerat homo, etiam ille, quando venit, per lignum solvit ea, «como a morte tinha entrado pelo ouvido de Eva, a vida entrou pelo ouvido de Maria. E como o homem tinha contraído dívidas pelo lenho, também Ele, quando veio, as pagou pelo lenho» (EFRÉM, XX,32, CSCO 145, p. 218, em ÁLVAREZ CAMPOS, 1970, v. 2, p. 535, n. 1445, cf. SC 121, p. 366-367). O contexto é a Cruz, e a frase é um paralelo entre Eva e Maria.
São Zenão de Verona usa a mesma imagem: Et quia suasione per aurem irrepens diabolus, Evam vulnerans interemerat, per aurem intrans Christus in Mariam, universa cordis desecat vitia, «e como o diabo, insinuando-se pelo ouvido com a sua persuasão, ferira e matara Eva, Cristo, entrando em Maria pelo ouvido, corta todos os vícios do coração» (ZENÃO, Tractatus I,13,10, PL 11, 352). E São Gaudêncio de Bréscia, num sermão de Natal, sublinha que é um só o Filho de Deus e o Filho do homem, quia non alius ex Maria natus est, quam qui per maternas illapsus aures, uterum Virginis opplevit, «porque de Maria não nasceu outro senão aquele que, entrando pelos ouvidos da mãe, encheu o seio da Virgem» (GAUDÊNCIO, Sermo 13,5, PL 20, 934).
A fórmula latina conceptio per aurem, «concepção pelo ouvido», resume uma ideia que Stefano De Fiores encontra dita às claras na redação armênia do apócrifo Evangelho da infância, em que o Verbo de Deus penetra em Maria pelo ouvido. Pelo Pseudo-Efrém, por Proclo, por Zenão e por Agostinho, diz ele, a imagem passou à exegese medieval, à arte, à liturgia e às tradições populares. Tomada à letra, poderia sugerir um sentido mítico. Na verdade, explica De Fiores, é uma forma concreta de dizer o que o Evangelho narra, Maria que concebe ao dar ouvidos ao anjo, e ilustra a ideia agostiniana da concepção pela fé (DE FIORES, 1986, p. 1461). A partir do século XII, os artistas representam na Anunciação um raio divino que desce do céu até o ouvido de Maria (COTHENET, 1961, p. 96).
A escuta que guarda
A escuta de Maria não terminou na Anunciação. Lucas diz duas vezes que ela guardava os acontecimentos e as palavras no coração: «Maria guardava todas essas coisas, meditando-as no seu coração» (Lc 2,19, cf. 2,51). Masciarelli fala de uma memória ativa, que Maria exerce sobretudo na hora da prova, e chama a Virgem de mulher dal cuore memore e sapiente, «de coração memorioso e sábio» (MASCIARELLI, 2009, p. 219-220).
Maria era filha de um povo educado para escutar. O mandamento central de Israel começa assim: «Escuta, Israel» (Dt 6,4). E Jesus diz: «Quem é de Deus ouve as palavras de Deus» (Jo 8,47). Os profetas tinham censurado o povo por não escutar (Jr 7,13), de ouvidos fechados, «incircuncisos» (Jr 6,10, cf. MASCIARELLI, 2009, p. 219). Em Maria, a escuta que Deus esperava do seu povo chega à plenitude.
Por isso o próprio Jesus, quando uma mulher bendiz o ventre que o trouxe, desloca o elogio: «Felizes, antes, os que ouvem a palavra de Deus e a guardam» (Lc 11,28). João Paulo II pergunta: Nonne enim Maria prima eminet inter eos «qui verbum Dei audiunt et faciunt»?, «não é Maria a primeira entre os que “ouvem a palavra de Deus e a praticam”?» (RM 20, AAS 79, 1987, p. 386, cf. Lc 8,21).
