Clemente de Alexandria: a esperança na formação do verdadeiro gnóstico

Para Clemente de Alexandria, a esperança é a «expectativa de bens» futuros, nascida da fé e apoiada na fidelidade de Deus às suas promessas. Ela liga o temor inicial ao amor perfeito, sustenta a paciência e o martírio e acompanha o «verdadeiro gnóstico» até ao fim, já saboreando o que espera.
Clemente de Alexandria (c. 150-c. 215), mestre da escola catequética de Alexandria, não escreveu um tratado sobre a esperança e não lhe dá o mesmo relevo que à fé (πίστις) e ao amor (ἀγάπη). Mas a esperança (ἐλπίς) atravessa os Stromata e o Pedagogo e tem um papel preciso no caminho que leva o batizado à perfeição. Este estudo reúne esses textos. Para a vida, as obras e o conjunto do pensamento do autor, veja o guia Clemente de Alexandria: quem foi, obras e pensamento.

O que é a esperança para Clemente de Alexandria
Clemente dá duas definições curtas, ambas no livro II dos Stromata. Na primeira, a esperança é «ἐλπὶς δὲ προσδοκία κτήσεως ἀγαθοῦ», «a esperança é expectativa da posse de um bem» (Stromata II,6, ed. Stählin, GCS 15, p. 127). Na segunda, mais adiante, «ἐλπὶς δὲ προσδοκία ἀγαθῶν», «a esperança é expectativa de bens» (Stromata II,9).
No mesmo capítulo 6, Clemente acrescenta que a esperança se constitui a partir da fé: quem espera precisa crer que o bem esperado é real e que a promessa é digna de confiança. Por isso, diz ele, a fé é o primeiro movimento rumo à salvação, e depois dela o temor, a esperança e o arrependimento, avançando junto com a temperança e a paciência, conduzem ao amor e ao conhecimento (Stromata II,6).
A esperança olha para o futuro. Clemente observa que a memória se refere ao passado e a esperança ao que há de vir, e que crer no que foi profetizado e ainda não se cumpriu é uma apreensão do futuro (Stromata II,12). No livro V, ele explica que quem espera, como quem crê, vê com a mente as realidades inteligíveis e futuras, e descreve a sequência do discípulo: o ignorante procura, encontra o mestre, crê, espera e, amando, assemelha-se ao que ama (Stromata V,3).
Uma confiança firme nas promessas de Deus
A esperança cristã não é mera opinião provável. Logo depois de definir a esperança, Clemente distingue a fé da simples suposição dos filósofos e fala da confiança com que nos apoiamos em Deus: «πεποίθησις δὲ διάληψις βεβαία περί τινος», «a confiança é uma apreensão firme acerca de algo» (Stromata II,6, ed. Stählin, p. 128). Confiamos, prossegue ele, só em Deus, de quem sabemos que não faltará ao que nos prometeu.
Nota de correção: a versão anterior desta página atribuía a expressão «apreensão firme» (διάληψις) à esperança. No texto grego ela define a confiança (πεποίθησις), que Clemente une à esperança, mas que não é a mesma palavra.
A esperança, sangue da fé (Pedagogo I,6)
A imagem mais forte vem do Pedagogo. Clemente compara a Igreja a um corpo cujo corpo é a fé e cuja alma é a esperança, e diz: «τῷ γὰρ ὄντι αἷμα τῆς πίστεως ἡ ἐλπίς, ὑφ᾽ ἧς συνέχεται, καθάπερ ὑπὸ ψυχῆς, ἡ πίστις», «pois na verdade o sangue da fé é a esperança, pela qual a fé é mantida unida, como por uma alma» (Pedagogo I,6, ed. Stählin, GCS 12, p. 113). E conclui que, quando a esperança se esvai, é como se o sangue se derramasse, e a vitalidade da fé se perde.
A esperança não é, portanto, um acessório da fé: é o que a mantém viva. Uma fé sem esperança seria um corpo exangue.
Esperança que se espera e esperança já recebida (Stromata II,22)
Comentando São Paulo, Clemente distingue dois sentidos da esperança: a que ainda se espera e a que já foi recebida. Por isso, diz ele, o fim é a restituição da esperança, e a mesma palavra «esperança» designa a sua realização. Apoia-se em Rm 5,4-5 (a paciência produz a prova, a prova a esperança, e a esperança não decepciona, porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações), em Gl 5,5-6 (aguardamos pela fé a esperança da justiça, a fé que age pelo amor), em Hb 6,11-20 e em Pr 1,33, onde quem escuta a Sabedoria habitará confiante e tranquilo (Stromata II,22).
No capítulo 20 do mesmo livro, ao comentar a renúncia e a cruz, Clemente promete a quem desapega a alma dos prazeres desta vida que a possuirá, encontrada e repousando na esperança aguardada (Stromata II,20). A esperança tem, assim, duas faces: expectativa do que virá e posse antecipada do que já começou.
Do temor ao amor: a esperança no caminho das virtudes
Clemente não fixa a esperança numa hierarquia rígida, mas mostra-a sempre entre o temor do início e o amor do fim. O temor de Deus, escreve, conduz ao arrependimento e à esperança, e a esperança, como aprendemos, leva ao amor (Stromata II,9). No livro IV repete a sequência: o primeiro passo da salvação é a instrução acompanhada de temor, que nos faz abster do mal, o segundo é a esperança, pela qual desejamos os melhores bens, e o amor aperfeiçoa (Stromata IV,7).
