«Christum crucifixum»: Agostinho, o azeite das prudentes e a Sede da Sabedoria

Nos autem praedicamus Christum crucifixum, Iudaeis quidem scandalum, gentibus autem stultitiam. […] Vigilate itaque, quia nescitis diem neque horam.
1Cor 1,23 e Mt 25,13
A sexta-feira da Semana XXI do Tempo Comum, dia em que a Igreja celebra santo Agostinho de Hipona, junta a página mais violenta de Paulo contra a autossuficiência da razão e a parábola das dez virgens. Num lado, a cruz que desmonta a sabedoria do mundo. No outro, o azeite que ninguém pode emprestar a ninguém. As duas leituras dizem, por vias diferentes, que há coisas que só se recebem, e que a hora de as receber não é a hora de as pedir emprestadas.
I. A primeira leitura: 1Cor 1,17-25
Paulo escreve a Corinto, cidade grega orgulhosa da sua eloquência, e ataca precisamente o ponto de orgulho. Diz que foi enviado a anunciar o Evangelho «não com a sabedoria da linguagem, a fim de não se desvirtuar a cruz de Cristo» (v.17). A preocupação não é estilística. Um anúncio demasiado bem construído corre o risco de convencer pela sua própria força e de deixar a cruz de fora, como ornamento de um discurso que se sustentaria sem ela.
Segue-se a formulação que atravessou toda a teologia posterior: «a linguagem da cruz é loucura para aqueles que estão no caminho da perdição, mas é poder de Deus para aqueles que seguem o caminho da salvação» (v.18). Paulo não diz que a cruz parece loucura e depois se revela sensata. Diz que ela é escândalo para os judeus, que pedem sinais, e loucura para os gregos, que procuram sabedoria, e que continua a sê-lo. O que muda não é o objeto, é a posição de quem olha. Por isso a conclusão é uma inversão radical dos termos: «o que é loucura de Deus é mais sábio do que os homens, e o que é fraqueza de Deus é mais forte do que os homens» (v.25).
II. O evangelho: Mt 25,1-13
A parábola das dez virgens tem sido lida muitas vezes como um aviso sobre a pontualidade, e não é isso. Todas as dez saíram ao encontro do esposo. Todas levaram lâmpadas. Todas adormeceram, prudentes e insensatas igualmente, porque o esposo tardava. A única diferença está no azeite que cinco levaram nas almotolias e cinco não levaram (v.4).
O detalhe decisivo é a recusa das prudentes: «talvez não chegue para nós e para vós» (v.9). A resposta soa dura e é teologicamente exata. Há bens que não se transferem. A fé vivida, a caridade exercida, a vida interior construída ao longo dos anos, nada disso se empresta na última hora, não por avareza de quem tem, mas pela natureza daquilo que se tem. E o desfecho, «não vos conheço» (v.12), não descreve um esquecimento do esposo. Descreve uma relação que nunca chegou a existir, porque ninguém a construiu enquanto havia tempo.
III. Agostinho: a sabedoria que se recebe tarde
Poucos santos ilustram estas duas leituras como o bispo de Hipona (354-430), cuja memória a Igreja celebra hoje, no dia seguinte ao da sua mãe. Agostinho foi exatamente o grego que procurava sabedoria. Professor de retórica em Cartago, Roma e Milão, passou anos a medir o cristianismo pelos critérios literários da cultura em que fora formado, e achou a Escritura pobre de estilo. A cruz foi-lhe, durante muito tempo, aquilo que Paulo diz que ela é para quem a olha de fora.
A frase que ele deixou sobre esse percurso é a confissão de um homem que percebeu tarde que o azeite não se compra à pressa: «tarde te amei, beleza tão antiga e tão nova, tarde te amei» (AGOSTINHO. Confissões X,27,38). E o princípio que abre o mesmo livro explica por que a demora foi possível: «fizeste-nos para ti, e o nosso coração está inquieto enquanto não repousar em ti» (Confissões I,1,1). O coração humano não é neutro. Está construído para um repouso determinado, e todo o tempo gasto fora dele é tempo de inquietação, não de liberdade.
IV. Maria, Sede da Sabedoria e Virgem prudentíssima
A ladainha lauretana dá a Maria dois títulos que hoje se iluminam mutuamente. Chama-lhe Sedes Sapientiae, Sede da Sabedoria, e Virgo prudentissima, Virgem prudentíssima. O primeiro diz o que ela recebeu. O segundo diz o modo como o guardou.
Maria é Sede da Sabedoria num sentido que não é metafórico. Aquilo que Paulo chama «loucura de Deus» tomou carne dentro dela. Ela não compreendeu a cruz antes dos outros nem em lugar deles, e o Concílio é sóbrio ao dizer que avançou na peregrinação da fé (LG 58), o que supõe obscuridade e não antecipação. Mas esteve de pé junto à cruz (Jo 19,25), no lugar exato onde o escândalo e a loucura se consumaram, e permaneceu ali quando toda a sabedoria disponível dizia que aquilo era um fracasso. Santo Agostinho notou onde estava a verdadeira grandeza dela: «Maria foi mais feliz por receber a fé de Cristo do que por conceber a carne de Cristo» (AGOSTINHO. De sancta virginitate 3,3).
É prudentíssima no sentido exato da parábola. Levou azeite. Do fiat ao Calvário, e do Calvário ao Cenáculo, manteve a lâmpada acesa durante todo o tempo em que o esposo tardava, e chegou à hora sem precisar de pedir emprestado a ninguém. A tradição da Igreja reconhece nela aquilo que ainda procura para si, porque nela já está consumado o que os fiéis ainda buscam vencendo o pecado (LG 65).
A sexta-feira da Semana XXI propõe assim uma pergunta que não admite adiamento. Não se trata de saber se compreendemos a cruz, porque Paulo garante que ela não deixará de parecer loucura. Trata-se de saber se estamos a juntar azeite enquanto o esposo tarda. Agostinho juntou-o tarde e chegou a tempo. Maria juntou-o desde a primeira hora e não precisou de correr.
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