Etapas de uma vida à escuta
Masciarelli lê toda a vida de Maria como um caminho de escuta e retoma uma fórmula sua de 1993: a Virgem que crê é modelo para a Igreja di come si accoglie la Parola (annunciazione), di come la si genera (Natività), di come la si presenta al mondo (Epifania), di come la si conserva dentro di sé (vita di Nazaret), di come le si crede (Cana), di come la si diffonde (Visitazione), di come le si è fedeli (Croce), di come la si testimonia (Pentecoste), «de como se acolhe a Palavra (Anunciação), de como se gera (Natal), de como se apresenta ao mundo (Epifania), de como se guarda dentro de si (vida de Nazaré), de como se lhe dá fé (Caná), de como se difunde (Visitação), de como se lhe é fiel (Cruz), de como se testemunha (Pentecostes)» (MASCIARELLI, 2009, p. 220). Para o autor, cada etapa aprofunda a intimidade de Maria com Deus e dá à sua escuta um rosto novo.
Bento XVI, na exortação Verbum Domini, dedica a Maria uma seção com o título Maria «Mater Verbi Dei» et «Mater fidei», «Maria, Mãe do Verbo de Deus e Mãe da fé», e a apresenta como modelo da Igreja que escuta: Ipsa figura est Ecclesiae in auditione Verbi Dei, quod in ea caro efficitur, «ela é figura da Igreja na escuta da Palavra de Deus, que nela se faz carne», e acrescenta que Maria é símbolo da abertura a Deus e aos outros, ela que é auditio ativa, quae in interius perducit, assimilat, in qua Verbum fit forma vitae, «escuta ativa, que interioriza e assimila, em que a Palavra se torna forma de vida» (VD 27, AAS 102, 2010, p. 706). Maria ensina que escutar não é passividade. É deixar que a Palavra se faça carne na própria vida.
Referências
AGOSTINHO. Sermo 215. In: MIGNE, J.-P. (ed.). Patrologia Latina. t. 38. Paris: Migne, 1845. col. 1074.
ÁLVAREZ CAMPOS, Sergio (ed.). Corpus Marianum Patristicum. v. 2. Burgos: Aldecoa, 1970.
BENTO XVI. Adhortatio apostolica postsynodalis Verbum Domini. Acta Apostolicae Sedis, Cidade do Vaticano, v. 102, p. 681-787, 2010.
COTHENET, É. Marie dans les apocryphes. In: DU MANOIR, Hubert (dir.). Maria: études sur la Sainte Vierge. Paris: Beauchesne, 1961. t. 6, p. 71-156.
DE FIORES, Stefano. Vergine: III. Tradizione ecclesiale. In: DE FIORES, Stefano e MEO, Salvatore (org.). Nuovo Dizionario di Mariologia. 2. ed. Cinisello Balsamo: Edizioni Paoline, 1986. p. 1454-1469.
EFRÉM DA SÍRIA. Commentaire de l’Évangile concordant ou Diatessaron. Trad. Louis Leloir. Paris: Cerf, 1966. (Sources Chrétiennes, 121).
GAUDÊNCIO DE BRÉSCIA. Sermo 13. In: MIGNE, J.-P. (ed.). Patrologia Latina. t. 20. Paris: Migne, 1845. col. 934.
JOÃO PAULO II. Litterae encyclicae Redemptoris Mater. Acta Apostolicae Sedis, Cidade do Vaticano, v. 79, p. 361-433, 1987.
MASCIARELLI, Michele Giulio. Il primato della Parola e il suo ascolto: Maria modello del credente. In: TONIOLO, Ermanno M. (org.). Maria nel cuore della Parola di Dio: donata, accolta, trasmessa. Roma: Centro di Cultura Mariana «Madre della Chiesa», 2009. (Fine d’anno con Maria, 29). p. 211-255.
ZENÃO DE VERONA. Tractatus I,13: De circumcisione. In: MIGNE, J.-P. (ed.). Patrologia Latina. t. 11. Paris: Migne, 1845. col. 345-354.
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