O ponto de chegada é a filiação. Quando a caridade cobre a multidão dos pecados, pela consumação da bem-aventurada esperança, o fiel passa de servo a filho e é acolhido na adoção (Stromata I,27). O temor, portanto, não é desprezado: tem valor pedagógico, porque abre caminho para a esperança e para o amor.
Esperança, paciência e martírio
A esperança sustenta a perseverança. Citando Rm 5,3-5, Clemente afirma que a paciência existe por causa da esperança no futuro (Stromata IV,22). E, ao tratar do martírio, lembra que somos salvos na esperança e que, se esperamos o que não vemos, aguardamos com paciência (Rm 8,24-25, citado em Stromata IV,7).
Clemente alarga o sentido de martírio. Chamamos o martírio de perfeição, diz ele, não porque o homem chega ao fim da vida, mas porque mostra a obra perfeita do amor. E se a confissão de Deus é martírio, toda alma que viveu com pureza no conhecimento de Deus e obedeceu aos mandamentos é testemunha pela vida e pela palavra, seja qual for o modo como deixe o corpo (Stromata IV,4). Esse é o martírio gnóstico, em que a esperança e o amor fazem da vida inteira uma oferta.
Além do temor servil e do cálculo da recompensa (Stromata IV,22)
Clemente critica quem faz o bem só por medo do castigo ou só pela esperança da recompensa: como o medo torna justo um, a recompensa torna justo outro, ou antes, apenas o faz parecer justo. Recorda que os pitagóricos, Sócrates no Fédon e Heráclito também conheceram a esperança depois da morte, mas o cristão maduro faz o bem por amor ao próprio bem (Stromata IV,22). No livro VII chama a isso caminho real: ser justo não por necessidade, temor ou esperança, mas por livre escolha (Stromata VII,12).
Isso não suprime a esperança. Purifica-a: o gnóstico já não espera um salário, espera Deus mesmo.
A esperança no verdadeiro gnóstico (Stromata VII)
Clemente distingue os fiéis que vivem a fé de modo comum e os «gnósticos», que chegaram a um amor mais perfeito. Mesmo no gnóstico, porém, a esperança permanece. Ele não ama os bens do mundo, mas as coisas esperadas, ou antes, já conhecidas, esperadas para serem alcançadas, e o conhecimento lhe deu a persuasão mais firme de receber os bens futuros (Stromata VII,11). É inseparável do mandamento e da esperança, e dá graças a Deus em toda prova (Stromata VII,12). Vive unindo a fé à esperança, na expectativa do futuro (Stromata VII,13).
A perfeição não o separa dos irmãos. Clemente diz que a fé dos eleitos se mostra em escolher as mesmas coisas, o conhecimento em aprender e pensar as mesmas coisas, e a esperança em desejar as mesmas coisas (Stromata VII,12). O gnóstico espera com toda a Igreja.
Síntese: o papel mediador da esperança
Para Clemente de Alexandria, a esperança não ocupa um lugar fixo numa escala de virtudes, nem recebe a ênfase que outras tradições lhe deram. Ainda assim, ela permeia toda a sua visão da vida cristã:
- Dimensão futura e presente: é expectativa dos bens prometidos e, ao mesmo tempo, posse antecipada do que já foi recebido (Stromata II,22).
- Ponte entre fé e amor: nasce da fé, é o seu sangue e conduz ao amor perfeito (Stromata II,6 e II,9, Pedagogo I,6).
- Unida ao temor, ao arrependimento e à paciência: dá sentido a cada um deles e sustenta o testemunho até ao martírio (Stromata IV,4, IV,7 e IV,22).
- Fundada em Deus: apoia-se na confiança firme naquele que não falta às suas promessas, e não numa opinião provável (Stromata II,6).
A esperança clementina não é simples sentimento de expectativa, mas uma virtude que sustenta o progresso espiritual, do batismo à plenitude do conhecimento e do amor, em comunhão com todo o Corpo de Cristo. A mesma linha atravessa a tradição alexandrina, como se vê em Orígenes e a esperança cristã, e chega ao Magistério recente na encíclica Spe salvi de Bento XVI, que percorre a história da esperança no pensamento cristão.
Perguntas frequentes
O que é a esperança para Clemente de Alexandria?
Clemente define a esperança como expectativa da posse de um bem (Stromata II,6) e como expectativa de bens (Stromata II,9). Ela nasce da fé, apoia-se na fidelidade de Deus às suas promessas e conduz ao amor.
Como Clemente relaciona fé, esperança e amor?
Para Clemente, a fé é o primeiro movimento rumo à salvação. Depois vêm o temor, a esperança e o arrependimento, que levam ao amor e ao conhecimento (Stromata II,6 e II,9). No Pedagogo (I,6) ele chama a esperança de sangue da fé, aquilo que a mantém viva.
O verdadeiro gnóstico ainda precisa de esperança?
Sim. Clemente ensina que o gnóstico não faz o bem por medo do castigo nem por cálculo de recompensa, mas continua a esperar: ama as coisas esperadas, que já conhece, vive unindo a fé à esperança e deseja os mesmos bens que os seus irmãos (Stromata VII,11-13).
O que Clemente de Alexandria entende por martírio gnóstico?
Clemente chama o martírio de perfeição porque mostra a obra perfeita do amor. Por isso toda alma que viveu com pureza no conhecimento de Deus e obedeceu aos mandamentos é testemunha pela vida e pela palavra, mesmo sem derramar o sangue (Stromata IV,4). A esperança e a paciência sustentam esse testemunho.
Ver também: Mariologia patrística: os Padres da Igreja e Maria (séc. II-VIII) e o portal de Mariologia.
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