Páscoa

A adoração da Cruz e a Virgem Dolorosa:

A Sexta-feira Santa não tem Missa. Tem uma Ação Litúrgica. Esta distinção não é protocolar: é teológica. A Sexta-feira Santa é o único dia do ano em que a Eucaristia não é celebrada nem consagrada, porque a Cruz é o altar, o sacerdote e a vítima. A liturgia romana articula esta celebração singular em três momentos articulados:

  • a Liturgia da Palavra,
  • a Adoração da Santa Cruz,
  • a Comunhão com as espécies consagradas na Quinta-feira.

Em cada um destes momentos, a pessoa de Maria de Nazaré emerge com uma função que não é decorativa: é estrutural.

Nesta Sexta-feira Santa de 2026 propomos uma leitura da ação litúrgica da Paixão a partir do seu núcleo mariológico: o stabat da Mãe junto à Cruz, a sua associação ao sacrifício do Filho, e os exercícios piedosos que a Igreja recomenda, a Via Matris, a Hora da Desolada e a contemplação da Pietà, como formas legítimas e recomendadas de participar no mistério que a liturgia celebra.

I. A primeira leitura: Is 52,13–53,12 e o «Servo sofredor» que Maria conhecia

A ação litúrgica da Sexta-feira Santa abre com o quarto cântico do Servo do Senhor (Is 52,13–53,12): «Ele não tinha aparência nem beleza que nos atraísse; o seu aspecto não nos inspirava desejo algum. Era desprezado e abandonado pelos homens, homem das dores, habituado ao sofrimento» (Is 53,2-3). Este texto, que a tradição cristã sempre leu como profecia da Paixão de Cristo, tem uma dimensão mariana que raramente é explicitada: Maria de Nazaré conhecia estas páginas. Ela cresceu com elas. Guardou-as no coração.

Quando a mãe do Senhor permanece de pé junto à Cruz, «stabat autem iuxta crucem Iesu mater eius» (Jo 19,25), ela não assiste a uma catástrofe incompreensível. Ela reconhece, na carne do Filho, as palavras do profeta: «Como muitos se horrorizaram diante dele, tão desfigurada era a sua aparência» (Is 52,14). O stabat de Maria não é apenas fidelidade afetiva: é reconhecimento profético. É a fé da filha de Sião que identifica no Crucificado o Servo anunciado e crê, contra toda evidência visível, que «pelo seu sofrimento justificará a muitos e tomará sobre si as iniquidades deles» (Is 53,11).

II. A segunda leitura: Hb 4,14–16; 5,7–9 e Maria como «vítima unida ao Sumo Sacerdote»

A segunda leitura é tirada da Carta aos Hebreus: «Temos um Sumo Sacerdote que foi tentado em tudo à nossa semelhança, mas sem cometer pecado» (Hb 4,15). A cristologia sacerdotal desta carta, que apresenta Cristo como Sumo Sacerdote que oferece a si mesmo em sacrifício, tem uma ressonância mariológica que a tradição patrística não ignorou. Se Cristo é o Sumo Sacerdote, Maria é a vítima unida ao sacrifício: não em igualdade de títulos, mas em participação subordinada, vivendo na própria alma o que o Filho oferece no próprio corpo.

O texto de Hebreus precisa: «nos dias da sua vida mortal, Jesus ofereceu orações e súplicas, com forte clamor e lágrimas, a Deus que o podia salvar da morte» (Hb 5,7). As lágrimas de Jesus são também as lágrimas de Maria. A tradição do Planctus Mariae, o lamento litúrgico-dramático da Mãe junto à Cruz, cultivado na Igreja desde a Alta Idade Média, não é uma invenção sentimental: é a expressão litúrgica e eclesial desta participação de Maria no sacrifício do Filho. A Igreja, ao recomendar este exercício piedoso, reconhece que as lágrimas de Maria têm um valor teológico. Afinal da cristalização das lágrimas de Maria nasceu a Igreja!

III. O Evangelho: Jo 18–19 e o «stabat Mater» como ato litúrgico

O Evangelho da Paixão segundo João (Jo 18–19) é o eixo da ação litúrgica. João é o único evangelista que coloca Maria explicitamente sob a Cruz: «Junto à Cruz de Jesus estavam de pé a sua mãe, a irmã de sua mãe, Maria, mulher de Clopas, e Maria de Magdala» (Jo 19,25). O verbo que João usa, histémi [ἵστημι], «estar de pé», é o mesmo que descreve os servos de Deus na sua atitude cultual diante de Deus nos LXX. O stabat de Maria é, na gramática teológica de João, uma postura litúrgica: ela «está de pé» diante do altar da Cruz como sacerdotisa da dor e da oblação.

Este stabat é também o fundamento do testamento pascal: «Jesus, vendo a mãe e junto a ela o discípulo que amava, diz à mãe: ‘Mulher, eis [vê] o teu filho.’ Depois diz ao discípulo: ‘Eis [vê] a tua mãe.’» (Jo 19,26-27). A maternidade espiritual de Maria nasce precisamente deste momento litúrgico-sacrificial. Não é um episódio doméstico: é um acto constitutivo da Igreja, pronunciado pelo Sumo Sacerdote no momento da sua oblação. Ao declarar João «filho» de Maria, Cristo faz o que a liturgia faz: institui, realiza, santifica.

IV. A adoração da Santa Cruz e a «Via Matris»

O segundo momento da ação litúrgica é a Adoração da Santa Cruz, com a antífona que ressoa nas igrejas: «Ecce lignum Crucis, in quo salus mundi pependit. Venite, adoremus» «Eis o madeiro da Cruz, onde esteve suspenso o Salvador do mundo. Vinde, adoremos» Neste gesto de adoração, os fiéis fazem o que Maria fez: aproximam-se do Crucificado, curvam-se, tocam. A Via Matris, aprovada pela Sé Apostólica, é o complemento mariano desta adoração: propõe ao fiel contemplar a Paixão de Cristo pelos olhos da Mãe, que «o encontrou e o seguiu; o assistiu quando foi tirado da Cruz e colocado no sepulcro».

A Hora da Desolada, outro exercício piedoso recomendado pela Igreja, é a forma comunitária desta contemplação: os fiéis «fazem companhia» à Mãe do Senhor, imersa em profunda dor após a morte do Filho. Não é uma dramatização: é uma participação.

A Pietà, a imagem de Maria com o Filho morto no colo, é a síntese iconográfica deste mistério: «em Maria se concentra a dor do universo pela morte de Cristo; nela, vemos a personificação de todas as mães que, ao longo da história, choraram a morte de um filho».

A Sexta-feira Santa convida-nos, em 2026, a permanecer onde Maria permaneceu: de pé. A adorar a Cruz que ela não abandonou. A deixarmo-nos ensinar pela Mãe que sabia que, do madeiro onde o Filho estava suspenso, brotava a salvação do mundo. Venite, adoremus.

Daniel Afonso

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